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Álvares de Azevedo · Romanticismo

Pedro Ivo (Álvares de Azevedo)

portugués

Perdoai-lhe, Senhor! elle era um bravo!

Fazia as faces descorar do escravo

Quando ao sol da batalha a fronte erguia,

E o corsel gottejante de suor

Entre sangue e cadaveres corria!

O genio das pelejas parecia...

Perdoai-lhe, Senhor!

Onde mais vivo em peito mais valente

N′um coração mais livre o sangue ardente

Ao fervor desta America bulhava?

Era um leão sangrento que rugia:

Da guerra nos clarins se embriagava —

E vossa gente — pallida recuava —

Quando elle apparecia!

Era filho do povo — o sangue ardente

Ás faces lhe assomava incandescente,

Quando scismava do Brasil na sina...

Hontem — era o estrangeiro que zombava,

Amanhã — era a lamina assassina,

No cadafalso a vil carnificina

Que em sangue jubilava!

Era medonho o rubro pesadello!

Mas nas frontes venaes do genio o sello

Gravaria o anathema da historia!

Dos filhos da nação a rubra espada

No sangue impuro da facção ingloria

Lavaria dos livres na victoria

A mancha profanada!

A fronte envolta em folhas de loureiro

Não a escondemos, não!... Era um guerreiro!

Despio por uma idéa a sua espada!

Alma cheia de fogo e mocidade,

Que ante a furia dos reis nào se acobarda,

Sonhava nesta geração bastarda

Glorias.. e liberdade!

Tinha sêde de vida e de futuro;

Da liberdade ao sol curvou-se puro

E beijou-lhe a bandeira sublimada:

Amou-a como a Deos, e mais que a vida!

Perdão para essa fronte laureada!

Não lanceis á matilha ensanguentada

A águia nunca vencida!

Perdoai-lhe, Senhor! Quando na historia

Vèdes os reis se coroar de gloria,

Não é quando no sangue os thronos lavão

E envoltos no seu manto prostituto

Olvidão-se das glorias que sonhavão!

Para esses — maldição! que o leito cavão

Em lodaçal corrupto!

Nem sangue de Ratchffs o fogo apaga

Que as frontes populares embriaga,

Nem do heróe a cabeça decepada

Immunda, envolta em pó, no chão da praça,

Contrahida, amarella, ensanguentada,

Assusta a multidão que ardente brada

E thronos despedaça!

O cadaver sem bençãos, insepulto,

Lançado aos corvos do hervaçal inculto,

A fronte varonil do fuzilado,

Ao somno imperial co′os labios frios

Podem passar no escarneo desbotado,

Ensanguentar-te a seda ao cortinado

E rir-te aos calafrios!

Não escuteis essa facção impia

Que vos repete a sua rebeldia...

Como o verme no chão da tumba escura

Convulsa-se da treva no mysterio:

Como o vento do inferno em agua impura,

Com a bocca maldita vos murmura:

«Morra! salvai o imperio!»

Sim, o imperio salvai; mas não com sangue!

Vède — a patria debruça o peito exangue

Onde essa turba corvejou, cevou-se!

Nas glorias, no passado elles cuspírão!

Vède — a patria ao Bretão ajoelhou-se,

Beijou-lhe os pés, no lodo mergulhou-se!

Elles a prostituírão!

Malditos! do presente na ruma

Como torpe, despida Messalina,

Aos apertos infames do estrangeiro

Traficão dessa mài que os embalou!

Almas descridas do sonhar primeiro

Venderião o beijo derradeiro

Da virgem que os amou!

Perdoai-lhe, Senhor! nunca vencido,

Se em ferros o lançárão foi trahido!

Como o Arabe além no seu deserto,

Como o cervo no páramo das relvas,

Ninguem os trilhos lhe seguira ao perto

No murmurio das selvas!

Perdão! por vosso pai! que era valente,

Que se batia ao sol co′a face ardente,

Rei — e bravo tambem! e cavalleiro!

Que da espada na guerra a luz sabia

E ao troar dos canhões entumescia

O peito de guerreiro!

Perdão, por vossa mãi! por vossa gloria!

Pelo vosso porvir e nossa historia!

Não mancheis vossos louros do futuro!

Nem lisongeiro incenso a nodoa exime!

— Lava-se o polluir de um leito impuro,

Lava-se a pallidez do vicio escuro;

Mas não lava-se um crime!

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Expediente

Autor
Álvares de Azevedo
Título
Pedro Ivo (Álvares de Azevedo)
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-pedro-ivo-alvares-de-azevedo--alvares-de-azevedo-b52ff6
Cita recomendada
Álvares de Azevedo, «Pedro Ivo (Álvares de Azevedo)», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-pedro-ivo-alvares-de-azevedo--alvares-de-azevedo-b52ff6.html

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