Olha bem estes sitios queridos,
Vê-os bem n’este olhar derradeiro...
Ai! o negro dos montes erguidos,
Ai! o verde do triste pinheiro!
Que saudades que d’elles teremos...
Que saudade! ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, n’este ar que bebêmos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de innocencia e vigor!
Oh! aqui, aqui só se ingrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas azas o niveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A innocencia infantil do pudor.
E oh! deixar taes delicias como ésta!
E trocar este ceo de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão á impostura,
Ir saudar a mentira em sua côrte,
Ajoelhar em seu throno á vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade...
Ai! não, não... nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou.
Diz-lhe a adeus n’este olhar derradeiro,
Dize á sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sitios queridos
D’esta ruda, feroz soledade,
Paraizo onde livres vivemos...
Oh! saudades que d’elle teremos,
Que saudade! ai, amor, que saudade!