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Francisco Palha · Modernismo

Por fim

portugués

Tu queres, Dorinda, queres
que eu tome os banhos da igreja?!
Não será melhor que esteja
de noite a fazer colheres,
de dia a apanhar carqueja?!

Pelo ceu! que o matrimonio
não é mais que pellourinho,
d'onde as barbas do visinho
vemos ardendo! demonio
disfarçado em Cupidinho.

O outono com seu cortejo
de folhas seccas no chão!
O eterno adeus á illusão!
O ultimo som do harpejo
que Amor tira ao coração!

O susto! a agonia! o trance
de ir vivendo sempre á espreita
se ha quem tornar-nos alcance,
pois tal historia deleita,
altos heroes d'um romance.

E queres, Dorinda, queres
que eu tome os banhos da igreja?!
Para quê? Para que veja
que entre todas as mulheres
uma existe que sobeja?!

Não! e não! Viva o solteiro!
Aguia voando no espaço
sem ter certo o paradeiro,
e cravando as garras d'aço
nas pombas que vê primeiro!

Sae, e entra, e torna fóra
sem que ninguem lhe interrogue
onde foi, qual é a hora,
nem pecuinhas lhe jogue
sobre a provavel demora;

Sem que a esposa ciumenta,
Furia, Medusa, tormenta
de más caras, más respostas,
invente o que o diabo inventa:
dormir-se costas com costas.

E, depois, Madame Aline
rôa as unhas! Que se fine
entre rendas d'Alençon!
que o meu dinheiro não tine
p'ra que tu andes no tom!

Já vês que debalde queres
que eu tome os banhos da igreja.
Iça o pau da carangueja!
Nos turcos os escaleres,
e para o largo veleja!

Mas tambem... viver sósinho!
Sem fé... perdido... sem ninho...
Sem se erguer uma só voz
na aridez d'este caminho
a Deus orando por nós!!

Retornando ao lar deserto
achar tudo a trochemoche!...
O bahu sem chave e aberto
dizendo ao larapio:—Entrouxe,
que você é que é o esperto!—

Sempre mal fervida a sopa!
Sempre o café mal torrado!
Feita a passagem na roupa
deixando o dono enleiado
se foi a agulha se a choupa!

Se ainda, Dorinda, queres
que eu tome os banhos da igreja,
não descances na peleja,
que eu sou como os malmequeres:
não e sim. Louvado seja!

Ai! que é bom durante os ocios,
na fortuna e na miseria,
achar ao lado uma Egeria
que, em se fallando em negocios,
não tuja sobre a materia;

Que seja como a romana,
meio amor e meio roca;
não sáia nunca da toca
mais que uma vez por semana,
nem tinja o cabello d'óca;

Nem, quando a afiada foice
da vida o fio nos córte,
de rijo invective a Sorte,
e diga baixinho:—Foi-se!
Quanto és minha amiga, ó morte!—

E d'aqui outro consolo
melhor que maracujá
e que o dôce de tijolo:
ter quem, a rilhar n'um bolo,
nos julgue e chame papá!

Loura criancinha meiga,
para o pai mimo celeste,
e para o estranho uma peste
que emporcalha de manteiga
as calças que a gente veste.

Inda agora é que eu reparo
nos teus olhos, creatura!
São negros... d'um negro raro!
Negros como a noite escura
com seus quês d'um sol bem claro!

Alto o seio e pura neve
que mil desejos excita!
O pé delgadinho e breve;
e quanto a mão... Deus permitta
que a não tenhas muito leve.

Dá-me o teu braço, Dorinda.
Vamos aos banhos da igreja.
Certo é que não graceja
quem diz que os refrescos, linda,
curam toda a brotoeja.

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Autor
Francisco Palha
Título
Por fim
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-por-fim--francisco-palha-806b03
Cita recomendada
Francisco Palha, «Por fim», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-por-fim--francisco-palha-806b03.html

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