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PoetósferaLa BibliotecaAgostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive

Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive · Modernismo

Prólogo no Céu

portugués

Sua antiga harmonia o sol unindo

D’irmans espheras ás rivaes canções,

A carreira prescripta vai seguindo

Com sonoro estampido de trovões.

Aos anjos fortalece o seu aspecto,

Embora concebel-o ninguem possa;

Como é grande, Senhor, inexcrutavel

Qual no dia primeiro a obra vossa!

E rapida, e tão rapida que espanta

Em toda a sua pompa gira a terra;

Do paraiso a luz alterna santa,

Com densa noite que de escura atterra;

Rebenta o mar em vagas espumantes

Ao pé das rochas com bramir profundo,

E rochedos e mar são arrastados

Na carreira veloz que arrasta o mundo.

E tempestades voam furiosas

Do mar ás terras e da terra aos mares,

Uma corrente formam poderosas

Que té o fundo penetra o solo e os ares;

Pelo trilho do raio chammejante,

A lavareda brilha assoladora,

Mas teus servos, Senhor, fieis adoram

De tua luz a marcha creadora.

Aos anjos fortalece o vasto aspecto,

Embora conceber-vos ninguem possa,

Como é grande, Senhor, inexcrutavel

Qual no dia primeiro a obra vossa.

Pois que, Senhor, de novo te approximas

E como vão no mundo me perguntas

As cousas, tu que sempre com agrado

Me recebeste; aqui me tens agora

No meio de teus famulos. Perdoa,

Não sei usar de phrase altisonante,

Embora de mim zombe est’assembléa.

Minha emphase ao riso te movera

Se do riso não foras desaffeito.

Do sol fallar não sei nem das espheras

Vejo só como os homens se affadigam.

O Deusinho do mundo é sempre o mesmo

E tão extravagante como era

Em seu primeiro dia. Mais ditoso

Vivera, se da luz celeste um raio

Lhe não houvesses dado. Denomina-o

Razão e só lhe serve de tornar-se

Mais que os brutos brutal. Acho que imita,

Dê-me licença vossa senhoria,

As inquietas, garrulas cigarras

Que saltam, pulam, esvoaçam, correm

E de novo repetem lá na relva

Seu antigo gritar. Se nella ao menos

Socegado ficasse! Não ha lixo

Em que o nariz não metta.

Que contar-me

Outra lôa não tens? Sempre queixumes!

Nunca ha de na terra existir cousa

Que contentar-te possa ?

Senhor, nunca.

Máo deveras é tudo como sempre;

Em seus dias de dor causam-me os homens

Tal pena que nem posso atormental-os.

Fausto conheces?

O Doutor?

Meu servo.

Maneira singular tem de servir-vos,

Por minha fé. Não é terreno o pasto

Desse insensato; impelle-o á immensidade

Agitação secreta, e consciencia

Tem de sua loucura. Aos ceus inveja

As mais bellas estrellas, e da terra

Os gosos summos alcançar cubiça,

E quanto perto tem, quanto affastado,

O inquieto peito não lhe acalma.

Se no erro involvido inda me serve,

Hei de prestes guial-o á claridade.

Quando ao nascer a arvore verdeja,

Conhece o hortelão que flor e fructo

Em seus annos futuros ha de dar-lhe.

E quanto apostais vós qu’inda se perde,

Se licença me derdes de leval-o

Suavemente pelo meu caminho?

Em quanto elle viver vida terrena

Não te é prohibido exp’rimental-o.

Está sujeito a errar emquanto lucta

O homem.

Agradeço-vos, pois nunca

Soube haver-me com mortos. O meu gosto

São rubicundas e sadias faces,

Cadaveres não quero; faço o mesmo

Que o gato com o rato.

Eu t’o entrego!

Esse espirito arreda da primeira

Origem sua e se vencel-o podes,

A tua senda tortuosa o guia;

Mas de pejo te cobre se te é força

Confessar que lidando em treva escura,

Sente o homem honrado o bom caminho.

Ora bem! Muito tempo não preciso,

Desta aposta que fiz nada receio.

Se meu intento logro, tu permitte

Que cante em altas vozes o triumpho.

Qual a famosa serpe, minha tia,

Ha de comer com gosto o pó da terra.

Poderás nisso andar a teu talante;

Nunca a teus similhantes odio tive.

De todos os espiritos que negam

O velhaco me é menos pesado.

Affrouxa o homem prompto a actividade

E em molle indolencia se deleita,

Porisso companheiro dar-lhe folgo

Que o excite e punja, e tome parte

Da creação na obra, como démo.

Mas vós de Deus a verdadeira prole

Da belleza gosae fecunda e viva!

D’amor nos doces laços vos involva

A substancia que eterna vive e obra,

Fixae com pensamentos perduraveis

O que fluctua em vagas apparencias.

Lá de tempos a tempos me divirto

Com visitar o velho e tomo tento

Em não romper com elle. É mui bonito

Da parte de senhor tão poderoso

C’o diabo fallar humanamente.

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Expediente

Autor
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive
Título
Prólogo no Céu
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-prologo-no-ceu--agostinho-de-ornelas-e-vasco-393a5f
Cita recomendada
Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura e Teive, «Prólogo no Céu», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-prologo-no-ceu--agostinho-de-ornelas-e-vasco-393a5f.html

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