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Aureliano Lessa · Romanticismo

O Poeta agonisante

portugués

Da minha vida os derradeiros élos

Um por um se desprendem denegridos

Sôbre a urna do tempo; está minh’alma

Como um rochedo colossal pesando

Dentro em minha cabeça oppressa e curva,

E o batel de meus dias, arrojado

Aos tufões da desgraça, irá sedento

Beijar as praias da celeste patria…

Oh! já o sôpro gélido da morte

Minh’alma impelle a regiões ignotas,

Emquanto o coração bate mais lento

E pelos membros o torpôr passeia…

Adeus, ó meus amigos, uma lágrima

Na dextra fria do espirante Bardo,

Que só roçou nas illusões da vida,

Nas mentirosas vestes que rebuçam

A estatua immovel, negra, do infortunio!

Sôbre os meus olhos erram mil phantasmas

Sem côr, sem fórma; e no confuso espirito

Pousam e fogem, trépidos cardumes

De sonoras idéas, como enxames

De abelhas sobre flôr languida e sêcca.

Adeus, inda uma vez! que já no occaso

Meu sol vacilla, e o véo da noite baixa

Sôbre o perdido viajôr da terra;

Convém deitar-me ao lado do caminho,

A’ sombra do cypreste, e sem alentos

Dormir no esquecimento o somno eterno…

Entre a risonha multidão dos vivos,

Estrangeiro sem nome hei caminhado,

Triste exhalando em suspirosos cantos

Uma por uma as dôres, que em meu peito

Renasciam crueis… Oh! a desgraça

Seguiu-me a passo como a sombra ao corpo,

E no meu coração vibora interna

Matou-lhe as emoções, quebrou-lhe as fibras.

Desde o berço da infancia sobraçado

Co’a minha harpa infeliz, arrasto a vida

Pelo valle das dôres, onde inscripto

Encontrei meu lugar por entre tumulos…

Vêde! meus fracos pés ensanguentaram

As negras pedras da espinhosa estrada;

E nas azas do Zephyro partidas

Nunca mais soarão minhas endêchas!

Hoje na lage dos sepulchros venho

Quebrar esta chrysalida de argilla,

Que á hospede celeste os vôos tolhe,

E como ao lume a improvida pyrausta

Bater as azas para o sol da vida.

Foi triste o fado! meu Por entre os raros

E fugitivos sonhos que adejaram

Ao turvo céo de minha juventude,

Sempre, sempre surgiu a escura imagem

D’alguma dôr atroz, e á seu aspecto

Meus bellos sonhos timidos fugiam,

Bem como do rosal fogem as pombas

Ao chegar do milafre. Oh! lastimai-me!

Na sequiosa taça de meus dias

Foram caindo as horas inflammadas

Como fogo do céo na sarça adusta.

Cantei para olvidar o interno incendio,

E meus queixumes para Deus subiram,

Como o insenço do fervido thuribulo.

Essa chamma do céo, que abrasa o vate,

Crestou-me inteira a flôr da juventude…

Um pensamento só resta entre as cinzas,

Como immortal pyramide, que avulta

Sôbre um deserto… é Deus, que está commigo,

E’ Deus que pôz a mão no meu espirito

Para acalmar-lhe os ultimos anceios…

Dai-me a minh’harpa, eu quero, como o cysne,

N’um canto extremo evaporar a vida.

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Autor
Aureliano Lessa
Título
O Poeta agonisante
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-o-poeta-agonisante--aureliano-lessa-fd5583
Cita recomendada
Aureliano Lessa, «O Poeta agonisante», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-o-poeta-agonisante--aureliano-lessa-fd5583.html

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