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PoetósferaLa BibliotecaAgostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive

Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive · Modernismo

Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas) — II

portugués

Vamos além, do caçador à casa.

Nós cá vamos andando até o moinho.

O meu conselho é ir té a cascata.

O caminho p'ra lá não é bonito.

O que fazes então?

Sigo com os outros.

Vamos antes á aldêa; achamos certo

Excellente cerveja, bellas moças

E tambe:n o melhor divertimento.

Tu, meu grande ratão, comem-t'as costas

Pela terceira vez? Lá nesse sitio

Não gósto de brincar, tenho meu medo.

Nada, não quero, p'ra a cidade torno.

Achamol-o de certo lá nos alamos.

Que me faz isso a mim? Pôe-se a teu lado,

Só comtigo é que dansa lá na eira;

Que parte tenho eu nos teus namoros?

Fica certa que hoje só não anda;

Disse-me que o amigo tambem vinha.

Apre, como se mexem estas moças!

Amigo, chega cá, vamos seguil-as.

Cervejasinha forte, bom tabaco,

Uma boa pequena, eis o meu gosto.

Olha, pois tu não vês esses rapazes!

É mesmo uma vergonha; ter podiam

Tão boa companhia, e vão correndo

Apoz daquella gente, de creadas!

Anda mais devagar, vem atraz duas

E muito bem vestidas, a visinha

Lá vem de quem eu gosto; muito séria,

Mas acceitam-nos certo a companhia.

Nada, meu charo amigo, isso é massada.

Depressa, não nos fuja a outra caça;

A mão que uma vassoura empunha ao sabbado,

Com mais carinho affaga no Domingo.

Cá a mim não me agrada o Burgomestre:

Agora des que o é, faz-se attrevido

E cada dia mais. Pela cidade

O que tem elle feito? A peor vae tudo:

Força é obedecer mais do que nunca,

E tambem ir pagando mais que outr'ora.

Minhas bellas senhoras, meus senhores,

Tão bem vestidos, de tão bom par'cer,

Dignai-vos de olhar as minhas dôres.

Vêde e alliviae meu padecer!

Não seja vão meu supplice cantar,

Dá de bom grado o coração contente.

Esmolas fartas espero eu juntar

Em dia que festeja toda a gente.

Nada melhor conheço em dias santos

Do que é conversar sobre batalhas,

Quando longe de nós lá na Turquia

Os povos entre si brigam raivosos.

Pôe-se a gente á janella, bebe um copo,

Vê correr rio abaixo as barcas cheias,

E volta á noite para casa alegre,

Paz e tempos de paz abençoando.

Visinho, tem razão, assim eu penso:

Abram-se embora os outros as cabeças,

Façam andar lá tudo em polvorosa,

Mas cá por casa fique tudo à antiga.

Eia, como vão secias as meninas!

Quem não ha de ficar de boca aberta?

Mas nada de soberbas, ora escutem

Arranjar-lhes eu posso o que procuram.

Agueda, vamos! tenho um medo immenso

De na rua fallar com bruxas destas.

Noite de Santo André mostrou-me aquella

O meu futuro amante, em corpo e alma.

E o meu me fez vêr em crystal puro,

Á militar, com muitos companheiros;

Olho p'ra toda a parte, miro a todos,

Mas até hoje não logrei encontral-o.

Castello roqueiro

De muros altivos,

Donzella formosa

De modos esquivos,

Quizera ganhar!

É empreza arriscada

Mas bem compensada!

E nós, oh soldados,

Avante marchar!

Já de gelo libertos os regatos

E arroios estão, da primavera

Ao quente e vivo sopro. Reverdece

No fundo valle a esprança de colheita,

E o gelado inverno já sem força

Ás agrestes montanhas se retira.

Dalli envia, fugitivo, apenas

De saraiva chuveiros impotentes,

Que matizam de branco o verde prado.

Mas essa mesma alvura o sol não soffre;

A creadora força em toda a parte

Opera vigorosa, varias córes

Em tudo renovando; na campina

Faltam flôres ainda, em logar dellas

Homens tem enfeitados. Dest'altura

Volta-te p'ra a cidade. Variegada

Turba lhe sae da porta escura e funda.

Festejando o Senhor resuscitado

Todos hoje contentes se assoalham;

Pois tambem elles mesmos resurgiram:

Do sombrio recincto das moradas,

De officinas e fabricas que os prendem,

Da compressão dos tectos deprimidos,

Da estreiteza das ruas acanhadas,

Da veneranda noite das Egrejas,

Eil-os todos á luz restituidos.

Olha como ligeira se dispersa

Por campos e jardins a turbamulta,

Como do rio em toda a superficie

Tantas barcas alegres vogam. Cheia

Quasi até se alagar a derradeira

Lá se solta da margem. Nas distantes

Veredas das montanhas serpeando,

Brilham ao longe fatos domingueiros.

Já me chegá o rumor que vae naldea;

Este é do povo o verdadeiro empyreo,

Grandes, pequenos, satisfeitos folgam;

Aqui sou homem, posso eu aqui sel-o.

Senhor Doutor, o passear comvosco

Não é honra sómente, que é proveito;

Mas confesso que aqui só não quizera

Perder-me, pois detesto quanto é rude.

As musicas campestres, gritos, jogos,

São me profundamente aborrecidos.

Vêde como se agitam quaes possessos

E dizem que é prazer, chamam-lhe festa!

Para o bailarico vestiu-se o pastor

De jaleca nova, de fitas de cór

Guapo trajar;

Debaixo das tilias já todos estão

Quaes doidos saltando sobr'o verde chão,

Lala,lala,la

Lari ra la la la!

Rabeca a tocar.

No braço dos pares repouso tomavam,

La la la la la

Larira la la la!

A bom conchegar.

Ora, senhor Doutor, mui bem vos fica

Não desdenhardes hoje a nossa festa,

Andar homem tão douto entre este povo.

Pois tomae por favor a bella taça

Que de fresca bebida aqui vos encho.

Bebo á vossa saude e é meu desejo, .

Que não só vos mitigue a sede ardente,

Senão que tantos dias Deus .ajunte

Aos vossos, quantas gotas leva o copo.

A bebida que alegra acceito grato,

A vossa saudação a todos torno.

É na verdade cousa mui bem feita

O appar'cer assim n'um dia alegre,

Quem outr'ora p'ra nós, em negros dias,

Certo refugio foi. Aqui estão muitos

Vivos que vosso pai na extremidade,

Soube arrancar á devorante febre,

Pondo termo aos estragos do contagio.

E vós tambem, então ainda mancebo,

Dos enfermos as casas visitaveis ;

Mais de um 'cadaver as deixou p'ra sempre

Mas foi-vos dado de escapar illeso,

A duras provas resististe. Auxilio

Divino vos salvou, vós, nosso auxilio.

Eia! á saude do provado sabio,

Que muitos annos nos ajude ainda.

Diante do altissimo curvae-vos,

Que ensina a soccorrer, que manda auxilio.

O que não sentes tu, oh grande homem,

Quando honras te rende o povo em chusma !

Feliz quem de seus dotes tal proveito

Pode tirar. O pae aos tenros filhos

Com respeito te mostra, alvoroçada

A turba acode e ávida pergunta:

Emmudecem os cantos, danças param,

Quando tu passas, e formando alas,

Os barretes ao ar atiram todos;

Por pouco que não cahem de joelhos

Como se vissem vir o Sacramento.

Só mais dous passos té aquella pedra! —

Alli do passear descansáremos.

Muita vez meditei aqui sosinho

E atormentei-me com jejuns e rezas.

Rico d'esp'ranças e na crença firme,

Com lagrimas, suspiros, mãos erguidas,

Julguei o termo em fim daquella peste

Alcançar do Senhor. Como um escarneo

Da turba o applaudir sôa-me agora.

Oh! se podesses ler dentro em meu peito

Quam pouco filho e pae louvor mer'ceram!

Meu pae, homem de bem, porém obscuro,

Sincero d'intenções, mas a seu modo,

A natureza e sua sacra esphera.

Com phantastico ardor investigava ;

Encerrado em cosinha tenebrosa,

Rodeado d'adeptos, e segundo

Receitas infinitas, os contrarios

Procurava fundir. Um leão vermelho,

Pretendente attrevido, desposava

Com o candido lyrio em banho tepido;

Um e outro depois com viva chamma,

De retorta em retorta transmutava.

No vidro então surgia matizada

A rainha gentil, de varias cores:

Era o remedio; a morte os pacientes

Ceifava; se algum tivera cura

Ninguem sequer por isso perguntava.

Assim nestas montanhas, nestes valles,

Com drogas infernaes, peores estragos

Do que a peste fizemos. Dei eu mesmo

A muitos o veneno. Succumbiram

E sobrevivo eu, e presencêo

Louvor ao assassino tributado.

Como podeis com isso atormentar-vos ?

Bastante homem não faz quando pratica

Qual lh'a ensinaram cuidadoso a arte?

Se tu, como mancebo, teu pai honras,

As licções que te der submisso esculas;

E se depois, já homem, à sciencia

Um passo fazes dar, tambem teu filho

A maior perfeição leval-a pode.

Oh feliz, quem a esp'rança nutre ainda

De surgir deste mar immenso de erros!

D'aquillo que não sabe o homem carece

E o que sabe, utilisar não pode.

Mas com tristezas taes não perturbemos.

Dest'hora os dons bellissimos. Contempla

Como no resplendor do sol cadente

Reluzem, rodeadas de verdura,

Essas choças na serra desparzidas.

Recua o astro e cede, o dia acaba;

Mais longe corre o sol dar nova vida.

Oh! não me erguer da terra aza nenhuma

Para seguir traz delle sempre, sempre!

Veria em eterna tarde radiosa,

Aos pés tranquillo mundo, as altas serras

Todas em fogo accesas, fundos valles

Em placido repouso, e em veios d'ouro.

O arroio de prata serpeando:

De monte agreste os escarpados corgãos

A divina carreira não sustaram,

Abrir-se -hia o mar co'os seios tepidos

Ao attonito olhar. Lá yai sumir-se

O Deus emfim no seio do oceano;

Mas nova aspiração em mim acorda,

Sigo ávante a beber-lhe a luz eterna,

Tendo o dia ante mim e atraz a noite,

Os ceus sobré a cabeça, aos pés as ondas.,

Um bello sonho emquanto o sol s'esvae!

Ai, que ás azas do espirito tão facil

Não hão de associar-se azas corporeas!

E todavia a todo o ser nascido

Acima e ávante impelle o sentimento,

Se sobre nós no espaço azul perdida

Entôa a cotovia o canto agudo,

Se sobre os pinheiraes d'altivas rochas

Paira a aguia estendida, e por lagôas

Ou por plainos o grou procura o ninho.

Horas tenho tambem de phantesia,

Mas d'aspiração tal jamais fui conscio.

De bosques e de prados cedo farto

Nunca invejei aos passaros as azas.

Como o prazer do 'studo outro nos leva

De livro em livro, d'uma a outra pagina!

Assim se tornam bellas, tediosas

Noites d'hinverno e calorosa vida

Os membros nos aquece, e ai, se acaso

Um douto pergaminho desenrolas,

É o ceu que sobre ti baixar se, digna.

Só d'uma aspiração tens consciencia

Oh, não queiras jamais sentir a outra!

Duas almas habitam no meu peito

Uma da outra separar-se anceam ;

Uma com orgãos mat'riaes se afferra

Amorosa e ardente ao mundo physico;

Outra quer insoffrida remontar-se

De sua excelsa origem ás alturas.

Oh! se no vasto ar vagam espiritos

Entre a terra e o ceu regendo o espaço,

Baixem té mim desse dourado ambiente

E a nova, varia vida me transportem!

Ah sim, se fosse meu, magico manto

Que me levasse a terras desvairadas,

Pela mais rica veste o não trocára

Nem por manto de rei, vaidoso o déra.

Não evoques a grei bem conhecida

Que em torrentes no ar anda espalhada,

E de todos os lados aos humanos

P'rigos infindos sem cessar prepara :

Do norte corre o penetrante sopro

Sobre ti com mil linguas aceradas;

Do oriente vem arido e secco

Teus pulmões. devorar ; Já do deserto

Adusto agora os manda o meio dia,

Ardores sobre ardor accumulando ;

Agora veem do Oeste com chuveiros

Que a ti e os campos ao depois inundam.

Faceis escutam de ferir gostosos,

Promptos acodem a enganar affeitos.;

Como vindos do ceu se nos inculcam

E quaes anjos nos fallam, quando mentem.

Ora voltemos, já escurece tudo,

O ar torna-se frio, a nevoa desce,

Horas da noite valem mais'em casa.

Porque páras assim, que olhas attonito ?

O que pode atterrar-te no crepusculo?

Vês aquelle cão negro como corre

Por searas e estevas?

Vejo-o ha muito,

De pouca monta me par'ceu ser elle?

Attenta bem, que julgas tu que seja?

É um gozo, que a pista de seu dono

A seu modo procura impaciente,

Pois não reparas que em 'spiral correndo,

De nós em torno, mais e mais se' chega ?

E um rasto de fogo, se não érro,

Pelo trilho lhe segue?

Nada vejo

Mais que um gozo negro, a vista illude-vos.

Parece que em subtis, magicos laços,

Prisão futura, nossos pés enreda.

Vejo-o saltar em roda receoso,

Por ver em vez do dono dois extranhos.

Eis que s' estreita o circulo, approxima-se.

Que phantasma não é já vês, é um gozo.

Hesita, rosna, sobre o ventre roja,

Agita a cauda são caninos usos.

Chega-te'a nós — Aqui !...

É mesmo um gozo:

Se paras, pára elle; se lhe fallas,

Procura marinhar por ti acima;

Perde seja o que for, virá trazer-t'o

Apoz do teu bastão saltará n' agua.

Tens de certo razão, rastos não vejo

D'espirito, o que faz é tudo ensino.

Ao cão, se habilmente o ensinaram,

Té o homem prudente se affeiçõa..

De todo o teu louvor de certo é digno

Elle do 'studioso o melhor socio.

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Expediente

Autor
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive
Título
Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas) — II
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-fausto-traduzido-por-agostinho-de-ornelas-ii--agostinho-de-ornelas-e-vasco-c465ad
Cita recomendada
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive, «Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas) — II», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-fausto-traduzido-por-agostinho-de-ornelas-ii--agostinho-de-ornelas-e-vasco-c465ad.html

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