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Gregório de Matos · Barroco

Dialogo — Entre o demonio e a alma

portugués

Cantavam naquelle tempo os chulos da Bahia certas cantigas por uma
toada triste que rematava, dizendo: «Banguê, que será de ti?» Mas
outros mais piedosos reduziam a mesma canção ao Divino finalizando
assim: «Meu Deus, que será de mim?» E o P. entre o temporal e o eterno
de uma o outra chularia introduziu uma alma christãa resistindo ás
tentações do demonio com a glosa de ambos os extremos:

Meu Deus, que será de mim?
Banguê, que será de ti?

Alma—Si o descuido do futuro
E a lembrança do presente
É em mim tão continente,
Como do mundo murmuro?
Será porque não procuro
Temer do principio o fim?
Será porque sigo assim
Cegamente o meu peccado?
Mas si me vir condemnado,
Meu Deus, que será de mim?

Dem.—Si não segues meus enganos
E meus deleites não segues,
Temo que nunca socegues
No florido de teus annos:
Vê como vivem ufanos
Os descuidados de si:
Canta, baila, folga e ri;
Porque os que não se alegraram,
Dous infernos militaram:
Banguê, que será de ti?

Alma—Si para o céu me creastes,
Meu Deus, á imagem vossa,
Como é possivel que possa
Fugir-vos, pois me buscastes?
E si para mim tractastes
O melhor remedio e fim;
Eu, como ingrato Caim,
D’este bem tão esquecido,
Tendo-vos tão offendido,
Meu Deus, que será de mim?

Dem.—Todo o cantar allivia
E todo o folgar alegra,
Toda a branca, parda e negra
Tem sua hora de folia:
Só tu na melancolia
Tens allivio? Canta aqui
E torna a cantar alli,
Que d’esse modo o practicam
Os que alegres prognosticam
Banguê, que será de ti?

Alma—Eu para vós—offensor,
Vós para mim—derretido?
Eu—de vós tão esquecido,
E vós de mim—Redemptor?
Ai como sinto, Senhor,
De tão mau principio o fim,
Si me não valeis assim,
Como áquelle que na cruz
Feristes com vossa luz?
Meu Deus, que será de mim?

Dem.—Como assim na flor dos annos
Colhes o fructo amargoso?
Não vês que todo o penoso
É causa de muitos damnos?
Deixa, deixa desenganos,
Segue os deleites, que aqui
Te offereço, porque alli
Os mais que cantando vão,
Dizem na triste canção:
Banguê, que será de ti?

Alma—Quem vos offendeu, Senhor?
Uma creatura vossa?
Como é possivel que eu possa
Offender meu Creador?
Triste de mim peccador,
Si a gloria que daes sem fim,
Perdida num Serafim
Se perder em mim tambem?
Si eu perder tamanho bem,
Meu Deus, que será de mim?

Dem.—Si a tua culpa merece
Do teu Deus toda a esquivança,
Folga no mundo e descança
Que o arrepender aborrece:
Si o peccado te entristece,
Como já em outros vi,
Te prometto desde aqui
Que os mais da tua facção
E tu no inferno dirão:
Banguê, que será de ti?

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Expediente

Autor
Gregório de Matos
Título
Dialogo — Entre o demonio e a alma
Lengua
portugués
Época
Barroco
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-dialogo-entre-o-demonio-e-a-alma--gregorio-de-matos-bc8ffc
Cita recomendada
Gregório de Matos, «Dialogo — Entre o demonio e a alma», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-dialogo-entre-o-demonio-e-a-alma--gregorio-de-matos-bc8ffc.html

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