Eu vislumbro uns estrânhos personagens,
Arrastando umas rusticas roupêtas
Por sob os toldos verdes das folhagens..
Olhái... São os Profétas.
Morrêram já ha muito, escalavrados
Pelas fomes e austeras penitencias
Nos desértos, plos cardos dos valádos,
Ao frio, á chuva e ás tórridas ardências.
Fitái-os—De cabêlos desgrenhádos
E grandes barbas brancas, luzidías,
Bracêjam pelos cêrros, inspirados
Plo sôpro geniál das profecias...
É o velho Jeremias, lastimando,
Nos pláinos verdoengos de Siquêm,
O insondável abismo formidando
Onde vê mergulhar Jerusalém!
Ai!—Na sua lamúria contristáda,
Lamúria de tristêza, de desgosto,
E bem toda uma Raça desgraçáda,
Que chora o seu sol-posto...
*
Ó líricas aldeias da Judéa,
Ó rusticos trigáis de Zabulom,
Ó arvores floráis da Galiléa,
Ó aguas murmurosas do Sarom...
—Ó aldeias humildes, aninhadas
Nas encostas, por entre os palmeiráis,
Que adormecêis em horas repousadas
Sob o luar das noites orientáis...
—Ó trigáis lourejantes, ondulados
Pelas tépidas brisas perfumosas,
Que passam, beijocando nos valados
As corólas balsâmicas das rosas...
Ó arvores escuras, sussurrantes...
Ó airosas e múrmuras palmeiras,
Que dáis sombra aos cansados viandantes
Roidos das poeiras...
Ó aguas do Jordão, aguas sagradas,
Que roláis sobre a areia, léz-a-léz,
Suspirando umas místicas baládas
Do tempo de Moisés...
—Ó coisas orientáis...
Ó brancas pombas que arroláis tão bem,
Ó hôrtos, ó jardins, ó oliváis,
Ó lirios de Belem!
Eu quero ouvir as lástimas antigas
Dos Juizes, dos Reis mais dos Profétas
De longas barbas brancas como estrigas,
De olhos pisados, roxos quáis violêtas...
Contái-me essas antigas penitencias,
Essas heróicas orações estrânhas,
Que murmuravam sobre as eminencias
Das ásperas montânhas...
Cantái-me as melopeias contristádas
Das cândidas mulheres bibliáis,
Quando iam, ao clarão das alvorádas,
Prá ceifa dos trigáis...
Falái-me dessa Virgem toda luz,
Da mística alegria dessa Mãe,
Quando em seus braços recebêu Jesus
Na Lápa de Belém...
Falái-me dos grosseiros sacerdótes,
Dos magros e barbudos Farisêus,
E desse esgrouviádo Escariotes,
Que ousôu traír um Deus!
Falái-me de Jesus e seus martírios,
Do seu ultimo gesto de perdão,
Ó aguas do Jordão,
Ó urzes do Calvário, ó roxos lirios...