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Tomás António Gonzaga · Romanticismo

Lyra XX

portugués

E me visses com teus olhos
Nesta masmorra mettido;
De mil idéas funestas,
E cuidados combatido:
Qual seria, ó minha bella,
Qual seria o teu pezar?

Á força da dôr cedêra;
E nem estaria vivo,
Se o menino Deos vendado,
Extremoso, e compassivo,
Com o nome de Marilia
Não me viesse animar.

Deixo a cama ao romper d'alva;
O meio dia tem dado,
E o cabello inda flutua
Pelas costas desgrenhado.
Não tenho valor, não tenho;
Nem para de mim cuidar.

Diz-me Cupido: E Marilia;
Não estima esse cabello?
Se o deixas perder de todo
Não se ha de enfadar ao vêllo?
Suspiro pego no pente,
Vou logo o cabello atar.

Vem hum taboleiro entrando
De varios manjares cheio,
Põe-se na meza a toalha,
E eu pensativo passeio:
De todo o comer esfria,
Sem nelle poder tocar.

Eu entendo que matar-te,
Diz Amor, te tens proposto;
Fazes bem: terá Marilia
Desgosto sobre desgosto.
Qual enfermo c'o remedio
Me afflijo, mas vou jantar.

Chegão as horas Marilia,
Em que o Sol já se tem posto,
Vem-me á memoria que nellas
Via á janella o teu rosto:
Reclino na mão a face
E entro de novo a chorar.

Diz-me Cupido: Já basta,
Já basta, Dirceo, de pranto;
Em obsequio de Marilia
Vai erguer teu doce canto.
Pendem as fontes dos olhos,
Mas eu sempre vou cantar.

Vem o Forçado accender-me
A velha çuja candêa;
Fica, Marilia, a masmorra
Inda mais triste, e mais fêa.
Nem mais canto, nem mais posso
Huma só palavra dar.

Diz-me Cupido: São horas
De escrever-se o que está feito;
Do azeite, e da fumaça
Huma nova tinta ageito,
Tomo o páo, que penna finge,
Vou as Lyras copiar.

Sem que chegue o leve sono
Canta o Gallo a vez terceira;
Eu digo ao Amor; que fico
Sem deitar-me a noite inteira:
Faço mimos, e promessas
Para elle me acompanhar.

Elle diz que em dormir cuide,
Que hei-de ver Marilia em sonho;
Não respondo huma palavra,
A dura cama componho,
Apago a triste candêa,
E vou-me logo deitar.

Como póde a taes cuidados
Risistir, ó minha Bella,
Quem não tem de Amor a graça?
Se eu que vivo á sombra della
Inda vivo desta sorte,
Sempre triste a suspirar?

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Por su autor
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Expediente

Autor
Tomás António Gonzaga
Título
Lyra XX
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-lyra-xx--tomas-antonio-gonzaga-4d184a
Cita recomendada
Tomás António Gonzaga, «Lyra XX», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-lyra-xx--tomas-antonio-gonzaga-4d184a.html

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