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Gregório de Matos · Barroco

Ao confessor — Do arcebispo D. Frei João da Madre de Deus

portugués

Eu, que me não sei calar,
Mas antes tenho por mingua,
Não purgar-se qualquer lingua,
A risco de arrebentar:
Vos quero, amigo, contar
(Pois sois o meu secretario)
Um successo extraordinario,
Um caso tremendo e atroz:
Porém fique aqui entre nós.

Do confessor jesuita,
Que ao ladrão do confessado
Não só absolve o peccado,
Mas os fructos lhe alcovita:
Do precursor da visita,
Que na vanguarda marchando,
Vai pedindo e vai tirando,
O demo ha de ser algoz:
Porém fique aqui entre nós.

O ladronaço em rigor
Não tem para que dizer
Furtos, que antes de os fazer
Já os sabe o confessor:
Cala-os, para ouvir melhor,
Pois, com officio alternado,
Confessor e confessado
Alli se barbeam sós:
Porém fique aqui entre nós.

Aqui o ladrão se consente
Sem castigo e com escusa,
Porque do mesmo se accusa
O confessor delinquente:
Ambos alternadamente,
Um a outro e outro a um,
O peccado, que é commum,
Confessa em commua voz:
Porém fique aqui entre nós.

Um e outro, á mór cautela,
Vem a ser neste incidente
Confessor e penitente;
Porém fique ella por ella.
O demo em tanta mazella
Diz: faço, porque façais;
Absolvo, porque absolvais;
Pacto inopinado poz:
Porém fique aqui entre nós.

Não se dá a este ladrão
Penitencia em caso algum;
E sómente em um jejum
Se tira a consolação:
Elle estará como um cão
De levar a bofetada;
Mas na cara ladrilhada
Emenda o pejo não poz:
Porém fique aqui entre nós.

Mechanica disciplina
Vem a impor por derradeiro
O confessor marceneiro
Ao peccador carapina:
E como qualquer se inclina
A furtar e mais furtar,
Se conjura a escavacar
As bolças co’ um par de enxós:
Porém fique aqui entre nós.

O tal confessor me abysma,
Que revele, e não se offenda,
Que um frade sagrado venda
O sagrado oleo da Chrisma.
Por dinheiro a gente chrisma,
E por cera, havendo queixa,
Que nem a da orelha deixa
Onde chrismando a mão poz:
Porém fique aqui entre nós.

Que em toda a franciscania
Não achasse um mau ladrão,
Que lhe ouvisse a confissão,
Mais que um padre da Apanhia!
Nisto, amigo, ha sympathia;
E é que lhe veiu a pêllo
Que um vá atando no orello
O que o outro mette no coz:
Porém fique aqui entre nós.

Que tanta culpa mortal
Se absolva? eu perco o tino;
Pois absolve um theatino
Peccados de pedra e cal:
Quem em vida monacal
Quer dar á filha um debate
Condemnando em dote ou date,
Vem a dar-lhe o pão e a noz:
Porém fique aqui entre nós.

As freiras com sanctas sêdes
Saem condemnadas em pedra,
Quando o ladronaço medra,
Roubando pedra e paredes.
Vós, amigo, que isto vêdes,
Deveis a Deus graças dar
Por nos fazer secular,
E não zote de albernoz:
Porém fique aqui entre nós.

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Autor
Gregório de Matos
Título
Ao confessor — Do arcebispo D. Frei João da Madre de Deus
Lengua
portugués
Época
Barroco
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-ao-confessor-do-arcebispo-d-frei-joao-da-madre-d--gregorio-de-matos-7b0ef1
Cita recomendada
Gregório de Matos, «Ao confessor — Do arcebispo D. Frei João da Madre de Deus», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-ao-confessor-do-arcebispo-d-frei-joao-da-madre-d--gregorio-de-matos-7b0ef1.html

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