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António Pereira Nobre · Modernismo

A Poezia do Outomno

portugués

Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
Nos longes d'agoa... Ó tardes de novena!
Tardes de sonho em que a poezia escorre
E os bardos, a sonhar, molham a penna!

Ao longe, os rios de agoas prateadas
Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
São como estradas liquidas, e as estradas
Ao luar, parecem verdadeiros rios!

Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
O chale pedem a quem vae passando...
E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
As lavandiscas noivam piando, piando!

O orvalho cae do céu, como um unguento.
Abrem as boccas, aparando-o, os goivos...
E a larangeira, aos repellões do vento,
Deixa cair por terra a flor dos noivos.

E o orvalho cae... E, á falta d'agoa, rega
O val sem fruto, a terra arida e nua!
E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!

Tardes de outomno! ó tardes de novena!
Outubro! Mez de Maio, na lareira!
Tardes...
Lá vem a Lua, gratiae plena,
Do convento dos céus, a eterna freira!

Porto, 1886.

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Autor
António Pereira Nobre
Título
A Poezia do Outomno
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-a-poezia-do-outomno--antonio-pereira-nobre-2fc10b
Cita recomendada
António Pereira Nobre, «A Poezia do Outomno», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-a-poezia-do-outomno--antonio-pereira-nobre-2fc10b.html

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