Batem? Entrae! Quem vem atormentar-me?
Sou eu.
Entrae!
Has-de o dizer tres vezes.
Pois outra vez, entrae.
Assim agradas-me.,
Havemos de entender-nos, tenho esp'rança.
Para curar-te da melancholia,
Aqui me tens vestido á cavalleira,
De carmezim com passamanes de ouro,
De pluma no chapeu, manto de seda
E ao lado pendente a aguda espada;
Um conselho te dou, sem mais preambulos,
Que vás ataviar-te deste modo,
E livre venhas vêr qual seja a vida.
Seja qual fôr o trajo, sempre as penas
Hei-de sentir deste viver mesquinho.
Sou já mui velho p'ra brincar sómente,
E muito moço p'ra não ter desejos.
Em que me póde contentar o mundo?
Priva-te, priva-te! eis a lenda eterna
Que aos ouvidos de todos triste sôa;
Que toda a nossa vida, com voz rouca,
Cada hora repete. Com a aurora
Horrorisado acordo; amargo pranto
Sobre o dia derramo que em seu curso
Nem um desejo poderá fartar-me,
Nem um sequer; que o pressentimento
De futuro prazer turva invejoso,
E o crear de minha activa mente
Ha-de empecer, da vida co'as miserias!
Quando á noite no leito vou lançar-me,
Novo soffrer me punge. Não me é dado
Tranquillo repousar. Sonhos tremendos,
Atterrando-me, o somno me angustiam.
A divindade que meu peito habita,
De meu ser agitar pode o mais fundo ;
Mas minhas forças todas dominando
Do mundo externo nada mover pode.
É me assim cruelissima a existencia,
A' vida um peso, a morte suspirada.
A morte poucas vezes é bemvinda.
Ditoso aquelle a quem no ardor da lide
Os louros da victoria em sangue tinge,'
O que depois de valsa doudejante
É nos braços da amante arrebatado.
Tivera eu, ante o grandioso espirito,
Transportado d'amor, cahido exanime!
Nessa noite houve alguem, que certo liquido
Escuro não bebeu.
A espionagem
Parece ser teu gosto favorito.
Sem ser omnisciente, sei bastante.
De tormenta mental tão temerosa,
Se doce, amigo som veiu salvar-me ;
Se suaves memorias acordando,
Inda crenças da infancia me cegaram;
Maldigo agora o que seduz a alma
Com illusões, engodos que fascinam;
O que neste antro triste e tenebroso,
Com ardilosa força a traz captiva.
Maldicta seja a opinião subida
Que de si mesma forma a mente cega,
Maldictas essas falsas apparencias
Que aos sentidos mentem, esses sonhos
De gloria, e de nome immorredouro.
Maldictos sejam bens com que a fortuna
Nos affaga a avareza, as terras pingues,
O arado que as sulca, a mão que o guia!
Affeições de familia, esposa, prole,
Sede maldictos ; sê maldicto Mammon,
Que a emprezas audazes nos incitas
Com teus thesouros vis, e em ricas sallas
Fofos coxins para a indolencia apprestas.
Succo fervente de purpureos cachos,
Gosto summo de amor, sede maldictos.
Maldicta seja a esp'rança, a fé maldicta,
E mil vezes maldicta a paciencia!
Ai, ai,
Destruiste
O mundo tão bello,
Com mão attrevida;
La cae derrocado!
Em terra um semideus o tem prostrado.
Nós tristes levamos
Ao nada os destroços,
Saudosos choramos
Perdida belleza.
Mortal poderoso,
Fal-a reviver;
No peito orgulhoso
De novo nascer.
Carreira da vida
Enceta de novo,
Com alto pensar,
Eternas canções
Te vão celebrar.
Dos minimos meus
As vozes escutas,
Chamando-te á vida,
Aos gozos, ás luctas!
Da solidão que gela
Em ti sangue e vigor,
Do mundo ao vasto espaço
Te chamam com ardor
Que te hei de tornar em paga d'isso?
Tempo temos sobejo p'ra tratal-o.
Nada, não quero. O demo é egoista!
Que por amor de Deus não faz serviços
A outrem. Dize o que por paga exiges;
P'ra tomar tal creado é mister tento.
Obrigo-me a servir-te cá na terra,
A teu menor aceno obedecendo,
Se, quando no outro mundo nos toparmos,
O mesmo me fizeres.
Pouca monta
O outro mundo tem p'ra mim; se esté
For um dia ruinas, muito embora
Venha outro depois. É desta terra
Que brotam meus prazeres, minhas penas
Este sol allumia. Quando delles
A separar-me chegue, então súcceda
Seja o que for. E nem saber m'importa
Se ha odio ou amor na outra vida,
Nem se existe lá n'essas espheras,
Região superior ou fundo abysmo.
Pensando assim, bem podes arriscar-te;
Façamos o contracto. Com delicia
De meu poder verás as maravilhas.
Dar-te-hei o que homem nenhum viu.
Que me has de tu dar, pobre diabo?
A mente humana e seu immenso anhelo
Acaso compr'ender podem teus pares?
Manjares tens que não saciam, ouro
Que nos corre das mãos qual vivo azougue,
Jogo a que se não ganha; tens mulheres
Que sobre o peito meu, com meigos olhos,
A outrem se promettem, tens da gloria
O divino prazer, vão meteoro
Que rapido s'esvae. Mostra-me fructos
Que antes de colhidos se corrompam,
Plantas que nova folha sempre vistam.
Não me atterra a incumbencia, posso dar-te
Tambem d'esses thesouros. Mas, amigo,
O tempo alfim lá chega em que somente,
Algum prazer gosar em paz queremos.
Se jamais repousar eu socegado
Em leito d'indolencia, morra logo!
Se com lisonjas tanto m'illudires,
Que chegue a estar comigo satisfeito,
Se com deleites logras seduzir-me ;
Seja esse meu dia derradeiro.
A aposta offreço.
Topo.
Pois 'stá dito.
Se disser ao momento quando foge:
És tão bello, demora-te, — encadea-me,
Succumbo satisfeito. Então repique
Por mim a campa de finados, cesse
O serviço que fazes, sê liberto;
Pare o relogio e o ponteiro cáia,
De minha vida soe a hora extrema.
Attenta bem, nós não o esqueceremos.
Terás todo o direito de lembral-o ;
Tal decisão não a tomei de leve.
Como vivo sou escravo, que m'importa
Sel-o teu ou de outrem?
Hoje mesmo
Ao jantar do Doutor farei serviço.
Uma cousa — por quanto ha t'o peço,
Dá-me duas regrinhas assignadas.
Escriptura tambem queres, pedante,
A fé de homem honrado não conheces ?
Não é bastante que a palavra dada
Para sempre me ligue em toda a vida?
Emquanto o mundo arrastam mil torrentes
Terão promessas força de prender-me?!
Mas é esta a illusão que temos n'alma,
Quem ousará jamais soltar-se d'ella?
Ditoso o que no peito traz verdade,
Não lhe hão de pesar os sacrifícios!
Pergaminho porém sellado e escripto,
É phantasma que atterra os mais affoutos.
Já na penna a palavra morre, a cera
E o couro curtido então dominam.
O que exiges de mim, maligno espirito?
Papel ou pergaminho, bronze ou marmore,
Que escreva com cinzel ou com uma penna ?
Deixo-te livre a escolha.
P'ra que has de
A tal ponto empolar tua facundia?
Qualquer papel nos serve, se assignares
Com um pingo de sangue.
No capricho
Consinto, se com elle te contentas.
É o sangue um licor especialissimo.
Medo não tenhas que viole o pacto.
Com minhas forças todas desejava
Aquillo que prometto. Infatuára-me .
Excessiva soberba; á tua egualha
Conheço pertencer: o grande espirito
Cruel me desdenhou e a natureza
Ante meus olhos seus arcanos vela.
O fio das idéas tenho roto,
E muito ha já, que o saber m'enoja.
Da sensualidade nos abysmos,
Inflammadas paixões me tranquillisem;
Em denso veu de encantos envolvidas
Todas as maravilhas se me offreçam!
Do tempo na torrente caudalosa,
No pelago da vida nos lancemos!
Victorias e revezes, pranto e riso
Se sigam, alternando-se incansaveis;
Só lidando sem fim, se prova o homem.
Nem medida, nem termo se vos marca.
Se de tudo as primicias só quizerdes,
Somente alguma flor provando rapido,
Bom proveito vos faça o vosso gosto.
É deitar mão de tudo e sem modestia!
Entendes-me ? Não curo de prazeres.
Ao delirio me voto, aos mais pungentes
Deleites : odio que ama, dor que alegra.
A nenhum soffrimento, dor nenhuma,
Fique extranho meu peito, já sarado
Da ancia do saber. O que é partilha
De toda a humanidade, no meu seio
Quero sentir, e perceber na mente
As idéas mais altas, mais profundas;
Enthesourar no peito os Bens e Males
Que dos homens são sorte, dilatando
Té o delles meu ser e succumbindo
Como elles a final.
Olha, acredita-me
A mim que ha milhões de annos que mastigo
Este duro bocado. Nenhum homem,
Do berço á sepultura, jamais logra
Ir o velho fermento digerindo.
Acredita um de nós, foi este todo
Feito só para um Deus! A luz eterna
De todo o sempre o cerca, densa treva
Por morada nos deu, e a vós somente
O tempo repartiu em dia e noite.
Porém eu quero!
E o dizel-o é facil !
Uma cousa recêo, a vida é curta
E muito longa a arte. Imaginava
Que serieis mais docil ao ensino.
Associae-vos com algum poeta,
Deixae-o divagar e enriquecer-vos
Da natura com os dotes mais subidos,
Coragem de leão, pernas de cervo
Ligeiras, d'italiano o sangue ardente
E de filho do norte a pertinacia.
Fazei com que o ségredo vos descubra
De astucia infundir em alma nobre,
É de guiar, segundo urdida traça,
Os impulsos de amor da mocidade.
Quizera muito conhecer tal homem;
O senhor Mikrokosmo lhe chamára.
Que pois sou eu, se me não é possivel
Essa c'roa alcançar da humanidade,
A que toda minh'alma audaz aspira ?
Vens a ser o que és — nem mais nem menos.
Põe as mais gadelhudas cabelleiras,
Saltos de vara e meia põe nas botas,
Ficas sempre o que és— nem mais nem menos.
Vejo que tenho em vão do humano espirito
Os thesouros na mente acumulado:
Quando medito, não rebenta força
Alguma nova dentro do meu peito;
Não cresci mais a altura de um cabello,
Nem mais cerca cheguei do Infinito.
Meu caro, as cousas vedes como todos;
Deveremos nós ser mais atilados
Antes que nos escape a doce vida.
Pés e mãos, co'os diabos, e cabeça
São teus, não é verdade? Pois aquillo
De que gozas contente sel-o-ha menos ?
Se tenho seis cavallos, suas forças
Minhas não são, e não ando ligeiro
Como se houvesse vinte e quatro pernas?
Deixa-te de pensar, vamos á vida !
Digo-t'o eu, um homem que medita,
É como um animal que em ressequida
Esteva faz girar maligno genio,
Quando a dous passos ha pastagens verdes.
Como damos principio ?
Partiremos
Sem a menor demora. Que buraco
É este em que tu vives, e que vida?
Atormentado a atormentar rapazes !
A teu visinho Pansa deixa isso;
'Star aqui sempre a repizar o mesmo!
O melhor que tu sabes não no ousas
Ás creanças dizer. Um alli ouço
Andar no corredor.
Não me é possivel
Agora recebel-o.
Espera ha muito
O pobre do rapaz, ir não no deixo
Assim desconsolado. Anda, o teu manto
E barrete me dá. Fica-me certo
As maravilhas mil este disfarce.
Deixa-o agora cá por minha conta,
Um quartosinho de hora é o que preciso;
No entanto te apresta p'ra a viagem.
A razão menospreza e a sciencia,
Essas do homem forças sublimadas !
Do genio da mentira pelas artes
Seductoras e vans deixa illudir-te.
És meu sem condições, dessa maneira....
Um animo insoffrido deu-lhe a sorte
Que ávante, indomavel, o impelle,
A cujo anceio soffrego não bastam
As terrenas delicias. Pela vida
Agitada o arrasto, pela chata
E torpe insipidez. Já o estou vendo
Estrebuchar, teimar, querer afferrar-se
E aos labios sedentos só de longe
Mostrarei refrigerio. Ha de debalde
Por allivio clamar. 'Stava perdido,
Ainda que ao demonio se não desse.
Recem-chegado sou, com reverencia
Conhecer, conversar procuro um homem,
De quem todos me fallam respeitosos.
Muito me apraz a vossa cortezia,
Um homem vêdes como muitos outros.
A vossa installação já haveis disposto ?
Rogar-vos venho que sejaes meu mestre.
Tenho a melhor vontade, algum dinheiro,
Energia e ardor não me fallecem;
Minha mãe me deixou partir a custo;
Alguma cousa a fundo aprender quero.
Não podieis achar logar mais proprio.
Fallando francamente, o meu desejo
Era ir-me outra vez. Estas paredes,
Estas sallas não podem agradar-me.
Falta-me o ar, não vejo nada verde
Nem sequer uma arvore, e nos bancos
Das aulas, perco o tino e o' sentimento.
É falta de costume. A creancinha
Tambem não toma logo de bom grado
peito nutridor, porém mais tarde
Alimenta-se delle com delicias.
O leite da sciencia pouco a pouco,
Vos irá cada vez melhor par'cendo.
Gostoso em seu regaço repousára;
Mas dizei, como hei de eu conseguil-o?
Antes d'iirmos mais longe declarae-vos.
Que faculdade tendes escolhido?
Quizera ser um sabio consummado;
O que conteem em si os ceus e a terra
A fundo conhecer, a natureza
E à sciencia.
Estaes no bom caminho,
Mas não deixeis que delle vos distráhiam.
Com alma e corpo o sigo, mas deveras,
Algum prazer nos dias feriados
E liberdade, haviam de agradar-me.
Empregae bem o fugitivo tempo,
Ensina a boa ordem a ganhal-o.
O conselho que dou; meu charo amigo,
É primeiro que tudo aula de logica.
Ahi vos hão de dar á mente ensino,
Em borzeguins estreitos apertando-a,
Por que percorra com airoso passo
A estrada do pensar, e não vaguele
Por aqui, por alli, qual fogo fatuo.
Depois dias e dias vos demonstram,
Que o que d'uma assentada antes fazieis,
Por exemplo, comer, é necessario
Que contéis um, dois, tres para fazel-o.
Verdade é que a fabrica de idéas
A um tear se assemelha, cada lanço
Vae mil fios mover que se entretecem
Escondidos á vista. Acima, abaixo
Correndo a lançadeira, a cada golpe
Ata mil ligações. Chega o Philosopho,
E que assim ser deve vos explica:
Foi o primeiro assim, assim segundo,
Serão portanto assim terceiro e quarto;
Se primeiro e segundo não houvesse,
Terceiro e quarto não seriam nunca.
Isto faz as delicias dos discipulos,
Mas a ser tecelões nunca aprenderam.
Quem um ser vivo conhecer procura,
Começa logo por tirar-lhe a vida;
As partes depois tem, mas já lhes falta
O espirito que as liga e as anima.
Encheiresin nature diz a Chimica,
Escarnece de si sem percebel-o.
Não vos posso entender perfeitamente.
Lá chegareis com o tempo, em aprendendo
A tudo reduzir, classificando o.
Estou tão tonto, nem que me rodasse
Uma mó de moinho na cabeça!
Logo depois, primeiro que o mais tudo,
Dedicar-vos deveis á Metaphysica.
Haveis de vêr que percebeis a fundo
O que não cabe ao homem no miolo.
Para o que nelle entrar póde e não póda,
Palavra achareis sempre altisonante,
Mas sobretudo agora, este semestre,
Um methodo segui mui rigoroso.
Cinco aulas por dia e entrae nellas
Á hora em ponto, não sem predispôr-vos
Estudando devéras os paragraphos,
Para bem conhecer que o sabio mestre,
Nada mais diz do que já 'stá no livro.
Mas tomae cuidadoso apontamentos,
Como se vos ditasse o Paraclito.
Não haveis de dizer-m'o duas vezes,
Sei muito bem o quanto isso auxilia.
Em possuíndo preto sobre branco,
Podemos ir p'ra casa satisfeitos.
Mas escolhei a vossa faculdade.
Co'a jurisprudencia não me ageito.
Nem vol-o levo a mal. Dessa sciencia
O estado conheço. Leis, direitos
Como eterna molestia se transmittem,
De geração em geração se arrastam,
De logar p'ra logar. Vem a ser erro
O que já foi verdade, em dom funesto
Se torna o beneficio: e és desgraçado
Porque tarde vieste. Do direito
Que comnosco nasceu, ninguem cogita.
Augmentais-me a aversão. Ditoso aquelle
Que vos ouve as licções. Quasi que sinto
Desejos de estudar Theologia.
Não vos quero induzir em erro. Em quanto
A essa disciplina, é tão difficil
Do errado caminho desviar-se;
Tanta occulta peçonha existe nella
Que da triaga apenas se distingue,
Que tambem neste caso o bom systema
É ouvirdes um só, jurando sempre
Na palavra do mestre. Em summa — atende-vos
Sempre ás palavras, els os meios optimos
De penetrar no templo da certeza.
Mas idéas exprimem as palavras!
É verdade, mas não o tomeis á lettra;
Serve a palavra onde as idéas faltam.
Disputa-se mui bem só com palavras,
Com palavras systemas se construem,
Na palavra se crê com fé profunda,
Da palavra um iota se não tira.
Perdoaé o deter-vos com perguntas,
Mais uma permitti. Da Medicina
Duas palavras não quereis dizer-me?
Tres annos não são muito e o campo é vasto.
Mas tendo pra guiar-nos bom conselho,
Mais seguros andamos no caminho.
Já estou cansado deste tom pedante,
Vou fazer outra vez papel de démo.
Da Medicina o fundo, sem trabalho
Se póde compr'ender; todo o Universo
Estudaes, para alfim deixar que ande
Como a Deus approuver. Perdeis o tempo
Em doutos devaneios engolphando-vos,
Ninguem aprende mais que aprender póde;
Sabio é quem se vale do momento.
Não me par'ceis mal feito e ousadia
De certo vos não falta, se em vós mesmo
Tiverdes confiança, os outros homens
Em vós confiarão. Deveis mormente
Saber levar as lindas senhoritas;
Suas: queixas sem fim, seus mil achaques,
Com um remedio unico se curam,
E se sabeis salvar as apparencias,
Na mão as tendes todas. Honorifico
Titulo lhes demonstre, que sciencia
Possuís que a de muitos mais profunda;
Assim, logo ao entrar, venceis obstaculos
Em que outro levára uns poucos d'annos,
Aprendei a apertar-lhes o pulsinho;
E com olhar de fogo ide apalpando
A cintura gentil, a vêr se acaso
Demasiado aperta o espartilho.
Isso é outro fallar, já 'stou contente,
Já percebo melhor o como e quando.
Pallida, amigo, é toda a theoria,
Mas a arvor' da vida é verdejante.
Eu vos juro que estou como num sonho.
Ousarei outra vez incommodar-vos
Para a fundo entender as licções vossas?
O que couber em mim, fal-o-hei contente.
Não me posso ir daqui, appresentar-vos
Inda quero o meu album, implorando
Uma lembrança vossa.
De bom grado.
Eritis sicut Deus, scientes bonum et malum!
Crê no dito da serpe, que inda um dia,
A par'cença com Deus te dá desgosto.
Aonde vamos nós?
Onde quizeres.
O grande mundo e o baixo visitamos.
Que prazer, que proveito de tal curso
Não has de tu tirar.
Mas esta barba
Faz tão grave e pesado o meu semblante,
Que da empreza sahir bem não espero:
Nunca me soube haver na sociedade;
Tão pequeno me acho entre os mais homens,
Que sempre hei de ser timido, acanhado.
Tudo isso ha de vir, meu charo amigo;
Confia em ti, e já viver tu sabes.
E como sahiremos, onde esperam
Carruagens, cavallos e creados?
Estender este manto é quanto basta;
Pelo ar nos transporta. Mas não tragas
Excessiva bagagem, em jornada
De tanto risco. Gazes inflammaveis,
Que já vou preparar, hão de da terra
Promptamente elevar-nos. Indo leves
Subiremos depressa. Ora recebe
Meus parabens por tua nova vida.