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Gregório de Matos · Barroco

Aos vicios — Tercetos

portugués

Eu sou aquelle que os passados annos
Cantei na minha lyra maldizente
Torpezas do Brazil, vicios e enganos.

E bem que os descantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lyra
O mesmo assumpto em plectro differente.

Já sinto que me inflamma e que me inspira
Thalia, que anjo é da minha guarda
Des’ que Apollo mandou que me assistira.

Arda Bayona, e todo o mundo arda,
Que a quem de profissão falta á verdade
Nunca a dominga das verdades tarda.

Nenhum tempo exceptua a christandade
Ao pobre pegureiro do Parnaso
Para fallar em sua liberdade.

A narração ha de egualar ao caso,
E si talvez ao caso não eguala,
Não tenho por poeta o que é Pegaso.

De que póde servir calar quem cala?
Nunca se ha de fallar o que se sente?!
Sempre se ha de sentir o que se falla.

Qual homem póde haver tão paciente,
Que, vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire e não lamente?

Isto faz a discreta phantasia:
Discorre em um e outro desconcerto,
Condemna o roubo, increpa a hypocrisia.

O nescio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado e incerto.

E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada approva.

Diz logo prudentaço e repousado:
—Fulano é um satyrico, é um louco,
De lingua má, de coração damnado.

Nescio, si d’isso entendes nada ou pouco,
Como mofas com riso e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco.

Si souberas fallar, tambem falláras,
Tambem satyrisáras, si souberas,
E si fôras poeta, poetisáras.

A ignorancia dos homens d’estas eras
Sizudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.

Ha bons, por não poder ser insolentes,
Outros ha comedidos de medrosos,
Não mordem outros não—por não ter dentes.

Quantos ha que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receiosos?

Uma só natureza nos foi dada;
Não creou Deus os naturaes diversos;
Um só Adão creou, e esse de nada.

Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vicio e a virtude,
De que uns são comensaes, outros adversos.

Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
Calem-se os mais, chiton, e haja saude.

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Autor
Gregório de Matos
Título
Aos vicios — Tercetos
Lengua
portugués
Época
Barroco
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-aos-vicios-tercetos--gregorio-de-matos-5564a0
Cita recomendada
Gregório de Matos, «Aos vicios — Tercetos», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-aos-vicios-tercetos--gregorio-de-matos-5564a0.html

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