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Vicente de Carvalho · Vanguardias / s. XX

Rosa, rosa de amor (1902) — Manhã de sol

portugués

Na sombra do murtal, cujas flores a leve

Aragem, desgrinalda em turbilhões de neve,

Ella vagueia a sós... E como vai formosa!

Tem como uma frescura orvalhada de rosa

Na face... Em seu sorriso amanhece. E’ tão brando

O seu pisar, que o chão o acolhe suspirando.

— Eis o sol! — canta uma ave ao fitar-lhe a retina...

E por onde ella passa a sombra se illumina.

Descuidada e feliz, entre as arvores ella

Erra á toa. Sorrindo, as aves interpella.

Corre de flor em flor, salta de moita em moita.

Ora entre a ramaria o olhar travesso afoita

E tenta surprehender o segredo de um ninho;

Ora scisma, fitando o vago desalinho

Em que toda palpita, em que se entrega toda,

A folhagem que o vento acaricia... Em roda,

Em tudo, vê um ar festivo de noivado.

Cada flor abre ao sol o calice orvalhado,

Humido como um labio em que poisasse um beijo...

E o seu passo é subtil, e erra como um adejo.

Surprehendo-a. Ella estaca, assustada, indecisa;

Mal com os pesinhos nús o chão musgoso pisa

Num ar de jurity prestes a abrir o vôo.

Tomo-lhe as mãos; baixinho, ao seu ouvido, entôo

A atrevida canção do amor que tudo pede,

Do amor que não é mais do que um furor de sede,

Que é o amor afinal...

Toda a sua alma escuta,

Todo o seu corpo treme. Amante e irresoluta,

Quer ceder, e resiste; abraza; e não se atreve...

E de subito, como a corça arisca e leve

Que sente o caçador e ouve silvar a bala,

Ella das minhas mãos bruscamente resvala,

Salta, foge-me...

Em vão. Salto-lhe empós; não tomba

Mais faminto um abutre em cima de uma pomba.

Ella, sem rumo, vai e erra ao acaso, numa

Vaga trepidação, como ao vento uma pluma.

E o seu passo recorda o chão, que abaixa e alteia

Aqui um charco, adeante um cómoro de areia.

Aos poucos, a carreira afrouxa. Em cada passo

Mais e mais ella mostra a angustia do cansaço.

Arfa-lhe o seio; perde o folego; tropeça;

Pára...

Alcança-a meu beijo. O noivado começa.

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Expediente

Autor
Vicente de Carvalho
Título
Rosa, rosa de amor (1902) — Manhã de sol
Lengua
portugués
Época
Vanguardias / s. XX
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-rosa-rosa-de-amor-1902-manha-de-sol--vicente-de-carvalho-96f003
Cita recomendada
Vicente de Carvalho, «Rosa, rosa de amor (1902) — Manhã de sol», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-rosa-rosa-de-amor-1902-manha-de-sol--vicente-de-carvalho-96f003.html

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