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Guerra Junqueiro · Vanguardias / s. XX

Cadaver

portugués

I

PRESTITO FUNEBRE

Que alegrias virgens, campezinas, fremem
N'este imaculado, limpido arrebol!
Como os galos cantam!... como as noras gemem!...
Nos olmeiros brancos, cujas folhas tremem,
Refulgente e novo passarinha o sol!...

Pela estrada, que entre cerejaes ondea,
Uma pequerrucha,—tro-la-ró-la-rá!—
Vae cantando e guiando o carro para a aldeia...
São os bois enormes, e a carrada cheia
Com um castanheiro apodrecido já.

Oh, que donairosa, linda boieirinha!
Grandes olhos garços, sorrisinho arisco...
D'aguilhada em punho lepida caminha,
Com a graça aerea d'ave ribeirinha,
Verdilhão, arveola, toutinegra ou pisco.

Loira, mas do loiro fulvo das abelhas;
Fresca como os cravos pelo amanhecer;
Brincos de cerejas presos nas orelhas,
Na boquita rosea tres canções vermelhas,
Na aguilhada, ao alto, uma estrelinha a arder!

Descalcinha e pobre, mas sem ar mendigo,
Nada mais esvelto, mais encantador!
Veste-a d'oiro a gloria do bom sol amigo...
O chapeu é palha que inda ha um mez deu trigo,
A saíta é linho inda ha bem pouco em flor!...

E os dois bois enormes, colossaes, fleugmaticos,
Na aleluia imensa, triunfal, da aurora,
Vão como bondosos monstros enigmaticos,
Almas por ventura d'ermitões extaticos
Ruminando biblias pelos campos fora!...

Ao arado e ao carro presos noite e dia,
Como dois grilhetas, quer de inverno ou v'rão!
E, submissos, uma pequerrucha os guia!
E nos sulcos que abrem canta a cotovia,
As boninas riem-se e amadura o pão!...

Levam as serenas frontes magestosas
Enramalhetadas como dois altares:
Madresilvas, loiros, pampanos, mimosas,
Abelhões ardentes desflorando rosas,
Borboletas claras em noivado, aos pares...

E eis no carro morto o castanheiro, emquanto
Melros assobiam nos trigaes alem...
Heras amortalham-no em seu verde manto...
Deu-lhe a terra o leite, dá-lhe a aurora o pranto...
Que feliz cadaver, que até cheira bem!...

Musgos, lichens, fetos,—chimica incessante!—
Fazem montões d'almas d'essa podridão...
Já n'esse esqueleto seco de gigante,
Sob a luz vermelha, n'um festim radiante,
Mil milhões de vidas polulando estão!...

Sempre á fortaleza casa-se a doçura:
Como o leão da Biblia morto n'um vergel,
Do seu tronco ainda na caverna escura
Um enxame d'oiro rutilo murmura,
Construindo um favo candido de mel!...

Oh, os bois enormes, mansos como arminhos,
Meditando estranhas, incubas visões!...
Pousam-lhes nas hastes, vede, os passarinhos,
E por sobre os longos, torridos caminhos
Dos seus olhos caem bençãos e perdões...

Chorarão o velho castanheiro ingente,
Sob o qual dormiram sestas estivaes?
Almas do arvoredo, o seu olhar plangente
Saberá acaso misteriosamente
Traduzir as lingoas em que vós fallaes?!...

Castanheiro morto! que é da vida estranha
Que no ovario exiguo d'uma flor nasceu,
E criou raizes, e se fez tamanha,
Que tresentos anos sobre uma montanha
Seus tresentos braços de colosso ergueu?!...

Onde a alma, origem d'essas formas bellas?
Em tão varias formas que sonhou dizer?
Qual a ideia, ó alma, convertida n'ellas?
E desfeito o encanto, que nos não revelas,
Que aparencias novas tomará teu ser?...

Noite escura!... enigmas!... Ai, do que eu preciso,
Boieirinha linda, linda d'encantar,
É d'essa inocencia, d'esse paraiso,
Da alegria d'oiro que ha no teu sorriso,
Da candura d'alva que ha no teu olhar!...

Grandes bois que adoro, p'ra fortuna minha,
Quem me dera a vossa mansidão christã!
Arrotear os campos, fecundar a vinha,
E nos olhos garços d'uma boieirinha,
Ter duas estrellas virgens da manhã!...

E tambem quizera, mortos castanheiros,
Como vós erguer-me para o sol a flux,
Dar tresentos anos sombra aos pegureiros,
E n'um lar de choça, em festivaes braseiros,
A aquecer velhinhos, desfazer-me em luz!...

1889.

II

IN PULVIS...

Oh, que noite negra, que invernia brava!
Nem uma estrellinha pelo ceo reluz!
Chora o vento ao longe com a voz tão cava,
Como quando dizem que de dor chorava
Toda a santa noite em que expirou Jesus!...

Vem sanguinolentos gritos muribundos
Das soturnidades torvas do horisonte!...
Já nos ermos andam lobos vagabundos...
Já os rios cheios, com bramidos fundos,
N'um diluvio d'agoa vão de mar a monte!...

Em casal de serras arde o castanheiro,
Lampada de pobres a fazer serão;
De redor do grande, festival braseiro,
A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
A mulher, os filhos, o bichano e o cão.

Queima-se o gigante, rude centenario,
Que jamais os astros hão-de ver florir...
E do seu cadaver o esplendor mortuario
Faz d'essa choupana quasi que um sacrario
Com uma alma d'oiro dentro d'ella a rir!...

Tem o velho ao colo o seu netinho doente;
—Morte negra, foge do telhado, ó, ó...—
E no lar as brasas simultaneamente
Dizem para o anjo:—tudo é oiro ardente...
Dizem para o velho:—tudo é cinza e pó!...

Quantas vezes, quantas! por manhãs radiantes
Em pequeno, alegre como um colibri,
Não trepara aos braços todos verdejantes
D'esse castanheiro, que n'alguns instantes
Ha-de ver em cinzas já desfeito ali!...

Quantas vezes, quantas! lhe bailara em torno!
Quantas noites, quantas! elle ali dormia
Pelo mez das ceifas, quando o luar é morno,
E das restolhadas, quentes como um forno,
Se evolavam cheiros d'arreçã bravia!...

Como não sentir um entranhado afecto,
Como não amal-o com veneração,
Se lhe dera a trave que sustenta o tecto,
Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!

Fez com elle o jugo e fez com elle o arado;
Fez com elle as portas contra os vendavaes;
E com elle é feito o velho leito amado,
Onde se deitara para o seu noivado,
E onde já morreram seus avós, seus paes!

E o bom velho embala o seu netinho doente...
—Morte negra, foge... dorme, dorme... ó, ó...—
E, fitando as chamas simultaneamente,
Ri-se a creancinha, vendo o oiro ardente,
Lagrimeja o velho, vendo cinza e pó!...

A velhinha resa, resa afervorada...
Tão velhinha e branca, branca de jasmins,
Que a idealiso e creio d'esplendor banhada,
Entre palmas verdes até Deos levada
N'um andor de rosas pelos serafins...

Resa pelos mortos... resa á virgem pura...
Desde a sua infancia tão ditosa e bella,
Já d'essa choupana (como a noite é escura!)
Quantos tem partido para a sepultura,
Quantos tem ficado dentro d'alma d'ella!...

Dentro d'alma d'ella, triste campo santo,
Muitas almas vivem mortas a sonhar!...
Vivem mortas, mudas, n'um dorido encanto...
Nos seus olhos vitreos cristalisa o pranto,
Nos seus labios roxos fosforece o luar...

E essas almas fluidas que ella traz comsigo,
—Talisman da crença, magico poder!—
Frias como a neve vem do seu jasigo,
Vem sentar-se todas no logar antigo,
A chorar á roda do braseiro a arder!...

Ai dos pobres mortos que não tem fogueiras,
Nem velhinhas santas que lhe deem luz!
Sob leivas, onde ninguem põe roseiras,
Umas sobre as outras juntam-se as caveiras,
Dando sangue aos vermes, podridões á Cruz...

D'esses desgraçados, mortos no abandono,
Onde estão as almas? P'ra que Deos as fez?
Quando o vento uivando lhes perturba o somno
Pela treva errantes, como cães sem dono,
Andarão perdidas a ulular talvez!...

Pois até por essas que ninguem conforta
A velhinha chama... e todas ellas vem...
—Vinde pobresinhas, (como o vento as corta!)
Vinde aqui sentar-vos, que eu vos abro a porta,
A aquecer-vos, filhas, ao meu lar tambem!—

E a dos olhos garços pastorinha bella
Fia no seu fuso linho por corar;
É trigueiro o linho, trigueirinha é ella...
Rodopia o fuso... quando for donzella,
Já terá camisas para se ir casar!...

E esse fuso alegre onde se enrosca o linho
Já foi ramo verde n'esse tronco em brasas:
Deu já cachos brancos como o branco arminho,
Já sobre elle a ave construiu seu ninho,
Já sobre elle amando palpitaram azas!...

Fuso como giras em dedinhos breves
Prasenteiramente, com tão louco ardor!
Que estarás fiando?... que enxovaes?... que neves?
Se serão camisas, ou mortalhas leves,
Cama para bodas, ou lençoes de dor!...

No vetusto escano o lavrador sombrio
Pensa na courela... Santo Deos, Jesus!
Se a tormenta engrossa, se lha leva o rio,
Como é que hade o gado pelo ardor do estio
Sustentar-se a piornos de fraguedos nus!...

Choram ventanias!... panica tristeza!...
Sentem-se na loja bois a ruminar...
Queixas insondaveis vem da naturesa!...
Quanto monstro mudo, quanta lingoa presa,
Contemplando a Noite sem poder fallar!...

Ronronando ao lume, dorme o cão e o gato.
Almas misteriosas, em que sonharão?...
Como que n'um dubio lusco-fusco abstracto,
De ter sido tigre lembra-se inda o gato?...
De ter sido hiena lembra-se inda o cão?...

Eis as brasas mortas... Eil-o já converso
O castanheiro em cinza, em fumo vão, em luz...
Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
Reviver na vida eterna do universo,
Circulo de enigmas, que ninguem traduz...

Sempre, sempre, sempre, cinza, fumo e chama
Viverão, morrendo a toda a hora... sempre!...
Nuvem que troveja, calix que enbalsama,
Planta, pedra, insecto, humanidade, lama,
Serão tudo, tudo!... inconcebivel!... Sempre!

Mas a alma, as almas quem as ha criado?
Qual a origem d'onde a sua essencia emana?...
Ah, em vão levanto o triste olhar magoado
Para os olhos d'ouro que do azul sagrado
Lançam as estrellas á miseria humana!...

Oh em vão!... que os astros, onde em sonho habito,
São tambem fogueiras sobrenaturaes,
Que na pavorosa noite do Infinito
Crepitando espalham seu clarão bemdito,
Suas alvoradas roseas, virginaes,

Para em torno d'ellas se aquecerem mundos
A tremer com frio, a soluçar com dor,
Miseraveis monstros cegos, vagabundos,
Atravez d'eternos turbilhões profundos,
N'um virtiginoso, angustioso horror!...

E ardam astros d'oiro, ou ardam castanheiros,
No Infinito imenso ou n'um tugurio assim,
Fica a mesma cinza d'esses dois braseiros,
Atomos errantes, sonhos vãos, argueiros
Na inconsciencia calma da amplidão sem fim!...

E o mundo e os mundos a girar na altura
Como vós, ó velhos, morrerão tambem...
Blocos de materia fria, sem verdura,
Errarão na vaga imensidade escura,
Cemiterio d'astros que nem cruzes tem!...

Dormirão? oh, nunca!... vão eternamente
Circular na eterna vida universal:
Nebulosa fluida, lavareda ardente,
Lodo, o mesmo lodo, como antigamente,
Com os mesmos dramas entre o Bem e o Mal!...

Formas da materia, que eu em vão desnudo,
Que invisiveis forças, e almas encobris?
Quem o sabe? A Morte, que conhece tudo...
Mas o enigma impresso no seu labio mudo
Só na treva aos mortos é que a morte o diz!...

Só a Morte o sabe... mais a Fé que abrasa,
Que penetra as coisas com o seu olhar!
Não ha fé na alma, não ha luz na casa...
A rasão é um verme, mas a crença é aza...
Verme! aos infinitos poderás chegar!...

Ó velhinha santa, minha boa amiga,
Resa o teu rosario, move os labios teus!...
A oração é ingenua? Vem de crença antiga?
Não importa! resa, minha boa amiga,
Que orações são lingoas de falar com Deos!...

Ha pedintes cegos de inspiradas frontes,
Com estrellas n'alma, com visões mentaes,
Que atravessam rios, que vão dar com fontes,
Que andam por agrestes, solitarios montes,
Sem errar a estrada, sem cahir jamais!...

Pelos bosques ermos, onde venta e neva,
Com os seus farrapos mais o seu bordão,
Marcham por milagre na continua treva...
Oh, dizei, dizei-me quem os guia e leva?
Que prodigio oculto? que invisivel mão?

Pois, velhinha branca, tua crença pura,
Tua resa antiga, que me faz chorar,
É egual aos cegos, que na noite escura
Não precisam d'astros para ver a altura,
Não precisam d'olhos para ter olhar!

No Infinito mudo tua ingenua crença,
Tremula ceguinha de risonho alvor,
Eil-a andando, andando, como que suspensa,
Pelos descampados d'uma noite imensa,
Vastidões d'assombros, amplidões d'horror!...

E onde a aguia, o genio de pupila ovante,
Tem vertigens, auras, desfalece e cae,
A ceguinha debil, vagabunda, errante,
D'olhos ás escuras. Infinito adiante,
N'um enlevo aereo perpassando vae!...

Branca e pequenina, ligeirinha e leve,
Corta por abismos, plagas sem faroes,
Stepes infindaveis que ninguem descreve,
Lugubres desertos de mudez e neve,
Bategas de brasas, turbilhões de soes!...

Vae andando, andando, té que emfim cercada
D'uma aleluia mystica de luz,
Com o bordãosinho que a amparou na estrada
Bate ás portas d'oiro da feliz morada,
Presbiterio d'Almas, onde está Jesus!...

Vem um anjo abril-as; a ceguinha mansa
Põe-se de joelhos, em adoração...
Diz-lhe o anjo:—Toma, guarda esta lembrança:
Uma palma d'astros, a luzir Esp'rança,
Que á velhinha humilde levarás na mão!

E, ave pressurosa recolhendo ao ninho,
Já com alimento para os filhos seus,
Eil-a que regressa por egual caminho,
E vem dar-te, ó santa, côr de jaspe e arminho,
Tão amada ofrenda que te envia Deos!...

Resa esse rosario, santa lagrimosa!
Sobre os teus joelhos deixa-me deitar!
Triste da minh'alma!... vê, que desditosa!...
Unge-m'a de bençãos, mão religiosa!...
Cobre-m'a de graças, cristalino olhar!...

Resa-lhe baixinho, minha boa amiga!
Resa-lhe rosarios de orações ideaes!
Morta de miseria, morta de fadiga,
Deixa que ella durma na pureza antiga...
Que ella durma... sonhe... e não acorde mais!...

89.

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Autor
Guerra Junqueiro
Título
Cadaver
Lengua
portugués
Época
Vanguardias / s. XX
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-cadaver--guerra-junqueiro-d91dbe
Cita recomendada
Guerra Junqueiro, «Cadaver», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-cadaver--guerra-junqueiro-d91dbe.html

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