Quem, senão ella (oh Ceos!) me obrigaria
A tão pasmoso extremo? A Sorte impía
Com todo o seu poder nunca tem feito
Desmaiar a constancia de meu peito:
Quem me abate he Amor, não o Destino.
Eu te conto o meu mal, eu vou, Francino,
Retratar-te a mais negra, a mais horrivel
De todas as traições. Não he possivel
Nos Ermos encontrar da Lybia ardente
Monstro, seja Leão, seja Serpente,
Que possa comparar-te á Féra humana,
Que com tanto rigor me desengana.
Quantas vezes notaste, honrado Amigo,
Finezas, que a traidora obrou comigo!
Quantas vezes daqui presenciaste
Seus gestos, seus affagos, e julgaste,
Que o mais ardente amor, a fé mais pura
Pagavão minha candida ternura!
Ouve, e conhecerás (ai de mim triste!)
Que foi sonho, illusão tudo o que viste.
Já sabes, que no dia em que ligado
A Marcia Jonio foi pelo sagrado,
Indissoluvel nó, cantei louvores
A tão ditosos, tão fiéis amores,
E o número augmentei dos Convidados;
Já sabes as meiguices, e os agrados,
Com que a minha infiel me fez ditoso:
Alli, traçando hum baile harmonioso,
Por parceiro me quiz; alli sentada
Junto a mim, vezes mil a refalsada
Protestou, que em sua alma eu só vivia,
Que eu era de seus olhos a alegria,
Dando-me a bella mão furtivamente,
Que, ardendo de paixão, beijei contente.
Pedio-me o desleal, que alli tornasse,
Que tão doce prazer lhe não roubasse:
Guiado por Amor, fui inda agora
Seu desejo cumprir, que antes não fora,
Porque não sentiria este martyrio,
Este ardor, esta raiva, este delirio.
Jonio, que estava á porta da Cabana,
Me veio receber... ah! Quanto engana
Huma apparencia alegre, e carinhosa!
Entrei, puz logo os olhos n'aleivosa,
Que, em vez de me tratar com meigo agrado,
Tinha nas faces o desdem pintado.
Pasmando da mudança repentina,
Lhe disse: amado bem, cara Urselina,
Tu comigo tão aspera? Eu ignoro
Em que pude aggravar quem tanto adoro.
Isto dizendo, avizinhei-me a ella,
Que estava ao pé da rustica janella,
E da térna pergunta não fez caso,
Nem o rosto voltou, e olhando acaso
Á proxima Cabana de Nigélla,
Vi encostado Inálio á porta della
Olhar para Urselina, a Deos dizer-lhe,
E sem pejo a Cruel corresponder-lhe
C'um doce riso, hum gesto namorado,
De amantes expressões acompanhado.
Fervendo-me no peito o amor, e a ira,
Logo, logo em pedaços fiz a Lira,
E em mil imprecações, em mil queixumes
O furor exhalei dos meus ciumes,
Ameaçando a infiel, que eu me vingava
No odioso Rival, que me affrontava,
Se huma satisfação, que Inálio visse,
Logo o meu pundonor não ressarcisse.
Prometeo-me, que sim, mas de repente
A meus olhos se esconde, e vai contente
O lérdo, o baixo Amante encher de gloria,
Que não cabia em si pela victoria,
Que a peor das traições lhe tinha dado.
Fiquei louco, fiquei desesperado,
Contemplando este assombro nunca visto
Nem na imaginação. Não pára nisto
Daquella ingrata a pérfida baixeza:
De novas fúrias cruelmente acceza,
Procura Aónio, inerte Pegureiro
Que he o riso da gente no Terreiro
Quando sahe a bailar, a cada passo
Se esquece da harmonia, e do compasso,
Sendo falto de prendas, e de sizo
Como o louco Magálio, o rude Anfrizo.
Urselina lhe diz, que me incitasse
A que a Choça de Jonio abandonasse,
Persuadindo-me, emfim, que não devia
Presenciar a affronta, que soffria.
Acreditei o indigno Conselheiro,
E sahi da Cabana, onde primeiro
Tinha logrado os mimos da perjura,
Que assim desenganou minha ternura.
Ah genio desleal, fallaz, perverso!
Daquillo, que pensei, como és diverso!
Ai! Não me allucinava o meu ciume,
Era mais do que justo o meu queixume,
Quando (triste de mim!) quando julgava
Que Inálio, inda que simples, te agradava!
Accusei-te mil vezes de fingida,
De que a elle querias vêr-te unida
Em laços de Hymenêo; mas tu negaste
Sempre o que hoje sem pejo declaraste.
Traidora! Eu não dizia, eu não jurava,
Que o meu socego ao teu sacrificava!
Ah! Porque me não déste o desengano,
Que eu te pedia, Coração tyranno?
Se Inálio, porque tem Campos, e Gados,
Numerosos Casaes, amplos Montados,
Attrahe esse teu genio interesseiro,
E eu, posto que leal, que verdadeiro,
De clara geração, de sangue honrado,
Caducos, frageis bens não devo ao Fado,
E por isso não posso no teu peito
Produzir da ternura o doce effeito;
Que razão te obrigou a acarinhar-me,
E de hum fingido amor capacitar-me?
Coração, em perfidias atolado,
Impia, se o não tivesse inda creado
A vingadora Mão de Jove Eterno,
Devia para ti crear o Inferno.