Vêde-o! É tão creança! ó mães, olhae-o!
Como é vivo o fulgor e ardente o raio
Que vibra nesse olhar!
Faz gosto vel-o assim tão pequenino
Enlevado nos sons do violino
A sonhar, a sonhar...
E ao passo que a sua alma vae sonhando,
Vão-se ante nossos olhos desdobrando
Quadros a mil e mil.
A rabeca suspira? Assim amenas
São na longinqua roça as cantilenas
Das moças do Brazil.
Vibra rispidos sons? E logo ouvimos
Curvar o vento da floresta os cimos
Com ruidoso fragôr...
E uivam pintadas onças e as araras
Roçam, fugindo, as tremulas taquaras,
E crocita o condôr.
Enterrados nas humidas pastagens
Mugem raivosos bufalos selvagens,
E por entre os sarçaes
Pula a panthera; os jacarés astutos
Choram, fingindo lacrymosos lutos
Nos fulvos areaes.
Soluçou a rabeca? Ouvi, formosas,
São os negros soltando as lastimosas
Canções do seu paiz;
Sem familia, sem patria, sem amôres,
Ninguem mitiga o fel daquellas dôres,
Triste raça infeliz!
Agora, como em namorado anceio,
Sae da rabeca um languido gorgeio
Que enleva o coração.
E a saudade repinta-nos ao vivo
Dos sabiás o cantico lascivo
Nas sombras do sertão.
Tudo isso e mais eu vejo, admiro e escuto,
Com meu olhar de prantos não enxuto,
Ó creança gentil,
Que em vez de perseguir as borboletas
Vens batalhar no meio dos atletas
E honrar o teu Brazil!
Não presumas, porém, prodigio das creanças!
Que basta o fogo, o estro, a viva inspiração;
É mister trabalhar, sem isso nada alcanças;
A gloria chamarás, ser-te-ha o appello em vão.
Pois que! tu cuidarás, creança, porventura
Que sem luctar, soffrer, sem horridos tormentos
O artista poderia erguer aos quatro ventos
A Epopêa, o Drama, a Estatua, a Partitura?
Vamos, trabalha pois ó meu precoce artista,
Dos precipicios ri, vinga-me o barrocal!
Para o profundo azul estende a larga vista.
Eis-te nos alcantis! Eleva-te ao ideal!