Ja tenho, meu Eloy, tudo inmallado;
Fica até no bahu o estro fechado.
Mas antes de partir,
Quero contar-te um conto, que hasde rir.
Hontem o incontrei
N’aquelle teu Pignotti tam magano;
E, se em meu Portuguez não desbotei
As côres do Italiano,
Hasde-lhe achar a graça que eu lhe achei.
Vou abrir o bahu, e venha o estro!
Sôbre o canhão da bota.
Como dizer se usa,
Farei regrinhas curtas e compridas.
Botas... e esporas tenho ja cingidas,
Montarei o Pégaso, que nem trota
Commigo, de esfalfado.
Eu muito descançado
Ahi me vou choitando,
O meu conto contando.
O conto é da Saude e Medicina...
E tracta de te rir,
Que, se não ris, serviu-te a carapuça,
É um reles doutor de mula ruça
Doutor que se amoffina
E não quer consentir
Que a pobre, atormentada humanidade
Se desforre uma vez co’a faculdade.
Jove, esse Jove em Grecia tam temido,
Que imperava nos ceos, nos elementos,
Nos raios e nos ventos,
De moda emfim cahido,
O credito perdeu e está fallido.
Mas quando elle reinava
Viam-se casos n’este baixo mundo
Que o vulgo parvo assegurar ousava
Desdizerem de seu saber profundo:
E n’este ponto a grega theologia
Por desculpa dizia
Que, ao dar ordem a coisa tam soez
Como é d’esta vida o entremez,
Lhe cahem muita vez
Os oc’los do nariz;
E que n’estes momentos
Tudo o que faz e diz
É asneira—sandice por um triz.
Em um d’estes accessos mazelentos,
Em que de facto, do nariz divino,
E sem elle dar tino,
Tinham cahido os seus oculos bentos,
Á terra nos mandou,
Só para nosso bem, como julgou,
Duas boas divindades companheiras,
Ambas riccas herdeiras
De sua graça divina:
A saber, a Saude e a Medicina.
Na fôrça juvenil tinha uma d’ellas
Ageis e vigorosos
Fortes os membros, cheios, musculosos,
Tintas de côr rosada,
Florida e ingraçada
As frescas faces bellas;
E nos olhos tranquillos e gozosos
Tinha a indolência com a paz pintada.
A outra, de gesto magro e macilento,
Cabello pouco, e o pouco de alvo argento,
Com as faces rugosas descahidas,
As carnes resequidas,
E em círculos de chumbo incaixilhados
Os olhos incovados
Remelosos, vidrados.
Intrançada de malva e de chicoria
Ampla coroa a frente lhe cingia,
Como um splendor de glória;
E a negra sotana que vestia
Rota, e cossado o pêllo, lhe luzia
Com erudita e sábia porcaria.
Aos hombros alquebrados,
Que a muita edade impêna,
Em fórma de capuz, juncto ao toitiço
Assim como uns calções esfarrapados
De antigo, velho riço,
E da côr de bandeira em quarentena.
N’um frangalho da tal coisa amarella
Lhe pendia, á feição de bambinella,
Não Tusão de Oiro ou a Pollar estrêlla,
Vermelho Christo ou roxo San’ Thiago,
Mas o instrumento aziago...
Certo tubo que todos conhecemos,
Que no lúbrico pau escorregando,
Emquanto vai e vem assim brincando,
Ao nobre officio serve que sabemos...
Cingida era de emtòrno
A venera pendente
De um magnífico adôrno
De pilulas, lancetas em pingente,
Sinapismos, ventosas,
Com que, a modo de pedras preciosas,
A nova ordem militar fulgia,
De Esculapio em memoria e honraria.
A este sabio Mentor, Jove intregára
Em guarda a bella deusa das rotundas
Bochechas rubicundas,
E mui severamente
Que em tudo a governasse, lhe mandára.
Ei-las, breve, a caminho:
E a deusa obediente
Submissa e reverente,
A sua mestra seguia
Como ao guardião faria
Um timido noviço capuchinho.
Mas, alguns passos dados,
A magra Medicina
Prega na outra os olhos incovados,
De admiração malina
Franze o sobrôlho esguio,
E tomando-lhe o pulso, em ar sombrio,
Com palavras que ignoras,
Profano vulgo, graves e sonoras,
Disse—‘que a robustez ja muito athletica
Que lhe achava, a fazia mui plethorica,
E daria em pleuritica ou phrenetica.
Provou-lhe mais com medica rhetorica
Que um excesso mui rude
Soffria de saude;
E para que o morboso estado mude,
E ella possa viver seguramente,
De todo era forçoso
Que tivesse o seu tanto de doente.’
Disse, impunha a lanceta,
Fere um vaso venenoso,
E á pobre da pateta
Tres libras de sadio e generoso,
Vermelho sangue puro lhe sacou:
Muito menos a muitos ja mattou!
Mas era a paciente
Tam pouco natural a estar doente,
Que á sua directora vigilante
De melhorar não deu signal bastante:
Pelo que foi gramando, ás ordens d’ella,
Nogenta beberagem amarella,
Fedorenta, asquerosa
Em dóze prodigiosa!..
Tanto, tanto bebeu,
Que a rebelde natura emfim cedeu.
O appetite, o vigor
Iam diminuindo;
E a brilhante côr,
A frescura das faces vai fugindo.
—‘Bravo,’ gritava a outra em ledo aspeito
‘Bravo, que a arte vai fazendo effeito!’
E temendo funesta recahida
Em quanto de uma vez
Não tinha debellada e bem vencida
Do morbo a robustez,
Manda avançar as horridas catervas
Dos xaropes, conservas,
Seguros laxativos,
Fortes aperitivos...
Com tal fôrça e podêr, que a desgraçada
Em sua consciencia
De todo em todo se sentiu curada.
Mas com tanta sciencia
Tam eruditamente era trattada,
Por via de tam graves aphorismos
E agudos sylogismos,
Lardeados de Grego e de Latim,
Que até, morrer assim,
Morrer n’esta doçura,
Morrer tam sabiamente era ventura.
Da nossa boa alumna, por má sorte.
Era estupida um tanto a natureza,
E romba de agudeza:
Graça a mais superfina
Que nos póde fazer a mão divina!
De tam ditosa morte
Não pôde comprehender toda a belleza.
Cobrou medo a mofina
Da sciencia divina,
E, sem mais Deus-te-salve ou mais embora,
Desanda-me a fugir, dando á canella
Por esse mundo fóra.
Larga a outra atrás d’ella
A correr... e correu, e correrá...
Mas nunca a apanhará.
E d’então para ca
Ninguem mais se gabou
De que junctas ou perto as incontrou.
Tal medo uma da outra concebeu,
Que aonde a Medicina appareceu,
É logo—n’um momento
Foge a Saude mais veloz que o vento.
Coimbra—1821.