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PoetósferaLa BibliotecaJoaquim de Araújo

Joaquim de Araújo · Modernismo

A estatua do poeta — I

portugués

Num vozear estridulo e vibrante,
Irrompe a multidão:
Palpita como um hymno triumphante,
Em cada coração.

Vem pagar uma divida sagrada,
E, em francas ovações,
Junto á Estatua de bronze immaculada,
Victoría Camões.

Três seculos havia, a morte escura
Fulminara esse heroe,
Que até na doce paz da sepultura
Tão desgraçado foi!

Três seculos havia. Inenarravel,
Essa agonia atrós:
No catre do hospital, inexoravel,
A Morte, o duro algoz.

E, cá fóra, ao bom Sol, o claro amigo,
Cá fóra do hospital,
Os villões trabalhando no jazigo
Do antigo Portugal...

Um circulo dantesco e pavoroso:
O Genio num covil,
E no triumpho, erguido e magestoso,
O asqueroso reptil.

A Traição galanada: o cru Cinismo
Fingindo de Altivês:
Hiante, escancarado, o fundo abismo
Do nome português.

Não ha na infamia quem se não adestre,
Esmagando tropheus,
Tal como sobre a tunica do Mestre
Jogavam os Judeus.

As Tradições ao vento, ao torvelinho,
A Gloria,—ás bachanaes...
Adejam os milhafres junto ao ninho...
Onde as aguias reaes?

Onde as aguias reaes? Foram seu rumo,
Fugiram da ralé:
—Crestava-lhes a aza o escuro fumo
Do escuro auto-de-fé.

O balsão do Impudor fluctua ao vento,
Nos tragicos festins...
É morta a fina flôr do Sentimento,
Miserrimos chatins!

Dormiam nos seus tumulos augustos,
Ainda alta a cervís
De denodados campeões robustos,
Os infantes de Avís—

E todos os titans, de Gloria trémulos
Outrora, aos vivos soes,
Galgando mundos, continentes,—émulos
Dos primevos heroes...

E a Nação dêsses inclytos herdeira
Ia rojar no chão
A honra intemerata da bandeira,
O invencivel pendão...

E o Poeta-cavalleiro esmorecia,
Ao fim do seu lidar:
Com a Patria morria—se morria!—
Quem tanto a soube amar.

Tres seculos havia... Mas vibrante
Irrompe a Multidão:
Palpita como um hymno triumphante,
Em cada coração.

E o Vidente, na Estatua alevantada
Nem de leve acordou:
Na magestade erecta e bronzeada,
Immovel se ficou!...

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Por su autor
Joaquim de Araújo
Dónde vive
La Biblioteca

Expediente

Autor
Joaquim de Araújo
Título
A estatua do poeta — I
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-a-estatua-do-poeta-i--joaquim-de-araujo-26a70c
Cita recomendada
Joaquim de Araújo, «A estatua do poeta — I», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-a-estatua-do-poeta-i--joaquim-de-araujo-26a70c.html

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