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Camilo Castelo Branco · Modernismo

O seu a seu dono

portugués

A Cesar o que é de Cesar,
Aos velhos o que é dos velhos!
Quem da crytica se encarga,
Deve andar estrada larga
E não metter-se por quelhos.

Sou assim! E mais sou velho
Mas a verdade é tambem,
Custe embora a quem custar,
A verdade hei-de-a fallar
Seja em mal, ou seja em bem.

Epaminondas Tebano,
A Concordia e o Nacional,
Nem a rir disseram petas:
Eu tambem como as gazetas,
Sou da honra o pedestal.

Não consinto que se diga,
Que só lavra a corrupção
Nas entranhas dos mancebos.
Eu conheço muitos gebos
Corruptos de profissão

Quem quizer venha ao Palheiro
Desta nossa Assemblea,
Ha-de vêr linguas farpadas
Em bocas já desdentadas
Maculando a honra alheia.

Ha-de vêr velhos devassos
Como em lubrica orgia,
Já vergados nas cernelhas,
Memorando infamias velhas
Com satanica alegria.

Ha-de vêr o extincto frade,
C'o a bochecha rubra e gorda,
Acerando o epygramma,
Nem se quer poupando a ama,
Que lhe faz em casa a sôrda.

Ha-de vêr o millionario
Brazileiro, com mil tretas,
A contar, com sujas cores,
As lendas dos seus amores
Com as suas trinta pretas.

Estes taes são os que infamam
A mocidade infeliz!
São estes em cuja tez
O oleo da estupidez
É da vergonha o verniz.

A mocidade não pode
Vencêl-os, não pode, não!
Dominam, são respeitados,
Representam vinculados
Os tempos da corrucção.

Nascidos, quando por terra
Os homens lançaram Deus;
Tem só fé no sensualismo,
E escarnecem com cynismo,
As crenças filhas dos ceus.

Gangrenado o corpo e alma,
Sem saber, e sem piedade,
São authomatos de barro,
Que resistem ao catharro
Pr'a vexar a humanidade.

Onde existe a virgem pobre,
Que de maguas vive cheia,
Lá vai ter uma mensagem
Da senil libertinagem,
Que o pudor lhe regateia.

Perguntai nesses alcouces
De miseria e compaixão,
Quantas victimas da fome
A deshonra ahi consomme,
E de quem victimas são.

Heis d'ouvir factos nojentos
Destes velhos que se arrastam
Sobre a lama das torpezas,
Das luxurias e villezas
Em que, cynicos, repastam.

Velho sou, bem alto o disse;
Mas deshonro-me de ser
Desta geração de velhos,
Em que os moços tem espelhos
Onde infamias possam ver!

Mocidade generosa!
Os teus crimes, tem nobreza;
Quando falla a consciencia,
Nem negaes a Providencia,
Nem manchaes a natureza.

Elles não; sempre atufados
Em nojentos tremedaes,
Crêem só no seu dinheiro,
No cavaco do palheiro,
Na barriga, e nada mais.

A Cesar o que é de Cesar,
Aos velhos o que é dos velhos!
Quem da crytica se encarga,
Deve andar estrada larga,
E não metter-se por quelhos.

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Autor
Camilo Castelo Branco
Título
O seu a seu dono
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-o-seu-a-seu-dono--camilo-castelo-branco-edccd5
Cita recomendada
Camilo Castelo Branco, «O seu a seu dono», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-o-seu-a-seu-dono--camilo-castelo-branco-edccd5.html

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