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PoetósferaLa BibliotecaNicolau Tolentino de Almeida

Nicolau Tolentino de Almeida · Romanticismo

Carta

portugués

Senhor, a dada Perdiz,
Acerejada, e fresquinha,
Veio emendar os estragos
Da enjoativa gallinha;

Esta ave he sempre odioza
A melancólicos dentes;
Faz lembrar ultimos caldos
De já perdidos doentes;

He, além disto, hum cruzado
Fugido do mialheiro;
Este meu mortal fastio
Custou rios de dinheiro;

Mas da vossa lauta meza
Bocados medicinais
Forão tão bem applicados,
Que me curárão de mais;

Venceo vosso cozinheiro
O tal fastio cruel;
Meu estomago já pede
Meças com Fr. Manoel;

Mas, Senhor, vossa piedade
Vai ser-vos hum dom fatal;
Quizestes fazer hum bem,
Que redunda em vosso mal;

Fizestes nascer a fome,
E a fome pede mantença;
Se a deixais entregue a mim,
Póde morrer á nascença;

A vossa filha amparai;
Não he de peitos honrados
Pôr as suas Creaturas
Na Roda dos Engeitados.

Em soando as duas horas,
Sabei que esta cara minha
Tem longos, ávidos olhos,
Fitos na vossa Cozinha;

Eu não vou, porque inda fraco,
Indo arrostar ar delgado,
Antes de matar a fome,
Morreria constipado.

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Expediente

Autor
Nicolau Tolentino de Almeida
Título
Carta
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-carta--nicolau-tolentino-de-almeida-678c95
Cita recomendada
Nicolau Tolentino de Almeida, «Carta», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-carta--nicolau-tolentino-de-almeida-678c95.html

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