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Raimundo António de Bulhão Pato · Modernismo

Bella sem coração

portugués

Era uma esplendida imagem
De olhos rasgados e bellos;
Negros, negros os cabellos;
Boca gentil como a rosa,
Que á luz da manhã formosa
Sorri ao sopro da aragem.

Alta, graciosa, elegante,
Um ar de tal distincção,
Na figura e no semblante,
Que eu disse commigo ao vel-a:
«Como esta mulher é bella,
Sobre tudo na expressão
De pallidez namorada,
Que tem na face encantada!
Esta sim, por Deus o juro,
Esta ha de ter coração!»

A estação, o sitio, a hora...
Era a hora do sol posto,
E um frouxo raio de luz
Vinha bater-lhe no rosto.
A estação o meigo outono,
Quando o prado se descora,
No bosque cessa a harmonia,
Quando tudo emfim seduz
Com vaga melancolia.
O sitio, ameno e saudoso,
Onde livre a alma podia
Dar-se inteira aos sentimentos
De paz, de amor, de poesia!

Aproximei-me da imagem
Meiga, risonha, singela;
Soltára a voz, era bella,
Bella sim, vibrante e pura,
Mas sem aquella ternura,
Sem aquelle sentimento,
Que diz tudo num momento!
Sem tremor, sem sobresalto,
Voz que dos labios saía,
Dos labios só, que se via,
Não provir do coração;
Voz sonora, porem fria;
Bella sim, mas sem paixão.

«Pois essa gentil figura,
Esse pallido semblante,
Essa expressão de ternura
Que todo o teu ar respira,
A luz do olhar scintillante,
Dize emfim: quanto se admira,
Quanto ao ver-te nos encanta,
Será sem alma, e sem vida?!»

Sorrindo me respondeu:
«Aqui não ha coração!»
Mas eu vi que elle bateu
D'essa vez precipitado
Por que a sua nivea mão
Tentou comprimil-o em vão!
E no olhar enamorado,
E na voz que estremecia,
Oh! Deus! o que não dizia
A bella sem coração!

Setembro de 1856.

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Autor
Raimundo António de Bulhão Pato
Título
Bella sem coração
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-bella-sem-coracao--raimundo-antonio-de-bulhao-p-9fae8b
Cita recomendada
Raimundo António de Bulhão Pato, «Bella sem coração», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-bella-sem-coracao--raimundo-antonio-de-bulhao-p-9fae8b.html

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