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Tomás António Gonzaga · Romanticismo

Lyra XIX

portugués

Nesta triste masmorra,
De hum semivivo corpo sepultura,
Inda, Marilia, adoro
A tua formosura.
Amor na minha idéa te retrata,
Busca extremoso, que eu assim resista
Á dôr immensa, que me cerca, e mata.

Quando em meu mal pondero,
Então mais vivamente te diviso:
Vejo o teu rosto, e escuto
A tua voz, e riso.
Movo ligeiro para o vulto os passos:
Eu beijo a tibia luz em vez de face;
E aperto sobre o peito em vão os braços.

Conheço a illusão minha;
A violencia da mágoa não supporto;
Foge-me a vista, e caio
Não sei se vivo, ou morto.
Enternece-se Amor de estrago tanto;
Reclina-me no peito, e com mão terna
Me limpa os olhos do salgado pranto.

Despois que represento
Por largo espaço a imagem de hum defunto,
Movo os membros, suspiro,
E onde estou pergunto.
Conheço então que Amor me tem comsigo;
Ergo a cabeça, que inda mal sustento,
E com doente voz assim lhe digo.

Se queres ser piedoso,
Procura o sitio em que Marilia móra,
Pinta-lhe o meu estrago,
E vê, Amor, se chora.
Se as lagrimas verter a dôr a arrasta,
Huma dellas me traze sobre as pennas,
E para allivio meu só isto basta.

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Expediente

Autor
Tomás António Gonzaga
Título
Lyra XIX
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-lyra-xix--tomas-antonio-gonzaga-75d9c9
Cita recomendada
Tomás António Gonzaga, «Lyra XIX», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-lyra-xix--tomas-antonio-gonzaga-75d9c9.html

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