Ó anjos da poesia, ó candidas beldades,
Irmãs dos querubins,—ó núncias do Céu,
Que me acenáis ao longe, ao fundo das edades,
Cantando heroicamente as velhas potestades
Nas cordas triunfáis da lira de Tirtêu,
E soluçando doces, místicas saudades
Nas cordas pastorís da citara de Orfêu...
Que outróra, celebrando os feitos dos guerreiros
Em versos festiváis, homéricos, divinos,
Andastes a cantar plos flóridos outeiros
Da Grecia sonhadôra, e á sombra dos loureiros,
Sentadas nos ilhêus dos golfos azulínos;
E andastes a gravar na casca dos olmeiros
Uns versos amorosos, brandos, pequeninos...
Que voastes para a Italia, e andastes com Virgilio
Por sobre o Mar-Egêu, á flôr das ondas lisas;
E chorastes com êle as lagrimas do exílio;
E lhe fechastes, morto, o veludíneo cilio
Daquele olhar, que viu tão largo sem balisas...
E assististes talvêz ao magico concilio
Das líricas vestáis, das virgens Pitonísas
Vós que inspirastes Tasso e o formidavel Dante,
Sentado a meditar ao pé das catedráis,
Levando-o pela mão a vêr a casta amante,
A cândida Beatriz, que deslisava hiante
Na trágica mudêz dos giros infernáis...
Falastes com Petrarca á réstea flutuante
Das noites de luar, das noites medieváis...
Que destes alma e vida aos versos de Camões,
O indómito guerreiro, o excélso trovadôr;
Que lhe inspirastes doces, trémulas canções,
Nas grutas orientais, nos êrmos, nas soidões,
—Canções cheias de fogo e trágicas de dôr;
Vós que haveis insuflado aos grandes corações
Os carmes da tragédia e os cânticos do amor...
Ó anjos da poesia, ó candidas beldades,
De tranças luminosas, loiras como o trigo,
Que me acenáis ao longe, ao fundo das edades,
Cantando heroicamente as velhas potestades
Na cítara de Homéro—o olímpico mendigo...
Eu canto o sofrimento, e as crenças, e as saudades,
Ó líricas beldades ideáis, sêde comígo...