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PoetósferaLa BibliotecaRaimundo António de Bulhão Pato

Raimundo António de Bulhão Pato · Modernismo

Lembras-te?

portugués

Lembras-te? frouxa expirava
Aquella doce harmonia
Que em nossas almas entrava.
De uma luz tão resplendente
Teu limpido olhar brilhava,
Como a da aurora nascente,
E aurora gentil sorria,
No meigo azul de teus olhos
Para raiar entre rosas
Fragrantes e sem abrolhos.

Quando mais tenue partiu
A cadencia saudosa,
Tua boca proferiu
Não sei que cortadas fallas,
Que o ouvido não sentiu,
Porque vieste graval-as
Com a voz do ceo no peito,
Que a ti rendido e sujeito
Anhelando t'as ouviu.

Ao proferil-as, dormente
O teu olhar descaíra,
E em teu pallido semblante
A expressão se reflectíra
Dos affectos que agitavam
A tua alma nesse instante.
Ai! nesse instante do ceo,
Que á terra breve fugíra,
Que a elle inteiro volveu!

No horisonte estremeciam,
Ebrias de amor as estrellas,
E teus olhos se fitavam
Na luz scintillante d'ellas;
É que no ceo procuravam
O eterno d'aquelle instante
Que na terra presentiam
Que passaria inconstante.

O alvor da nascente aurora,
Que no horisonte assomava,
Das estrellas desmaiava
A viva luz, e inda agora,
Tenho em minh'alma, querida,
A expressão com que me olhaste
Apontando para ella!
É que essa aurora tão bella
Não brilhava mais na vida!

Janeiro de 1849.

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Autor
Raimundo António de Bulhão Pato
Título
Lembras-te?
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-lembras-te--raimundo-antonio-de-bulhao-p-52fa1c
Cita recomendada
Raimundo António de Bulhão Pato, «Lembras-te?», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-lembras-te--raimundo-antonio-de-bulhao-p-52fa1c.html

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