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Raimundo António de Bulhão Pato · Modernismo

Perdoaste!

portugués

Anjo offendido; outra vez,
Volve teus olhos do ceo
Áquelle que te offendeu!
Vel-o abatido a teus pés,
Anjo esquece, e compassivo,
Num sorriso de perdão,
Torna a dar-lhe o coração.
A cada instante mais vivo
O remorso cresce em mim;
Perdoa, oh! perdoa, emfim!

Offendi-te num momento
De terrivel desvario;
Era o ciume violento!
O rubor da castidade
A tua face affrontava,
E eu cego, eu perdido, ousava
Proseguir! oh! por piedade,
Por piedade, anjo do ceo,
Perdoa a quem te offendeu!

Em breve a razão voltou,
E com ella essa anciedade
Do desgraçado que ousou
Num momento de loucura
Offender a divindade.
Nas trevas da noite escura,
Nem ao menos uma estrella,
Brilhava serena e bella!
E eu caminhava em delirio
Sem força para acabar
A vida que era um martyrio!
A tão profunda amargura
Quem me podia arrancar,
Quem, senão um teu olhar?

Lá, nas sombras do horisonte,
Despontou por fim a luz,
A mesma que em tua fronte
Bella e placida reluz.
No peito afflicto e cançado
Senti dilatar-se então
Este oppresso coração;
O teu olhar adorado
A mim outra vez volveu,
Terno, meigo, apaixonado.
Perdoaste, anjo do ceo!

Abril de 1857.

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La Biblioteca

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Expediente

Autor
Raimundo António de Bulhão Pato
Título
Perdoaste!
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-perdoaste--raimundo-antonio-de-bulhao-p-def555
Cita recomendada
Raimundo António de Bulhão Pato, «Perdoaste!», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-perdoaste--raimundo-antonio-de-bulhao-p-def555.html

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