I
A sala em que medita El-Rey é silenciosa,
Apainelada e fria, o largo reposteiro
Ondula brandamente á aragem preguiçosa.
II
Á cathedra real um Christo sobranceiro
Mésto, livido, nú, ferido e ensanguentado
Exhala sobre o seio o alento derradeiro.
III
El-Rey medita e scisma: o seu olhar turbado,
O seu obliquo olhar, o seu olhar de féra,
Vibra irrequieta luz, parece allucinado.
IV
Nisto á porta assomou a calva fronte austera
De um velho, e logo atraz um pagem que murmura:
«Eis o monge, Senhor, que Vossa Alteza espera!»
V
Curvára, ao entrar, o monge a tremula estatura:
Mãos dispostas em cruz no largo peito ancioso,
E humilhada a cerviz na ascetica postura.
VI
E comtudo esse frade humilde e respeitoso,
De olhos fitos no chão, tão fragil como um vime,
Na presença de um rei, de um Cesar poderoso,
VII
É fanatico e audaz; com mão de bronze opprime
O Solio, a Egreja, o Lar, e os corações dos crentes;
Flagella a sombra e o amôr, condemna a luz, e o crime!
VIII
Quando elle vae passando, as timoratas gentes
Benzem-se com pavôr e param de improviso
As canções juvenis nas aleas rescendentes.
IX
Nunca nos labios seus florira o alegre riso,
Tem cem annos, jamais beijára uma creança,
E crê subir, talvez, morrendo, ao Paraizo!
X
Na Hespanha, no Perú, em Napoles, na França
Paira como o sinistro espirito do Mal,
O negro inquisidôr, feroz como a Vingança.
XI
Sisto quinto, o cruel, fizera-o cardeal,
E a Hespanha pôde ver com assombroso espanto
Juncto do rei-panthera o inquisidôr-chacal.
XII
E Philippe dizia ao monge no entretanto:
«Sentinella da Lei, piedoso inquisidôr,
«Tu que fallas com Deus e és padre, e és bom, e és sancto
XIII
«Arranca-me este pezo, afasta-me este horrôr!
«Ah! diz'-me, cardeal, se é um vil, se é um precito
«O rei que é justo e mata o filho que é traidôr...»
XIV
E mais não disse o rei, tôrvo, sombrio e afflicto.
No emtanto o inquisidôr erguendo imperturbavel
O seu hediondo olhar das lageas de granito,
XV
Assim tornou com voz vibrante e formidavel:
—Ó principe, e apontava o livido Jesus,
—Para acalmar dos céus a colera implacavel
XVI
—O Eterno fez morrer seu filho numa cruz!—