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PoetósferaLa BibliotecaAgostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive

Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive · Modernismo

Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas) — III

portugués

Deixei prados e campinas

Que noite profunda cobre,

Com presago terror santo.

Em nós falla a alma mais nobre,

Loucos impulsos repousam,

Cessa a impetuosa acção,

Desperta o amor dos homens

E o de Deus no coração.

'Stou costumado a que escarneçam homens

Daquillo que nem mesmo entender podem,

A que do Bello e Bom, que tantas vezes

Tão pesados lhes são, murmurar ousem;

D'isso resnar pretende o cão como elles?

Apressada não seja a penna tua ;

Anima, cria tudo o pensamento ?

Devera' estar — era ao principio a Força.

No momento porém em que isto escrevo

Diz'me uma voz que aqui não pare. Inspira-me

A final o espirito. Alvitre,

Solução emfim. acho: satisfeito

No principio era a Acção escrever devo.

Contra esta do inferno grei tinhosa,

De Salomão a chave é poderosa.

Um de nós alli 'stá preso,

Ficae fora, seguil-o é defeso.

Qual o raposo em ferros geme,

Velho lince do inferno alli treme.

Mas cuidado,

Correi daqui, dalli voae;,

Subi, baixae,

E eil-o emfim libertado!

Se valer-lhe podeis,

Preso não o deixeis;

Que já de mil modos,

Nos serviu a todos.

Primeiro, para o monstro debellar,

O quadruplo esconjuro hei de empregar.

Salamandra ha de arder,

Ondina serpear,

Sylpho esvaecer,

Kobolde luctar !

Seus dotes e forças

Usar não souber,

Jamais os espiritos

Poderá vencer.

Podes tu ler,

Reprobo ser,

O ineffavel,

O increado

Que os ceus inunda de divina luz

E os homens pregaram numa cruz?

Para que é tal bulha? Que serviço

Posso ao Senhor prestar ?

Pois isto era

O trapo do novêlo! um estudante

Em trajos de viagem! É p'ra rirmos.

Ao sabio professor os meus respeitos,

Fizeste-me suar e foi devéras.

Como te chamas tu?

Pergunta fraca

Para quem tal desprezo mostra ao verbo,

Quem, as vans .apparencias desdenhando,

Só do ser no mais fundo se deleita.

De vós outros, amigo, a natureza

Vulgarmente no nome lêr se póde,

Como bem claramente se demonstra

Co'os nomes de demonio ou mentiroso.

Ora pois, quem és tu?

Parte da força

Que tem no mal o intento e o bem só causa.

Que queres tu dizer com esse enigma?

O espirito sou que sempre nega

E com razão; pois tudo quanto existe

D'exterminio total sómente é digno,

Pelo que, nada haver melhor seria.

É pois aquillo que chamais peccado,

Ruina, em summa-— - o Mal— meu elemento.

Parte te dizes e porém completo

Te contemplo ante mim?

Pura verdade

Te fallo eu. Embora o homem nescio

Geralmente qual todo s'imagine;

Sou parte de uma parte que foi todo,

Uma parte das trévas, que geraram

A altiva luz, que ora á madre noite

A primazia antiga e o vasto espaço

A disputar se attreve. Mas debalde,

Por mais que lide; está ligada aos corpos

Dos corpos irradia, fal-os bellos,

Pode um corpo detel-a na carreira

E antes de muito tempo tenho esp'rança,

Que co'os corpos em fim ao nada torne.

Conheço agora teu mister honroso !

Nada consegues destruir em grande

E com pequenas cousas só te attreves.

E devéras, com isso pouco faço.

O que se oppõe ao Nada—o Ser—o mundo

Macisso, por mais vezes que o attaque,

Não me é possivel o chegar-lhe ao cabo

Com ondas, temporaes nem terremotos;

A final terra e mar ficam tranquillos!

E essa grei maldicta, a eterna raça

D'animaes e de homens, não ha modo

De vir à entrar com ella. Que milhares

Não tenho eu enterrado! Pois circula

Novo sangue vivaz sempre incansavel.

Marcha, triumpha a vida, eu enlouqueço:

Das aguas e do ar como da terra,

Saem milhões de germens que prosperam

No humido ou no secco, frio ou calido,

E se pra mim a chamma não guardasse,

Nada tivera que me fosse proprio.

Assim oppões da creadora força

Á salutar acção sempre animada,

O punho do demonio, que debalde

Convulsivo se fecha. Empreza nova

Procura commetter, filho do chaos.

Ainda havemos de vir a corrigir-nos.

Outra vez fallaremos deste assumpto.

É permittido retirar-me agora?

Não sei porque perguntas. Tenho feito

O teu conhecimento; d'ora avante

Visita-me se queres. A janella

Póde dar-te saída, como a porta,

Ou o cano do fogão se o preferires.

É mister confessal-o, um embaraço

A partida me veda, a garatuja

Alli no limiar.

O pentagramma

Afflige-te? Ora dize, infernal ente,

Como podeste entrar se te elle expulsa ?

Espirito, qual tu, deixa enganar-se?

Repara que não foi bem desenhado;

O angulo que p'ra fóra se dirige

Um pouco aberto está, como vêr podes.

Desta vez acertou bem o acaso;

És tu meu prisioneiro desse modo?

Fui mais bem succedido do que esp'rava.

Não deu por nada o cão, saltando dentro,

Mas toma agora a cousa um outro aspecto;

Pois não póde daqui safar-se o démo.

Mas porque não sáes tu pela janella?

Preceito é do démo e dos espectros,

A saída fazer por onde entraram.

É nos livre o ingresso, mas nafuga

Escravos somos.

Pois ha leis no inferno?

Acho-o excellente. Póde então comvosco

Um contracto seguro celebrar-se?

O que se prometter, tel-o -has inteiro,

Em nada te será diminuido.

Não é .comtudo p'ra fazer-se á pressa,

Havemos mais d'espaço discutil-o ;

Por agora só peço instantemente

Que desta vez me dês livre saída.

Demora-te inda um pouco, pra contar-me

Alguma boa historia.

Agora deixa-me!

Em breve hei de tornar e então podes

A teu contentamento interrogar-me.

Em nada te enganei, tu mesmo foste

Enredar-te no laço. Quem tem preso

O démo, não no largue! Tão depressa

O não torna a pilhar assim seguro.

Já que assim o desejas, eis-me prompto

A ficar-te fazendo companhia;

Mas com a condição de distrabir-te,

Como devido é, com minhas artes.

De bom grado consinto, tens licença,

Mas comtanto que agradem as taes artes.

Teus sentidos, amigo, vão nest'hora

Maior prazer gosar que em roda d'anno.

O que os subtis espiritos te cantam,

As fórmas bellas que a teus olhos trazem,

Van magia não são: tambem o olfacto

Delicias te dará, de finos gostos

Os labios lamberás depois, e a chamma

Doce e viva de amor alfim te .abraza.

Não has mister de preparar-te muito;

Promptos estamos, começae vós outros.

Rasgae-vos, escuras

Abobadas altas,

Penetre ridente,

Em onda fremente,

O ether aqui.

Despersa das nuvens

A densa negrura,

Estrellas scintillam,

Soes de mais doçura

Reluzem alli.

Oh. anjos celestes,

Bellezas ideaes,

Em circlo ondeante

Voando passaes.

Attração potente

Mais longe vos chama.

Das vestes brilhantes

Pendentes grinaldas,

Revestem as faldas

Dos montes, as grutas

Aonde p'ra sempre,

Com doces pensares,

Amantes s'entregam,

Futuros pesares

De todo esquecendo.

Os cachos dourados

No fundo lançados

Já são do lagar,

Já corre em torrente

O vinho espumante,

Por leito brilhante

De pedras preciosas;

Atraz de si deixa

As rochas altivas,

Indo as ondas vivas

Em lago espraiar.

Virentes outeiros

As ribas formosas

Lhe vem circumdar.

As aves alegres,

Delicias sorvendo,

Ao sol vão correndo,

Ás ilhas ditosas

Que no mar ceruleo

Sembalam mimosas,

Onde soam córos

De cantos sonoros,

Choreas se tecem,

Nas verdes campinas,

Que no livre espaço

De novo se rompem.

Quaes galgam alturas,

As aguas escuras

Dos lagos quaes cortam,

Quaes voam: e todos

A vida, a distante

Estrella radiante

D'amor vão buscando.

Dorme! Fostes mui bem, aereos sylphos,

Incantal-o soubestes, na verdade!

Por tal concerto devedor sou vosso.

Ainda homem não és que prenda o démo.

Embalae-o com doces phantasias

E em mar dillusões submergi-o.

Mas p'ra romper do limiar o encanto,

É me mister de rato o dente agudo.

Longo esconjuro não farei, já ouço

Um aqui perto que a meu mando acode.

Dos ratos o senhor e dos morganhos,

Das moscas e das rans, sapos e osgas,

Ordena-te que sáias attrevido

E que esta limieira roas como

Se de oleo 'stivera toda untada;

Inda mais uma vez ludibriado!

D'espectros a visão assim termina?

Vi em sonho mentido o proprio démo,

E um cão que trouxera escapuliu-se?

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Expediente

Autor
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive
Título
Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas) — III
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-fausto-traduzido-por-agostinho-de-ornelas-iii--agostinho-de-ornelas-e-vasco-219166
Cita recomendada
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive, «Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas) — III», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-fausto-traduzido-por-agostinho-de-ornelas-iii--agostinho-de-ornelas-e-vasco-219166.html

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