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PoetósferaLa BibliotecaMaria Adelaide Fernandes Prata

Maria Adelaide Fernandes Prata · Modernismo

Vozes do coração

portugués

Eu tive um filho só, nasceu formoso,

Era as minhas delicias, meu thesouro,

Ufana eu o estreitava entre meus braços,

Com orgulho ás amigas o mostrava,

Não o trocava a um reino, ao mundo inteiro!

Da terra nada mais ambicionava!

Apenas tinha um anno e o doce nome

De mãe balbuciar, ébria de goso

Então lhe ouvi, ficando indemnisada

Das fadigas que à mãe um filho custa

E qual lindo botão desabrochando,

Cada vez mais gentil o vi crescendo,

Divisando-lhe fino entendimento;

Mas ah! Mãe desditosa que tormentos

A sorte mais cruel te preparava!...

Que nuvem carregada a tua estrella

Veio eclipsar! N'um pélago de trevas

P'ra sempre tuas ditas sepultando!...

Que terrivel martyrio o cruel fádo

Nas horridas cavernas te ideava...

Um dia era de Julho, fatal dia!

E mal que despontava a aurora alegre,

Levantei-me deixando o tenro infante

Que junto a mim dormia, repousando

E no mister caseiro alguns instantes

Eu empreguei aos servos dando as ordens

E após, junto ao leito de meu filho

Cuidadosa volvi p'ra meus carinhos

Prestar-lhe ao despertar, vel-o sorrir-me;

Porém, qual foi meu 'spanto, o meu martyrio

Ao ver-lhe enfermidade estranha, horrivel!

E todo em contraçoes o debil corpo,

Já perdendo os sentidos, semi-morto!

Dos olhos vi sumir-se-lhe a retina

E a formosa boquinha a um lado posta!

Ora tomava a côr d'um moribundo

Outras vezes da rosa purpurina;

Da fronte lhe manavam vastas gottas

D'abundante suor frio, nocivo

Horas nove lhe dura o ataque infausto,

Sem que da medicina os vas recursos

Lhe podessem conter os soffrimentos!

E d'angustias cercada, eu delirante,

Loucas phrases soltei que o ceu irado

Por ellas me puniu; pois que prostrada,

Do filho meu a vida lhe pedia,

Que m'o restituisse mesmo a custo

De tormentos infindos, dôr. martyrios,

De noutes mal dormidas, de fadigas

Incessantes, com tanto elle vivesse;

E Deus que mais um anjo ambicionava

A vida lhe deixou p'ra meu castigo!...

Porque aos decretos seus, oasei oppôr-me!

Elle vive; ai de mim! Mas em que estado!

Jamais deixou o miserando infante

De ser por tal molestia perseguido,

Enfermidade horrivel, incuravel,

Ataques produzindo, uns, após outros

Que s'augmentou quando um lustro contava.

Do lado esquerdo, leso, eis elle fica

E pouco a pouco o tino foi perdendo

E de todo a memoria, logo a falla!

P'ra sempre emmudeceu! e o som suave

Da sua voz jamais ouvir-lhe pude!

Então da infeliz mãe perdendo a idéa,

Não mais a conheceu! Nem lhe sorriran

Seus labios nunca mais!.. E em vez d'afagos

Reppelle a mal fadada e a martyrisa!..

Diversas são agora as preces minhas,

Que me não sobreviva, a Deus só rogo; g

Porém, Deus nãome attende!..e eu soffro..soffro!..

E junto d'elle vou passando triste,

De meus annos a flor vejo murchar-se,

Sem ventura extinguir-se o sol da vida!..

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Por su autor
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Expediente

Autor
Maria Adelaide Fernandes Prata
Título
Vozes do coração
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-vozes-do-coracao--maria-adelaide-fernandes-pra-386762
Cita recomendada
Maria Adelaide Fernandes Prata, «Vozes do coração», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-vozes-do-coracao--maria-adelaide-fernandes-pra-386762.html

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