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Manuel Maria Barbosa du Bocage · Romanticismo

A Manteigui: — Argumento

portugués

Da grande Manteigui, puta rafada,
Se descreve a brutal incontinencia;
Do cafre infame a porra desmarcada,
Do cornigero esposo a paciencia:
Como á força de tanta caralhada
Perdendo o negro a rigida potencia,
Foge da puta, que sem alma fica,
Dando mil berros por amor da pica.

CANTO UNICO.

I

Canto a belleza, canto a putaria
De um corpo tão gentil, como profano;
Corpo, que, a ser preciso, engoliria
Pelo vaso os martellos de Vulcano:
Corpo vil, que trabalha mais n'um dia
Do que Martinho trabalhou n'um anno;
E que atura as chumbadas, e pelouros
De cafres, brancos, maratás, e mouros.

II

Venus, a mais formosa entre as deidades,
Mais lasciva tambem que todas ellas;
Tu, que vinhas de Troya ás soledades
Dar a Anchises as mammas, e as canellas:
Que grammaste do pae das divindades
Mais de seiscentas mil fornicadelas;
E matando uma vez da crica a sêde,
Foste pilhada na vulcanea rêde:

III

Dirige a minha voz, meu canto inspira,
Que vou cantar de ti, se a Jacques canto;
Tendo um corno na mão em vez de lyra,
Para livrar-me do mortal quebranto:
Tua virtude em Manteigui respira,
Com graça, qual tu tens, motiva encanto;
E bem pode entre vós haver disputa
Sobre qual é mais bella, ou qual mais puta.

IV

No Cambayco Damão, que escangalhado
Lamenta a decadencia portugueza,
Este novo Ganós foi procreado,
Peste d'Asia em luxuria, e gentileza:
Que ermitão de cilicios macerado
Pode ver-lhe o carão sem porra teza?
Quem chapeleta não terá de mono,
Se tudo que ali vê é tudo cono?

V

Seus meigos olhos, que a foder ensinam,
Té nos dedos dos pés tezões accendem;
As mammas, onde as Graças se reclinam,
Por mais alvas que os véos os véos offendem;
As doces partes, que os desejos minam,
Aos olhos poucas vezes se defendem;
E os Amores, de amor por ella ardendo,
Ás pissas pelas mãos lhe vão mettendo.

VI

Seus cristalinos, deleitosos braços,
Sempre abertos estão, não para amantes,
Mas para aquelles só, que, nada escassos,
Cofres lhe atulham de metaes brilhantes;
As niveas plantas, quando move os passos,
Vão pizando os tezões dos circumstantes;
E quando em ledo som de amores canta,
Faz-lhe a porra o compasso co'a garganta.

VII

Mas para castigar-lhe a vil cubiça
O vingativo Amor, como aggravado,
Fogo infernal no coração lhe atiça
Por um sordido cafre asselvajado;
Tendo-lhe visto a torrida linguiça
Mais extensa que os canos d'um telhado,
Louca de comichões a indigna dama
Salta n'elle, convida-o para a cama.

VIII

Eis o bruto se cossa de contente;
Vermelha febre sobe-lhe ao miolo;
Agarra na senhora, impaciente
D'erguer-lhe as fraldas, de provar-lhe o bolo:
Estira-a sobre o leito, e de repente
Quer do panno sacar o atroz mampolo:
Porém não necessita arrear cabos;
Lá vai o langotim com mil diabos.

IX

Levanta a tromba o rispido elephante,
A tromba, costumada a taes batalhas,
E apontando ao buraco palpitante,
Bate ali qual ariete nas muralhas:
Ella enganchando as pernas delirante,
«Meu negrinho (lhe diz) quão bem trabalhas!
Não ha porra melhor em todo o mundo!
Mette mais, mette mais que não tem fundo.

X

«Ah! se eu soubera (continúa o couro
Em torrentes de semen já nadando)
Se eu soubera que havia este thesouro
Ha que tempos me estava regalando!
Nem fidalguia, nem poder, nem ouro
Meu duro coração faria brando;
Lavára o cú, lavára o passarinho,
Mas só para foder c'o meu negrinho.

XI

«Mette mais, mette mais… Ah Dom Fulano!
Se o tivesses assim, de graça o tinhas!
Não vivêras em um perpetuo engano,
Pois vir-me-hia tambem quando te vinhas:
Mette mais, meu negrinho, anda, magano;
Chupa-me a lingua, meche nas mamminhas…
Morro de amor, desfaço-me em langonha…
Anda, não tenhas susto, nem vergonha.

XII

«Ha quem fuja de carne, ha quem não morra
Por tão bello, e dulcissimo trabalho?
Ha quem tenha outra idéa, ha quem discorra
Em cousa, que não seja de mangalho?
Tudo entre as mãos se me converte em porra,
Quanto vejo transforme-se em caralho:
Porra, e mais porra no verão, e no hynverno,
Porra até nas profundas do inferno!…

XIII

«Mette mais, mette mais (ia dizendo
A marafona, ao bruto, que suava,
E convulso fazia estrondo horrendo
Pelo rustico som com que fungava:)
Mette mais, mette mais que estou morrendo!…»
«Mim não tem mais!» O negro lhe tornava;
E triste exclama a bebada fodida:
«Não ha gosto perfeito n'esta vida!»

XIV

N'este comenos o cornaz marido,
O bode racional, veado humano,
Entrava pela camara atrevido
Como se entrasse n'um logar profano:
Mas vendo o preto em jogos de Cupido,
Eis sae logo, dizendo: «Arre magano!
Na minha cama! Estou como uma braza!
Mas, bagatella, tudo fica em casa.»

XV

A foda começada ao meio dia
Teve limite pelas seis da tarde:
Veiu saltando a nympha de alegria,
E da sordida acção fazendo alarde:
O bom consorte, que risonha a via,
Lhe diz: «Estás coráda! O ceo te guarde;
Bem boa alpistre ao passaro te coube!
Ora dize, menina, a que te soube?»

XVI

«Cale-se, tolo» (a puta descarada
Grita n'um tom raivoso, e lhe rezinga)
O rei dos cornos a cerviz pesada
Entre os hombros encolhe, e não respinga:
E o courão, da pergunta confiada,
Outra vez com o cafre, e mil se vinga,
Até que elle, faltando-lhe a semente,
Tira-lhe a mama, e foge de repente.

XVII

Deserta por temor d'esfalfamento,
Deserta por temer que o couro o mate:
Ella então de suspiros enche o vento,
E faz alvorotar todo o Surrate:
Vão procural-o de cipaes um cento,
Trouxeram-lhe a cavallo o tal saguate;
Ella o vae receber, e o grão Nababo
Pasmou d'isto, e quiz ver este diabo.

XVIII

Pouco tempo aturou de novo em casa
O cão, querendo logo a pelle forra,
Pois a puta co'a crica toda em braza,
Nem queria comer, só queria porra:
Voou-lhe, qual falcão batendo a aza,
E o courão, sem achar quem a soccorra,
Em lagrimas banhada, acceza em furia,
Suspira de saudade, e de luxuria.

XIX

Courões das quatro partes do universo,
De gallico voraz envenenados!
Se d'este canto meu, d'este acre verso
Ouvirdes por ventura os duros brados:
Em bando marcial, côro perverso,
Vinde ver um cação dos mais pescados:
Vindo cingir-lhe os louros, e devotos
Beijar-lhe as aras, pendurar-lhe os votos.

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Autor
Manuel Maria Barbosa du Bocage
Título
A Manteigui: — Argumento
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
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Identificador
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Cita recomendada
Manuel Maria Barbosa du Bocage, «A Manteigui: — Argumento», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-a-manteigui-argumento--manuel-maria-barbosa-du-boca-9b8ce4.html

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