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Álvares de Azevedo · Romanticismo

O Conde Lopo — Frontispício

portugués

There is something wich I dread

It is a dark, a fearful thing

……………

……………

That thought comes o'er me in the hour

Of grief, of sikness, of sadness

'Tis not the dread of deathl 'tis more.

— It is the dread of madness.

Lucretia Davidson

Foi poeta: cantou, e o estro em fogo

Crestou-lhe o peito, devorou seus dias

E a febre ardente desbotou-lhe a fronte

Em dores sós, em delirar insano.

Foi poeta : cantou, sonhou : a vida

Canto e sonhos lhe foi. Amor e gloria

Com azas brancas viu sorrindo em vôos.

Foi-lhe vida sonhar: e ardentes sonhos

A fronte lhe accenderão, lhe estrellarão

Mágico da existencia o firmamento.

Cantou, sonhou — amou : cantos e sonhos

Em amor converteu-os. De joelhos

Em fundo enlevo elle esperou baixasse

Alguma luz do céo, que amor dicesse —

Anjo ou mulher! embora que elle a amara

Co'fogo queimador que o consumia

Com o amor de poeta que o matava!

Anjo ou mulher — embora! e em longas preces

Noite e dia o esperou — Misero! embalde.

Sonhou — amou — cantou: em loucos versos

Evaporou a vida absorta em sonhos —

E debalde! ninguém chorou-lhe os prantos

Que sobre as mortas illusões já findas

Pallido derramára —

Amou ! E um peito

Junto ao seu não ouviu bater consoante

C'os amores do seu ! Ninguém amou-o

E nem as magoas lhe affogou num beijo ! —

E morreu sem amor ! Bateu-lhe embalde

O pobre coração em loucas ancias.

Passou ignoto, solitario e triste

Entre os anjos do amor, só viu-lhes rizos

Em braços d'outros — e invejosa magoa

Essa alheia ventura só lhe trouxe.

Nunca a mão delle de uma fronte branca

A alva coroa fez cahir da virgem —

Jovem, solteiro, sem consórcio d'alma

Entre as rozas da vida — mas nenhuma

Nem deu-lhe um rizo — nem do moço pallido

No imo d'alma guardou uma saudade!

Mas se á terra saudades não deixara

Não levou-as também — do peito o orgulho

Que ninguém quiz amar, ninguém amou.

— Foi-lhe chimera o amor, não mais lembrou-o,

Tentou-o ao menos. — E que importa um morto ? —

Doido é quem geme em lagrimar estéril —

Quando o luto findou e alegre o baile

Corre entre flores no valsar, quem lembra

O defunto que é podre no jazigo ?...

— Morrera-lhe o sonhar — porque choral-o ?

E morreu sem amor ! E elle comtudo

Tinha no peito tanto amor e vida !

Alma de sonhos, tão ardentes, cheia !

E anhellante do amor do peito — em outro

Em horas ternas effundir em beijos !

E ás vezes quando a fronte pela febre

Pezada e quente sobre as mãos firmava,

Quando esse delirar febril da insomnia

Em vertigens travava de sua alma,

Um negro pensamento lhe passava

Como um fuzil no cérebro fervente.

E pensava dos loucos no delírio,

Na escura treva da vertigem tonta;

Temia — a morte não — mais — a loucura.

Oh ! livra-se o Senhor que apoz das magoas

Que o seio lhe hão crestado em agonias

D a doudice viesse a nevoa escura

Mergulhar-lhe o espirito ! —

Antes, antes

D a agonia mortal o torpor gélido !

Antes a morte fria — o cemitério

E r m o e isolado, com seu chão de lousas,

Antes o somno do humido jazigo...

……………

Meu Deus ! e apoz de tanto sofifrimento,

De tantas baldas lagrimas vertidas,

D e tanto fel bebido em taça amarga,

D e plebe estulta no hospital ser inda

Triste ludibrio de insolente escarneo !

Foi poeta — cantou — sonhou. — Mas hoje

Era-lhe morta a inspiração no peito,

Fugira a poesia, a insomnia sua

Secca das lagrimas a esponja nelle. —

II

O poeta enlouqueceu — A alma sublime

Perdera o sizo — Como uma águia em trevas

— Tropeçava e cahia — Pobre moço !

Foi-lhe palácio o hospital, a esse

Cuja fronte era um throno á poesia !

III

Eil-o nas palhas do seu duro leito,

Livido e frio co'um sorrjzo idiota

A arregaçar-lhe o resequido lábio,

Desvairado o olhar — de olheiras roxas —

Com empanada luz no fundo escuro,

E entre o sorrir dos lábios lhe parava

Nas seccas faces derradeira lagrima.

Hirsutas as melenas, negras, ásperas

Cahião-lhe na fronte. — O movimento

Abrira-lhe a camisa. Ao magro peito

Os ossos se contavão a mostrarem

Dos cáusticos ainda as queimaduras.

Velava um guarda junto delle como

De brava fera na gaiola aos pulos

A rugir, movimentos se vigiam.

IV

Extenuado das lutas arquejava

Esse fantasma de homem sobre o leito.

Súbito estremeceu, ficou mais alvo

Inteiriçado se estendeu convulso.

Mas breve foi-lhe a convulsão; quebrado

Um afnicto soluço na garganta

Lhe rouquejou — o derradeiro — e o frio

Da noite extrema endureceu-lhe os membros.

V

Veio depois da caridosa casa

Algum homem talvez — Pol'o nos hombros

E em mal cavada cova donde os ossos,

Desenterrados do primeiro dono

Desse leito de lodo o chão juncavão,

Atirarão-lhe o corpo brutalmente,

Das cavernas do peito lhe estallando

Os calcinados ossos — uns punhados

D e terra apodrecida — obra mui pia,

Lar de misericórdia certo é esse

Onde tal se pratica. — A eterna benção

D e inteiras gerações no andar dos séculos

Desça sobre esses bemfazejos tectos!...

VI

Por sobre as palhas do colchão do louco

Achou-se um livro. — Mal escriptas lettras,

Ninguém soube entender — Então eu vi-o,

Levado apenas de curioso instincto

Livrei-o á destruição. — Chegando á casa

Abri-o e puz-me a decifrar-lhe o escripto.

Era um grosso caderno. As toscas linhas

Erão versos. — Nem titulo escrevera

Na frente ao livro seu cantor ignoto. —

Nem seu nome sequer ! — Muita leitura

Mostravão nodoas que imprimirão nelle

As mãos sujas do louco. — A lettra ás vezes

Embranquecida descorarão gottas

De copiosas lagrimas. O morto

Talvez gravasse ahi idéas caras

Do passado da vida ! Fosse embora

Qual a razão — as lagrimas cahidas

Nas folhas do papel vi-as no livro.

VII

Foi-me insana tarefa o decifral-as

As mal escriptas linhas. — Parecia

Que se esmerara por fazer difficil

Sua leitura o author. — Algumas vezes

Substitui versos meus a linhas delle

Que eu não soubera traduzir. — Comtudo,

Por querel-o não fiz — e a muitas outras

Embora achasse mal torneado o verso

E solto o estylo em liberdade extrema,

Não quiz levar-lhes minha mão profana

Dos sonhos delle ás expressões selvagens

De inspiração febril. Puz-lhe igual titulo —

Do Conde Lopo o nome : o heróe do canto

O confessava o trovador anonymo.

VIII

Não maldigão o fel dos cantos delle !

Foi um Tasso sem risos de Leonora !

E pois descreu — e pois maldisse tudo

No catre do hospital, na luz escassa —

A vida e os sonhos e esperanças bellas !

Co'a negra dôr sympathisei do louco,

Com seu cantar de coração dorido,

E amei-lhe essa altivez d'alma quebrada

Que lhe resumbra no poetar amargo.

Mes vers sont le tombeau tout brodé de sculptures,

Ils cachent un cadavre sons leurs fioritures,

Ils pleurent bien souvent en paraissant chanter.

Theoph. Gauthier.

I

Do campo santo onde o lethargo dormem

Fundo e sem fim os que viventes forão,

No silencio das sombras — estendida

Jaz muita lousa ennegrecida e humida,

Por cujas, fisgas escorrega o musgo

E a cicuta das ruinas.

II

O peregrino vagador dos ermos,

Entre essas todas nunca viste, mudo,

Sem lettra em cima, sem sequer madeiro

De simples cruz que te dissesse o dia

Em que a morte levou esse que hi dorme,

Coberta do hervaçal tosco lagedo ?

III

Repousa aqui muita illusão desfeita,

Muita áurea nuvem arrarada em chuva

E muita flor pulverisada em cinza.

Como outros d'homens são — de sonhos d'alma

De lembranças da vida, é este um túmulo.

IV

E como a lage que a indiscretas vistas

Guarda o segredo seu em tréva espessa,

Que não ha vel-o — Como as pedras negras

Onde calou seu erguedor um nome

P'ra que o mysterio seu não venhão lel-o

Na pagina de pedra do sepulcro,

Quando na solidão das horas mortas

Virem-n'o erguer-se desse chão hervoso

Com olhos cegos do inundar das lagrimas;

Assim meu livro deixal-o-hei sem firma.

Leião-n'o embora curiosas vistas

Que estudão o sofirer com almas frias !

Vejão a autópsia d'agonia funda

Que o peito me lavrou. — Emquanto ao nome

Do padecente, para que sabel-o ?

V

E só eu poderei nas ermas horas

Molhar-lhe em pranto as paginas — bem como

Ao cadáver que róe a cal no fosso

O único sabedor da historia delle.

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Autor
Álvares de Azevedo
Título
O Conde Lopo — Frontispício
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-o-conde-lopo-frontispicio--alvares-de-azevedo-2ab668
Cita recomendada
Álvares de Azevedo, «O Conde Lopo — Frontispício», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-o-conde-lopo-frontispicio--alvares-de-azevedo-2ab668.html

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