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Almeida Garrett · Romanticismo

Adeus!

portugués

Adeus! para sempre adeus!
Vai-te, oh! vai-te, que n’esta hora
Sinto a justiça dos ceus
Esmagar-me a alma que chora.
Chóro porque não te amei,
Chóro o amor que me tiveste;
O que eu perco, bem n’o sei,
Mas tu... tu nada perdeste:
Que este mau coração meu
Nos secretos escaninhos
Tem venenos tam damninhos
Que o seu podêr só sei eu.

Oh! vai... para sempre adeus!
Vai, que ha justiça nos ceus.
Sinto gerar na peçonha
Do ulcerado coração
Essa vibora medonha
Que por seu fatal condão
Hade rasgá-lo ao nascer:
Hade sim, serás vingada,
E o meu castigo hade ser
Ciume de ver-te amada,
Remorso de te perder.

Vai-te, oh! vai-te, longe, embora,
Que sou eu capaz agora
De te amar.—Ai! se eu te amasse!
Vê se no arido pragal
D’este peito se ateasse
De amor o incendio fatal!
Mais negro e feio no inferno
Não chammeja o fogo eterno.

Que sim? Que antes isso?—Ai, triste!
Não sabes o que pediste.
Não te bastou supportar
O cepo-rei; impaciente
Tu ousas a deus tentar
Pedindo-lhe o rei-serpente!

E cuidas amar-me ainda?
Inganas-te: é morta, é finda,
Dissipada é a illusão.
Do meigo azul de teus olhos
Tanta lagryma verteste,
Tanto esse orvalho celeste
Derramado o viste em vão
N’esta seara de abrolhos,
Que a fonte seccou. Agora
Amarás... sim hasde amar,
Amar deves... Muito embora...
Oh! mas n’outro hasde sonhar
Os sonhos de oiro incantados
Que o mundo chamou amores.

E eu réprobo... eu se o verei?
Se em meus olhos incovados
Der a luz de teus ardores...
Se com ella cegarei?
Se o nada d’essas mentiras
Me entrar pelo vão da vida...
Se, ao ver que feliz deliras,
Tambem eu sonhar... Perdida,
Perdida serás—perdida.

Oh! vai-te, vai, longe, embora!
Que te lembre sempre e agora
Que não te amei nunca... ai! não;
E que pude a sangue frio,
Covarde, infame, villão,
Gosar-te—mentir sem brio,
Sem alma, sem dó, sem pejo,
Commettendo em cada bejo
Um crime... Ai! triste, não chores,
Não chores, anjo do ceu,
Que o deshonrado sou eu.

Perdoar-me tu?... Não mereço.
A immundo cerdo voraz
Essas perolas de preço
Não as deites: é capaz
De as desprezar na torpeza
De sua bruta natureza.
Irada, te hade admirar,
Despeitosa, respeitar,
Mas indulgente... Oh! o perdão
É perdido no villão,
Que de ti hade zombar.

Vai, vai... para sempre adeus!
Para sempre aos olhos meus
Sumido seja o clarão
De tua divina estrêlla.
Faltam-me olhos e razão
Para a ver, para intendê-la:
Alta está no firmamento
Demais, e demais é bella
Para o baixo pensamento
Com que em má hora a fitei;
Falso e vil o incantamento
Com que a luz lhe fascinei.
Que volte a sua belleza
Do azul do ceu á pureza,
E que a mim me deixe aqui
Nas trevas em que nasci,
Trevas negras, densas, feias,
Como é negro este aleijão
D’onde me vem sangue ás veias,
Este que foi coração,
Este que amar-te não sabe
Porque é só terra—e não cabe
N’elle uma idea dos ceus...
Oh! vai, vai; deixa-me, adeus!

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Autor
Almeida Garrett
Título
Adeus!
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-adeus--almeida-garrett-e9cef5
Cita recomendada
Almeida Garrett, «Adeus!», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-adeus--almeida-garrett-e9cef5.html

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