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António Cândido Gonçalves Crespo · Modernismo

A resposta do inquisidôr — A meu tio Luiz de Almeida e Albuquerque

portugués

I

A sala em que medita El-Rey é silenciosa,
Apainelada e fria, o largo reposteiro
Ondula brandamente á aragem preguiçosa.

II

Á cathedra real um Christo sobranceiro
Mésto, livido, nú, ferido e ensanguentado
Exhala sobre o seio o alento derradeiro.

III

El-Rey medita e scisma: o seu olhar turbado,
O seu obliquo olhar, o seu olhar de féra,
Vibra irrequieta luz, parece allucinado.

IV

Nisto á porta assomou a calva fronte austera
De um velho, e logo atraz um pagem que murmura:
«Eis o monge, Senhor, que Vossa Alteza espera!»

V

Curvára, ao entrar, o monge a tremula estatura:
Mãos dispostas em cruz no largo peito ancioso,
E humilhada a cerviz na ascetica postura.

VI

E comtudo esse frade humilde e respeitoso,
De olhos fitos no chão, tão fragil como um vime,
Na presença de um rei, de um Cesar poderoso,

VII

É fanatico e audaz; com mão de bronze opprime
O Solio, a Egreja, o Lar, e os corações dos crentes;
Flagella a sombra e o amôr, condemna a luz, e o crime!

VIII

Quando elle vae passando, as timoratas gentes
Benzem-se com pavôr e param de improviso
As canções juvenis nas aleas rescendentes.

IX

Nunca nos labios seus florira o alegre riso,
Tem cem annos, jamais beijára uma creança,
E crê subir, talvez, morrendo, ao Paraizo!

X

Na Hespanha, no Perú, em Napoles, na França
Paira como o sinistro espirito do Mal,
O negro inquisidôr, feroz como a Vingança.

XI

Sisto quinto, o cruel, fizera-o cardeal,
E a Hespanha pôde ver com assombroso espanto
Juncto do rei-panthera o inquisidôr-chacal.

XII

E Philippe dizia ao monge no entretanto:
«Sentinella da Lei, piedoso inquisidôr,
«Tu que fallas com Deus e és padre, e és bom, e és sancto

XIII

«Arranca-me este pezo, afasta-me este horrôr!
«Ah! diz'-me, cardeal, se é um vil, se é um precito
«O rei que é justo e mata o filho que é traidôr...»

XIV

E mais não disse o rei, tôrvo, sombrio e afflicto.
No emtanto o inquisidôr erguendo imperturbavel
O seu hediondo olhar das lageas de granito,

XV

Assim tornou com voz vibrante e formidavel:
—Ó principe, e apontava o livido Jesus,
—Para acalmar dos céus a colera implacavel

XVI

—O Eterno fez morrer seu filho numa cruz!—

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Autor
António Cândido Gonçalves Crespo
Título
A resposta do inquisidôr — A meu tio Luiz de Almeida e Albuquerque
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-a-resposta-do-inquisidor-a-meu-tio-luiz-de-almei--antonio-candido-goncalves-cr-ef6a79
Cita recomendada
António Cândido Gonçalves Crespo, «A resposta do inquisidôr — A meu tio Luiz de Almeida e Albuquerque», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-a-resposta-do-inquisidor-a-meu-tio-luiz-de-almei--antonio-candido-goncalves-cr-ef6a79.html

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