CADA PIEZA VIVE EN UNA DIRECCIÓN · NADA VIVE EN UNA SOLA SALA  

PoetósferaLa BibliotecaAgostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive

Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive · Modernismo

Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas) — I

portugués

Philosophia, leis e Medicina,

Theologia até, com pena o digo,

Tudo, tudo estudei com louco empenho!

E eis-me aqui agora, pobre tolo,

Tão sabio como d’antes! É verdade

Que sou mestre, doutor, e ha já dez annos

Que discipulos levo a meu talante

Á esquerda, á direita, ao sul ou norte.

Mas conheço que nada nós sabemos!

Roe-me isto o coração! Sinto-me acima

De mestres e de padres e de escribas,

Não me perseguem duvidas nem ’scrupulos,

Nem do demonio ou do inferno hei medo;

Mas tambem nunca tenho um’hora alegre!

Nem chego a imaginar que haja sciencia

Em que devéras creia, nem que saiba

Cousa alguma ensinar que aos homens sirva,

E convertel-os possa ou melhoral-os.

Tambem não possuo eu nem bens, nem ouro,

Nem grandezas ou glorias deste mundo;

Um cão não supportára uma tal vida!

Por isso me entreguei todo á magia

Para ver se do espirito as potencias

Alguns arcanos revelar-me podem,

Por que não haja com suor amargo

D’ensinar o que ignoro; o que sustenta

Do mundo o interior conhecer logre,

Veja as forças activas, veja as causas

E cesse o traficar com vans palavras!

Horror! Inda no carcere encerrado!

Oh caverna maldicta, tenebrosa,

Aonde a propria luz do ceu tão chara,

Por vidraças de côr penetra turva!

De livros por acervos estreitada,

Que roem vermes e a poeira alastra,

D’affumados papeis té a alta abobeda

Toda coberta; de redomas, vidros,

D’instrumentos pejada, accumulados

Aqui d’avós os carcomidos moveis —

Teu mundo é isto? Chama-se isto um mundo?

Vendo como os espiritos se fallam.

Debalde aqui meditação esteril

Os sagrados signaes explicar tenta;

Que junto a mim voais conheço, espiritos,

Respondei pois, se vos é dado ouvir-me.

Ah! que deleite, a vista tal, s’estende

De subito por todos os sentidos,

E prazer juvenil, sagrado gosto

Té á medulla ardentes me penetram!

Seria um Deus quem desenhou taes signos,

Que a interna tormenta em mim serenam,

O pobre coração de paz me enchem

E com myst’rioso impulso patenteam

Em torno a mim as forças da natura?

Serei eu Deus? Tão claro se me torna

Tudo; e patente nestes puros traços

Vejo ante mim a natureza activa.

Agora comprehendo a voz do Sabio:

«Não ’stá cerrado o mundo dos espiritos,

O coração tens morto e o pensamento!

Eia, discipulo, o terreno peito

No rubor da manhã banha incansavel.»

Como tudo no todo vai fundir-se,

E actuam e vivem uns nos outros

Os seres! Como baixam e remontam,

De mão em mão passando-se aureos vasos,

Com vôo abençoado empyreas forças

Que do ceu pela terra penetrando,

Harmonia no mundo infundem todas!

Espectaculo immenso! mas que apenas

Espectaculo é. Natura infinda,

Onde posso palpar-te? Vós oh peitos,

Da vida universal perennes fontes,

Donde o ceu e a terra estão pendentes,

A que os labios mirrados chegar buscam,

Manaes, amamentaes e em vão anceio!

Como este signo em mim diverso influe,

Tu, oh genio da terra, estás-me proximo!

Já minhas forças mais pujantes sinto,

Ardo como de mosto embriagado;

Animo sinto d’arrojar-me ao mundo,

Da terra os gozos partilhar e as penas,

Luctar co’a tormenta, e ao estrondo

De naufragio cruel suster o rosto!

Innuvia-se o ar — a lua esconde

A luz — desmaia a lampada — vapores

Eis surgem — Eis fuzilam rubros raios

De minha fronte em torno. Da alta abobada

Desce um pavor que me penetra todo!

De mim proximo voas, sinto-o, sinto-o,

Oh desejado espirito. — Revela-te!

Ah como o seio se me rasga! Como

Por novas sensações os meus sentidos

Todos anceam. A ti todo entregue

Sinto meu coração. Alfim mostrar-te

É força, embora a vida isso me custe!

Quem me ousa evocar?

Semblante horrendo!

Com força me attrahiste, á minha esphera

Longo tempo aspiraste, e agora —

Sinto

Que teu aspecto supportar não posso!

Por olhar-me de perto, ancioso choras,

Por escutar-me a voz, por vêr-me a face;

De tu’alma ao clamor possante acudo

E eis-me aqui! Que miseravel mêdo

De ti, mais que homem, se apodera? Onde

Está da alma o grito, aonde o peito

Que em si pôde crear, suster um mundo,

Que intumeceu, tremendo de alegria,

Té elevar-se á altura dos espiritos?

Onde estás, Fausto, a quem ouvi os brados

E aspiraste a mim co’as forças todas?

És tu que de meu halito cercado,

Qual encolhido verme, temeroso,

De teu ser até o intimo estremeces?

Hei-de ceder-te a ti, vulto de chammas?

Sou eu, sou Fausto, teu egual me julgo.

No mar da vida, no volver dos factos,

Abaixo, acima boio,

Aqui e alli vagueio!

A morte, o nascer,

Um pelago eterno,

Tecido cambiante,

Brilhante viver,

Assim do tempo no tear ruidoso,

Vivente manto á divindade teço.

Tu que o mundo vastissimo circumdas,

Quam perto sou de ti, potente espirito.

És egual ao espirito que entendes,

A mim não!

A ti não? à quem pois posso

Egualar eu, da divindade imagem,

Se nem a ti?

Oh morte! eis o meu famulo!

Em nada se tornou meu summo encanto!

Ha de vir perturbar este importuno,

Este seccante, apparições tão plenas!

Perdoae, mas ouvi que declamaveis;

Lieis talvez uma tragedia grega?

Dess’arte um pouco eu aprender quizera,

Pois possue hoje em dia grande peso.

Ouvi dizer que bem podia um comico

A qualquer prégador servir de mestre.

Sim, póde ser, se o prégador for comico.

Ai! quem vive encerrado em sua cella,

E só lá n’um Domingo avista o mundo,

E mesmo assim de longe, por um oculo,

Mal póde a arte ter de convencel-o!

Se a fundo não sentís, jámais a tendes,

Se do intimo d’alma vos não brota

E com espontanea, poderosa força,

Os corações não vence dos ouvintes.

Estudae sem cessar, grudae palavras,

Dos restos d’outrem cosinhae um prato,

Do acervo de cinzas que juntardes

Chammas mesquinhas assoprae a custo!

Pasmo sereis de bobos e creanças,

Se ao vosso paladar isso se ageita;

Mas corações não ganhareis vós nunca,

Se o proprio coração vos ficar mudo.

Porém a exposição faz a fortuna

Do orador; comquanto bem o sinta

Longe estou d’alcançal-o.

Lucro honesto

Buscae sómente, e não façaes de bobo

Cascaveis agitando. O senso recto,

O claro entendimento, por si mesmos

Sem muit’arte s’expoem. Pois se tiverdes

Que dizer cousas serias, é preciso

Excogitar palavras? Sim, os vossos

Discursos reluzentes, ostentando

Ante os ouvintes enfeitados nadas,

Aridos são como o vento d’outomno

Que nas folhas mirradas rumoreja.

Valha-nos o Senhor, a arte é longa

E nossa vida curta. Angustiados

Peito e cabeça em meus trabalhos criticos,

Bastas vezes eu sinto. Quanto custa

Os meios conseguir que ás fontes guiam!

Inda um pobre diabo não alcança

Da senda o meio, quando o leva morte.

É pergaminho o manancial sagrado

Donde brota p’ra a sede eterno liquido?

Se te elle não manar da propria alma

Conforto não terás.

Perdoae; delicia

Infinda é ao espirito dos tempos

Poder-se transportar, vêr como antes

De nós pensaram sabios e quam longe

O progresso recente altivo chega.

Bem longe, sim, té ás proprias estrellas!

Os tempos que passaram, meu amigo,

Um livro são p’ra nós de septe sêllos;

O que chamaes espirito dos tempos

D’alguns senhores vem a ser o espirito,

Em que os tempos s’espelham. Muitas vezes

Lastima é, de que á primeira vista

Enojado se foge. Ou vil monturo,

Ou pejado armazem de velhos trastes,

Ou solemne e gravissima comedia,

Com excellentes maximas pragmaticas,

De titeres na boca bem cabidas!

Porém o mundo, a mente e o peito humano

Quem não desejará vir a entendel-os?

Pois sim; aquillo que entender se chama!

Quem sabe o proprio nome dar ás cousas?

Aquelles que jámais o comprehenderam

E que insensatos, descobrindo: o peito,

Pensar e sentimento á turba abriram;

Na fogueira e na cruz o tem expiado.

Amigo, desculpae, vai alta a noite,

É mister desta vez interromper-nos.

Velara de bom grado ind’algum tempo

Só por tão doutamente conversar-vos,

Mas ámanhã, santa manhã de Paschoa,

Uma ou outra pergunta permitti-me.

Com zelo ao estudar me hei dedicado,

Sei muito, mas quizera saber tudo.

Como não foge toda a espr’ança á mente

Que á apparencia insipida se apega,

Que com avida mão busca thesouros

E satisfeita fica, achando vermes!

De tal homem a voz resoar ousa

Onde espiritos mil me circumdaram?

Mas ai! que desta vez graças te rendo,

Tu dos filhos da terra o mais mesquinho.

Vieste arrebatar-me ao desespero,

Que a razão destruir-me ameaçava.

Ai, que a apparição foi tão gigante,

Que misero pigmeu me achei ante ella!

Áquelle impulso obedecer me cumpre?

Ai, que nossas acções, quaes nossos males,

De nossa vida á marcha põem tropeços.

Que vivendo no pó, delle nutrido,

Do caminhante o pé mata e soterra.

Antigos utensilios, que não uso,

Jazeis aqui porque a meu pae servistes;

E tu, polé vetusta, ennegreceste

Tanto ha que na banca tem ardido

A amortecida lampada. Mil vezes

Antes a pobre herança haver disperso,

Do que penar aqui com este pouco

Opprimido. O que herdámos d’avoengos

É mister que o gosemos p’ra ser nosso!

O que não se approveita é grave carga,

E só nos serve o que o momento off’rece.

Brilha a meus pés das ondas o espelho,

Uma luz nova attrahe-me a novas praias.

Quando de mão em mão passavas cheio.

De teus ornatos a riqueza artistica,

Do conviva o dever de descrevel-os

Em rima, e teu licôr beber de um golpe,

Noites de juventude á mente trazem.

A mão amiga não te passo agora

Nem meu ingenho em descrever-te ostento:

Bebida é esta que embriaga prompto,

Com ondas pardas o teu seio enche.

Este ultimo trago, preparado

E escolhido por mim, beber desejo

Como brinde festivo, saudar ledo,

Do fundo de minh’alma à manhã bella!

Resurgiu Christo!

Jubilo, mortaes,

Que perniciosas,

Occultas, damnosas

Faltas herdaes.

Que profunda surpreza, que som claro

Com força o calix de meu labio arreda?

Já vós annunciaes, oh campanarios,

Da gran festa paschal a hora primeira?

O consolador hymno entoaes, coros,

Que de labios angelicos na noite

Do sepulchro soou, nova alliança

Confirmando do homem com o Eterno?

Com myrrha e aromas

O embalsamámos,

Em pannos alvissimos

O amortalhámos,

Nós suas fieis

Aqui o sepultámos;

Ai de nós que o Christo

Já não encontramos,

Resurgiu o Christo,

Bemdicto o amor,

A que a provação

Que turva a razão,

Não quebra o fervor.

Porque desceis ao pó para buscar-me

Vós, oh hymnos do ceu, meigos e fortes?

Ide soar onde ha corações brandos.

A boa nova ouço e falta a crença;

O milagre é da crença o filho amado.

Não me attrevo a aspirar a essas espheras

Onde retumba a nova abençoada;

E comtudo a este som, da infancia affeito,

Sinto-o agora revocar-me á vida.

Outr’ora do amor divino o osculo,

Do dia do Senhor nas horas graves,

Descia sobre mim; do campanario

O tanger tão presago me soava

E era uma oração, almo deleite;

Um ineffavel mas bem doce anceio

A vaguear nos bosques m’impellia,

E por entre mil lagrimas ardentes,

Sentia-me surgir no peito um mundo.

Da juventude os jogos prazenteiros

Annunciava est’hymno, o prazer livre

Da louçan primavera; ora saudosas

Recordações e um sentir d’infante,

Do passo ultimo e grave me desviam.

Resoae, resoae, celestes hymnos!

Lagrimas verto, recobrou-me a terra!

Já o sepultado

Vivente, exaltado

Aos ceus remontou;

A vida já gosa,

No crear s’encerra;

E nós, ai, jazemos

Mesquinhos na terra.

A nós que seus somos

Saudosos deixou;

Tua dita, oh mestre,

Quem não invejou!

Resurgiu Christo,

A morte venceu;

Exultae que a todos

Liberdade deu.

Vós que o louvaes,

Amor lhe mostraes,

Aos irmãos valeis

E prégando andaes,

Salvação é o premio

Que o mestre dá,

Exultae que sempre

Com vosco estará.

Para que vão vocês por esse lado?

Sigue explorando

Dónde vive
La Biblioteca

← Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas) — DedicatóriaFausto (traduzido por Agostinho de Ornelas) — II →

Expediente

Autor
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive
Título
Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas) — I
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-fausto-traduzido-por-agostinho-de-ornelas-i--agostinho-de-ornelas-e-vasco-fc6d0a
Cita recomendada
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive, «Fausto (traduzido por Agostinho de Ornelas) — I», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-fausto-traduzido-por-agostinho-de-ornelas-i--agostinho-de-ornelas-e-vasco-fc6d0a.html

Las obras de dominio público se reproducen íntegras, con atribución y en la ortografía de su impreso. ¿Ves una errata o conoces una fuente mejor? Escríbenos desde Sobre la casa.