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Raimundo António de Bulhão Pato · Modernismo

A folha desbotada

portugués

Volve folha desbotada,
Outra vez á mão nevada
Que do tronco te ceifou,
Volve, e dize sem receio,
Que te apertei contra o ceio,
Que o meu olhar te adorou:

Vai discreta confidente,
Dize tudo quanto sente,
E calla o meu coração!
Vai, que a tua voz sentida,
Ha de ser por ella ouvida
Com ternura e compaixão.

Dize que ao ver um instante
Anuviado o seu semblante,
Pensativo o seu olhar,
De sobresalto e receio,
Sinto o coração no seio
De repente a palpitar!
Que a sonhei antes de vel-a,
Como bem fadada estrella,
Mensageira do Senhor!
Que ao vel-a a voz da consciencia
Disse: É esta na existencia
A tua estrella de amor!
De amor puro, intenso, ardente,
Mas que occulto eternamente
No meu peito ficará!
Que no infortunio nascido,
Só commigo tem vivido,
E commigo morrerá!

Ai! folhinha desbotada!
Outra vez á mão nevada
Volve de quem te ceifou!
Volve, e dize, sem receio,
Que te apertei contra o seio,
Que o meu olhar te adorou!

Maio de 1854.

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Autor
Raimundo António de Bulhão Pato
Título
A folha desbotada
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-a-folha-desbotada--raimundo-antonio-de-bulhao-p-539184
Cita recomendada
Raimundo António de Bulhão Pato, «A folha desbotada», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-a-folha-desbotada--raimundo-antonio-de-bulhao-p-539184.html

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