Eu trago em minh'alma afflicta
revolto mar de agonias.
Tedio da vida os meus dias,
as minhas noites, agita.
Ó minhas crenças d'outr'ora,
dôces amigas da infancia,
a que longinqua distancia
do meu peito andaes agora!
N'esta cerração escura
assim me deixaes sósinho!
e sem que volteis ao ninho
baixarei á sepultura!
De mim te acerca bem perto,
ó morte! No estreito abraço
vôa commigo no espaço,
leva-me d'este deserto!
Mas se na mansão infinda,
onde librar-me tencionas,
nos dão as mesmas taponas
com que a sorte aqui nos brinda;
Se esguio velhote avaro
n'essas alturas se encontra,
com seu barrete de lontra,
olhar e sorriso ignaro;
De fallas mansas, beato
para vêr se os santos pobres,
saudosos dos magros cobres,
lhe vão empenhar o fato;
Se o operario, se o povo
crê tambem que o mundo em ruina
ha de saír da officina
corrigido e mundo novo.
E em lutas, que são eternas
por lhe ser eterna a peia,
quebrar pretende a cadeia
e quebra a si proprio as pernas;
Se n'esse logar bemdito
pisamos a mesma lama
que sobre a terra se chama
—O Asmodeu,—O Mosquito—;
Se é Mercurio almiscarado
o filho de Compostella;
se por ventura um Alviella
tem lá de ser encanado;
Se o Milhão é quem impera;
se se fez Deus o egoismo;
se ha dôres de rheumatismo,
e nas vinhas phylloxera:
Fecha, ó anjo, as negras azas!
que em tal apuro, olha o rente!
tanto faz morrer a gente
como mudar-se de casas!