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PoetósferaLa BibliotecaAgostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive

Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive · Modernismo

Prólogo no Teatro

portugués

Vós ambos, que me tendes tantas vezes

Em apertos e magoas soccorido,

Dizei-me, que futuro á nossa empreza

Agouraes n’estas terras d’Allemanha?

Desejos tenho de agradar ás massas,

Pois ellas vivem, e viver nos fazem.

O theatro está prompto, esperam todos

Uma festa gosar. Já estam a postos,

Bem abertos os olhos, desejosos

De maravilhas ver. Sei por que modo

O publico favor ganhar se logra,

Mas em tal embaraço nunca estive,

Não ’stam affeitos ao melhor, é certo,

Mas, por meu mal, tem lido immensamente.

Que havemos de fazer, p’ra que pareça

Bem novo tudo, de conceitos rico

E demais, agradavel? Porque quero

Que á nossa casa corra a turbamulta

Em torrente compacta, e com arrancos

Repetidos, profundos, se comprima

Junto á porta de entrada; que de dia,

Ainda antes das cinco se dispute,

Á força d’encontrões; um logarsinho

Ao pé do bilheteiro, e como em tempo

De fome à porta dos padeiros, quebre

O povo a cara p’ra alcançar bilhete.

Tal milagre entre gente tão diversa

Faz o poeta — Amigo, opera-o hoje.

Não me falles da turba variegada,

A cuja vista o espirito nos foge.

Esconde-me o tropel tumultuoso,

Que ao abysmo nos quer, máo grado nosso,

Violento arrastar. Tu me transporta

A placido asylo onde somente

Pode pura alegria achar o vate,

Onde o amor e a amisade inundam,

Com mão divina de ventura o peito.

Ai, o que surge então no fundo d’alma,

O que os labios à si murmuram timidos,

Mallogrado por vezes, outras bello,

Leva-o, devora-o rapido o momento.

Talvez que só depois de longos annos

Acabado e perfeito emfim pareça.

O que só brilho tem, dura um instante,

O verdadeiro bello ao porvir chega.

Não me tragam p’ra aqui tempos vindouros

Supponhamos que eu fallar quizesse

Dos vindouros tambem ; quem divertira

Nossos contemporaneos? Rir-se querem

E tem direito a rir-se. A mim, parece-me,

Que o presente, de um homem sempre deve

Ter alguma valia. Quem com graça

Se souber exprimir, não no irritam

Os caprichos do publico; deseja

Numeroso auditorio que mais prompto

Consiga commover. Eia pois, animo!

Mostrai-vos um primor; á phantasia

E seu brilhante sequito dai largas:

Paixões, razão, engenho e sentimento,

Em vossos cantos brilhem; mas cuidado,

Que nelles a loucura tambem entre.

E sobretudo sejam numerosos

Os lances; é p’ra ver que vem o publico,

E na vista acha o maximo deleite.

Se diante dos olhos se desdobra

Abundante espectaculo, que possa

Mirar a multidão boquiaberta,

Larga fama alcançaes, homem bemquisto

Do publico sereis. É só com massas

Que massas movereis. De toda a peça

Escolhe cada um, por fim, aquillo

Que mais lhe agrada. Quem off’rece muito

Pode a muitos um pouco dar, e todos

Se retiram a casa satisfeitos.

Dando uma peça, dai-a já pedaços,

Só com guizado tal fareis fortuna;

É facil de servir, mais facil ’inda

D’imaginar. De que vos serve um todo

Harmonico, perfeito? Fal-o em postas

O publico illustrado.

E vós não vedes

Como é vil tal mister, quam mal cabido

Em verdadeiro artista? Por modelos,

De certos poetastros os escriptos

Pretendeis inculcar?

Essa censura

Molestar-me não pode. Quem deseja

Devéras trabalhar, servir-se deve

Do melhor instrumento. Recordae-vos,

Que tendes de rachar madeira molle,

E para quem escreveis não vos esqueça.

Se fastio aborrido arrasta este,

D’opiparo banquete saciado

Aquelle chega; e, peor inda, muitos

Vem frescos da leitura das gazelas;

Distrahidos nos buscam como iriam

A qualquer mascarada. O que os attrahe

É só curiosidade. As lindas damas

Tambem sem serem pagas representam,

E ostentando galas em ’spectaculo

Ao publico s’offrecem. Da poesia

Lá nas alturas que sonhaes? Pois pode

A chusma d’um theatro compr’ender-vos?

Attento consid’rae os amadores;

Frios são ou grosseiros. ’Stá pensando

Este em jogar, depois de ouvida a peça;

Aquelle espera noite delirante

Nos braços d’uma moça. P’ra tal gente

Não deis ás musas tratos, pobres tolos!

Digo-vos eu, mettei cousas infindas

Na vossa obra, e mais e mais ainda,

Que não podeis assim do alvo ir longe.

Os homens confundir buscai somente

Pois contental-os custa. Oh lá! que é isso?

Enthusiasmo ou dor?

Busca outro escravo!

O seu direito summo deve o vate,

Direito de homem da natura havido,

Por tua causa violar ousado?

Por que meios commove os peitos todos?

Por que meios domina os elementos?

Não é pela harmonia que lhe mana

Do fundo d’alma, e o coração lhe liga

Ao immenso Universo? Quando solta

Descuidosa do fuso a natureza

O fio eterno e longo, quando a turba

Discorde sôa dos confusos seres,

Quem em partes harmonicas divide

Essa torrente e a compasso a move,

Infundindo-lhe vida? Quem consagra

Aos olhos do Universo o individuo,

E em grandiosos cantos o celebra?

A furia das paixões quem desenfrêa?

Quem accende na mente austera e grave

O fulgor do poente, quem desparge,

Da primavera as dadivas mimosas

Sobre as pégadas da adorada amante,

E d’umas folhas verdes sem valia

A c’roa tece ao merito subido?

Quem nos torna immortaes, nos une aos Deuses?

É a força do homem que sublime

Se revela no Vate.

Emprega ella

Esses subidos dotes, e dirige

Os assumptos poeticos qual corre

Aventura d’amor. Topam-se acaso,

Sentem, speram, e pouco e pouco involvem-se

Nos laços da paixão; cresce a delicia,

Tropeços surgem; eil-os abrazados

D’amor, mas sobrevem-lhes dor, pezares,

E sem por isso darem, compozeram

Um perfeito romance. Similhante

O vosso drama seja. Eia! talhai-o

Em plena vida humana! Os homens todos

A vivem, mas bem poucos a conhecem,

E se bem a pilhaes sois int’ressante.

Em variados quadros luz pequena,

De verdade um vislumbre entre mil erros,

Assim se faz o liquido que o mundo

Edifica e alegra. Então se apinha

Ante vossa comedia, dos mancebos

A mais brilhante flor, ouvindo attenta

Vossas revelações, e della sugam

Melancolico pasto as almas ternas.

Agora este se move, agora aquelle

E todos veem o que no peito escondem.

Inda podem mover-se a pranto ou riso,

Os arrojos do genio inda respeitam

E brilhante apparencia lhes agrada.

Já não ha contentar um homem feito,

Mas sempre vos é grato o adolescente.

Pois esse tempo restitue-me em que era

Adolescente eu mesmo, e caudalosa

Fonte perenne de canções manava

Sem cessar de meu peito; densa nevoa

O mundo m’involvia e maravilhas

Promettia o botão desabrochando,

Quando as flores innumeras colhia

Que nos valles frondosos vecejavam.

Opulento me cria; nada tendo

Mais que amor da verdade, e doce apego

Ás illusões da vida. Esses impulsos

Ardentes, livres, restitue-me agora;

Dá-me os deleites fundos e pungentes,

A força de odiar, de amar a força,

Oh torna-me de novo á mocidade!

A mocidade has tu mister, amigo,

S’inimigos na p’leja te acossarem,

Se donzellas gentis com doce força

Pendurar-se vierem do teu collo;

Se da carreira o premio que se ganha

A custo, acena da longiqua meta;

Quando depois de valsas doudejantes

Em orgia ruidosa as noites passam;

Mas com graça e vigor, vibrar da lyra

As sonorosas cordas, e um alvo,

Em que o fito pozestes, ir buscando

Por intrincadas, deleitosas sendas,

Eis vossa missão, velhos, que por isso

Menos não respeitamos. Não nos torna

Como é ditado, infantes a velhice;

Inda meras creanças vem achar-nos.

Já palavras de mais tendes trocado,

E ver emfim acções tambem desejo.

O tempo que gastaes em cumprimentos

Pode em cousa mais util empregar-se.

Fallar d’inspiração pouco approveita,

Nunca ao homem que teme ella apparece,

Se vos daes por poetas, que a poesia

A vosso mando ceda. O que é preciso

Já de mais o sabeis, licor bem forte

Desejamos beber; pois sem demora

Nol-o dae preparado. Não se cumpre

Amanhã o que hoje não for feito,

E nem um dia só perder se deve.

Um homem resoluto, do possivel

Lança mão com ardor, fugir não o deixa,

E na empreza prosegue, até findal-a.

Sabeis que cada um nos nossos palcos

Exp’rimenta o que quer; pois neste dia

Prospectos não poupeis nem machinismos.

Da lua e sol servi-vos, e aos centos

Espalhae as estrellas. Fogo e aguas,

Rochedos, bosques, passares não faltem.

Do bastidor no acanhado espaço,

A creação inteira se desdobre,

E caminhae, com rapidez medida,

Pela terra e o ceu ao fundo inferno.

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Expediente

Autor
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive
Título
Prólogo no Teatro
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-prologo-no-teatro--agostinho-de-ornelas-e-vasco-54a079
Cita recomendada
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive, «Prólogo no Teatro», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-prologo-no-teatro--agostinho-de-ornelas-e-vasco-54a079.html

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