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Basílio da Gama · Ilustración

O Uraguay — IV

portugués

Salvas as tropas do noturno incêndio,

Aos povos ſe avizinha o grande Andrade,

Depois de afugentar os índios fortes

Que a ſubida dos montes defendiam,

E rotos muitas vezes e eſpalhados

Os tapes cavaleiros, que arremeſſam

Duas cauſas de morte em uma lança

E em largo giro todo o campo eſcrevem.

Que negue agora a pérfida calúnia

Que ſe enſinava aos bárbaros gentios

A diſciplina militar, e negue

Que mãos traidoras a diſtantes povos

Por áſperos deſertos conduziam

O pó ſulfúreo, e as ſibilantes balas

E o bronze, que rugia nos ſeus muros.

Tu que viſte e piſaſte, ó Blaſco inſigne,

Todo aquele país, tu ſó pudeſte,

Co’a mão que dirigia o ataque horrendo

E aplanava os caminhos à vitória,

Deſcrever ao teu rei o ſítio e as armas,

E os ódios, e o furor, e a incrível guerra.

Piſarão finalmente os altos riſcos

De eſcalvada montanha, que os infernos

Co’o peſo oprime e a teſta altiva eſconde

Na região que não perturba o vento.

Qual vê quem foge à terra pouco a pouco

Ir creſcendo o horizonte, que ſe encurva,

Até que com os céus o mar confina,

Nem tem à viſta mais que o ar e as ondas:

Aſſim quem olha do eſcarpado cume

Não vê mais do que o céu, que o mais lhe encobre

A tarda e fria névoa, eſcura e denſa.

Mas quando o Sol de lá do eterno e fixo

Purpúreo encoſto de dourado aſſento,

Co’a criadora mão deſfaz e corre

O véu cinzento de ondeadas nuvens,

Que alegre cena para os olhos! Podem

Daquela altura, por eſpaço imenſo,

Ver as longas campinas retalhadas

De trêmulos ribeiros, claras fontes

E lagos criſtalinos, onde molha

As leves aſas o laſcivo vento.

Engraçados outeiros, fundos vales

E arvoredos copados e confuſos,

Verde teatro, onde ſe admira quanto

Produziu a ſupérflua Natureza.

A terra ſofredora de cultura

Moſtra o raſgado ſeio; e as várias plantas,

Dando as mãos entre ſi, tecem compridas

Ruas, por onde a viſta ſaudoſa

Se eſtende e perde. O vagaroſo gado

Mal ſe move no campo, e ſe diviſam

Por entre as ſombras da verdura, ao longe,

As caſas branquejando e os altos templos.

Ajuntavam-ſe os índios entretanto

No lugar mais vizinho, onde o bom padre

O bom padre. Balda.

Queria dar Lindóia por eſpoſa

Ao ſeu Baldetta, e ſegurar-lhe o poſto

E a régia autoridade de Cacambo.

Eſtão patentes as douradas portas

Do grande templo, e na vizinha praça

Se vão diſpondo de uma e de outra banda

As viſtoſas eſquadras diferentes.

Co’a chata frente de urucu tingida,

Vinha o índio Cobé diſforme e feio,

Que ſuſtenta nas mãos peſada maça,

Com que abate no campo os inimigos

Como abate a ſeara o rijo vento.

Traz conſigo os ſalvages da montanha,

Que comem os ſeus mortos; nem conſentem

Que jamais lhes eſconda a dura terra

No ſeu avaro ſeio o frio corpo

Do doce pai, ou ſuſpirado amigo.

Foi o ſegundo, que de ſi fez moſtra,

O mancebo Pindó, que ſucedera

A Sepé no lugar: inda em memória

Do não vingado irmão, que tanto amava,

Leva negros penachos na cabeça.

São vermelhas as outras penas todas,

Cor que Sepé uſara ſempre em guerra.

Vão com eles os ſeus tapes, que ſe afrontam

É que têm por injúria morrer velhos.

Segue-ſe Caitutu, de régio ſangue

E de Lindóia irmão. Não muito fortes

São os que ele conduz; mas ſão tão deſtros

No exercício da frecha que arrebatam

Ao verde papagaio o curvo bico,

Voando pelo ar. Nem dos ſeus tiros

O peixe prateado eſtá ſeguro

No fundo do ribeiro. Vinhão logo

Alegres guaranis de amável geſto.

Eſta foi de Cacambo a eſquadra antiga.

Penas da cor do céu trazem veſtidas,

Com cintas amarelas: e Baldetta

Deſvanecido a bela eſquadra ordena

No ſeu Jardim: até o meio a lança

Pintada de vermelho, e a teſta e o corpo

Todo coberto de amarelas plumas.

Pendente a rica eſpada de Cacambo,

E pelos peitos ao través lançada

Por cima do ombro eſquerdo a verde faixa

De donde ao lado opoſto a aljava deſce.

Num cavalo da cor da noite eſcura

Entrou na grande praça derradeiro

Tatu-Guaçu feroz, e vem guiando

Tropel confuſo de cavaleria,

Que combate deſordenadamente.

Trazem lanças nas mãos, e lhes defendem

Peles de monſtros os ſeguros peitos.

Revia-ſe em Baldetta o ſanto padre;

E fazendo profunda reverência,

Fora da grande porta, recebia

O eſperado Tedeu ativo e pronto,

A quem acompanhava vagaroſo

Com as chaves no cinto o Irmão Patuſca,

De peſada, enormíſſima barriga.

Jamais a eſte o ſom da dura guerra

Tinha tirado as horas do deſcanſo.

De indulgente moral e brando peito,

Que penetrado da fraqueza humana

Sofre em paz as delícias deſta vida,

Tais e quais no-las dão. Goſta das couſas

Porque goſta, e contenta-ſe do efeito

E nem ſabe nem quer ſaber as cauſas.

Ainda que talvez, em falta de outro,

Com groſſeiras ações o povo exorte,

Gritando ſempre, e ſempre repetindo,

Que do bom Pai Adão a triſte raça

Por degraus degenera, e que eſte mundo

Piorando envelhece. Não faltava,

Para ſe dar princípio à eſtranha feſta,

Mais que Lindóia. Há muito lhe preparão

Todas de brancas penas reveſtidas

Feſtões de flores as gentis donzelas.

Canſados de eſperar, ao ſeu retiro

Vão muitos impacientes a buſcá-la.

Eſtes de creſpa Tanajura aprendem

Que entrara no jardim triſte e choroſa,

Sem conſentir que alguém a acompanhaſſe.

Um frio ſuſto corre pelas veias

De Caitutu, que deixa os ſeus no campo;

E a irmã por entre as ſombras do arvoredo

Buſca co’a viſta, e teme de encontrá-la.

Entrão enfim na mais remota e interna

Parte de antigo boſque, eſcuro e negro,

Onde ao pé de uma lapa cavernoſa

Cobre uma rouca fonte, que murmura,

Curva latada de jaſmins e roſas.

Eſte lugar delicioſo e triſte,

Canſada de viver, tinha eſcolhido

Para morrer a míſera Lindóia.

Lá reclinada, como que dormia,

Na branda relva e nas mimoſas flores,

Tinha a face na mão, e a mão no tronco

De um fúnebre cipreſte, que eſpalhava

Melancólica ſombra. Mais de perto

Deſcobrem que ſe enrola no ſeu corpo

Verde ſerpente, e lhe paſſeia, e cinge

Peſcoço e braços, e lhe lambe o ſeio.

Fogem de a ver aſſim, ſobreſſaltados,

E parão cheios de temor ao longe;

E nem ſe atrevem a chamá-la, e temem

Que deſperte aſſuſtada, e irrite o monſtro,

E fuja, e apreſſe no fugir a morte.

Porém o deſtro Caitutu, que treme

Do perigo da irmã, ſem mais demora

Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes

Soltar o tiro, e vacilou três vezes

Entre a ira e o temor. Enfim ſacode

O arco e faz voar a aguda ſeta,

Que toca o peito de Lindóia, e fere

A ſerpente na teſta, e a boca e os dentes

Deixou cravados no vizinho tronco.

Açouta o campo co’a ligeira cauda

O irado monſtro, e em tortuoſos giros

Se enroſca no cipreſte, e verte envolto

Em negro ſangue o lívido veneno.

Leva nos braços a infeliz Lindóia

O deſgraçado irmão, que ao deſpertá-la

Conhece, com que dor! no frio roſto

Os ſinais do veneno, e vê ferido

Pelo dente ſutil o brando peito.

Os olhos, em que Amor reinava, um dia,

Cheios de morte; e muda aquela língua

Que ao ſurdo vento e aos ecos tantas vezes

Contou a larga hiſtória de ſeus males.

Nos olhos Caitutu não ſofre o pranto,

E rompe em profundíſſimos ſuſpiros,

Lendo na teſta da fronteira gruta

De ſua mão já trêmula gravado

O alheio crime e a voluntária morte.

E por todas as partes repetido

O ſuſpirado nome de Cacambo.

Inda conſerva o pálido ſemblante

Um não ſei quê de magoado e triſte,

Que os corações mais duros enternece

Tanto era bela no ſeu roſto a morte!

Indiferente admira o caſo acerbo

Da eſtranha novidade ali trazido

O duro Balda; e os índios, que ſe achavam,

Corre co’a viſta e os ânimos obſerva.

Quando pode o temor! Secou-ſe a um tempo

Em mais de um roſto o pranto; e em mais de um peito

Morrerão ſufocados os ſuſpiros.

Ficou deſamparada na eſpeſſura,

E expoſta às feras e às famintas aves,

Sem que alguém ſe atreveſſe a honrar ſeu corpo

De poucas flores e piedoſa terra.

Faſtoſa egípcia, que o maior triunfo

Temeſte honrar do vencedor Latino,

Se deſceſte inda livre ao eſcuro reino

Foi vaidoſa talvez da imaginada

Bárbara pompa do real ſepulcro.

Amável indiana, eu te prometo

Que em breve a iníqua pátria envolta em chamas

Te ſirva de urna, e que miſture e leve

A tua e a ſua cinza o irado vento.

Confuſamente murmurava entanto

Do caſo atroz a laſtimada gente.

Dizem que Tanajura lhes pintara

Suave aquele gênero de morte,

E talvez lhe moſtraſſe o ſítio e os meios.

Balda, que há muito eſpera o tempo e o modo

De alta vingança, e encobre a dor no peito,

Excita os povos a exemplar caſtigo

Na deſgraçada velha. Alegre em roda

Se ajunta a petulante mocidade

Co’as armas que o acaſo lhe oferece.

Mas neſte tempo um índio pelas ruas

Com geſto eſpavorido vem gritando,

Soltos e arrepiados os cabelos:

Fugi, fugi da mal ſegura terra,

Que eſtão já ſobre nós os inimigos.

Eu meſmo os vi, que deſcem do alto monte,

E vêm cobrindo os campos; e ſe ainda

Vivo chego a trazer-vos a notícia,

Aos meus ligeiros pés a vida eu devo.

Debalde nos expomos neſte ſítio,

Diz o ativo Tedeu: melhor conſelho

É ajuntar as tropas no outro povo:

Perca-ſe o mais, ſalvemos a cabeça.

Embora ſeja aſſim: faça-ſe em tudo

A vontade do céu; mas entretanto

Vejão os contumazes inimigos

Que não têm que eſperar de nós deſpojos,

Falte-lhe a melhor parte ao ſeu triunfo.

Aſſim diſcorre Balda; e entanto ordena

Que todas as eſquadras ſe retirem,

Dando as caſas primeiro ao fogo, e o templo.

Parte, deixando atada a triſte velha

Dentro de uma choupana, e vingativo

Quis que por ela começaſſe o incêndio.

Ouviam-ſe de longe os altos gritos

Da miſerável Tanajura. Aos ares

Vão globos eſpeſſíſſimos de fumo,

Que deixa enſangüentada a luz do dia.

Com as groſſas camáldulas à porta,

Devoto e penitente os eſperava

O Irmão Patuſca, que ao rumor primeiro

Tinha ſido o mais pronto a pôr-ſe em ſalvo

E a deſertar da perigoſa terra.

Por mais que o noſſo General ſe apreſſe,

Não acha mais que as cinzas inda quentes

E um deſerto onde há pouco era a cidade.

Tinhão ardido as míſeras choupanas

Dos pobres índios, e no chão caídos

Fumegavão os nobres edifícios,

Delicioſa habitação dos padres.

Entrão no grande templo e vêem por terra

As imagens ſagradas. O áureo trono,

O trono em que ſe adora um Deus imenſo

Que o ſofre, e não caſtiga os temerários,

Em pedaços no chão. Voltava os olhos

Turbado o General: aquela viſta

Lhe encheu o peito de ira, e os olhos de água.

Em roda os ſeus fortíſſimos guerreiros

Admirão , eſpalhados, a grandeza

Do rico templo e os deſmedidos arcos,

As baſes das firmíſſimas colunas

E os vultos animados, que reſpirão

Na abóbeda o artífice famoſo

Pintara... mas que intento! as roucas vozes

Seguir não podem do pincel os raſgos.

Gênio da inculta América, que inſpiras

A meu peito o furor que me tranſporta,

Tu me levanta nas ſeguras aſas.

Serás em paga ouvido no meu canto.

E te prometto que pendente hum dia

Adorne a minha lyra os teus altares.

Fim do Canto Quarto

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Expediente

Autor
Basílio da Gama
Título
O Uraguay — IV
Lengua
portugués
Época
Ilustración
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-o-uraguay-iv--basilio-da-gama-d4b40a
Cita recomendada
Basílio da Gama, «O Uraguay — IV», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-o-uraguay-iv--basilio-da-gama-d4b40a.html

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