Vós, Anjos do Senhor, vinde inspirar-me,
Accendei na minh'alma um fogo santo,
Que venha illuminar-me o entendimento,
Trazei-me do Empyreo harpa celeste,
Para que d'um heróe alto, divino,
Em verso heroico, pio a vida cante,
Tornando á juventude ameno, grato,
Um carme cujo assumpto é dino e grande !
Do sol tibios os raios sobre a terra,
Pousavam ao cahir de meiga tarde,
Era n'essa estação que os prados veste
De relva e de mil flores variegadas, up floup
Puro o Céo, socegada a natureza;
Hora d'inspirações, hora solemne,
Que une ao Creador almas piedosas,
Que arrebata o poeta além do espaço !..
Entre vagas d'espuma crystallina,
O mais bello dos astros s'escondia,
Em Nazareth deixando casta joven,
Curvada, em oração, a Deus erguendo
Um cantico d'amor, balbuciando-
O' Deus incomprehensivel! Deus supremo!
«Os filhos de Sião quando cumpridas,
«Jubilosos verão promessas vossas?..
E os olhos para o Céo então volvendo,
De sóes cercado vê, resplandecente,
Angelica figura magestosa,
Transpondo o firmamento em aurea nuvem,
As azas prateadas agitando,
De diamantes e ouro recamadas,
Sustentava na dextra alva açucena,
Para mimo da Virgem cultivada,
Por Anjos nos vergeis do paraiso,
E na terra baixando junto d'ella ohuemol
Lhe inspira confusão, temor, respeito;
Porém, meigo, sorrindo elle a socega,
E d'est'arte fallou com voz solemne ―
«Da terra o Creador, dos Céos e mares,
«Aquelle que formou d'argilla os homens,
«Que o espaço illuminou d'astros fulgentes,
«A quem os Anjos louvam incessante,
«Aquelle a cuja voz tudo obedece
«Na terra, Céos e horridos infernos,
«A ti me envia ó Virgem fortunada!
«Escolhida por Deus n'alto mysterio!..
«O' Filha de Sião, eu te saudo! single
«Exaltada serás, santo é o fructo,
«Que o Eterno derramou d'entro em teu seio!
«Um Filho terás tu, casta Maria,
«A quem Anjos do Céo, grandes da terra,
«Humildes cantarão hosanna, hosanna!
«E de David seu Pae no regio throno,
«Sentar-se-ha um dia grandioso,
«Não tendo fim jámais o seu reinado!
«O mesmo Anjo revel, soberbo, infido,
«Ante elle seu poder depondo a custo,
«Humilhado o joelho já curvando,,
«Convulso o adorará rangendo os dentes,
«E mal que proferir oiça seu nome,
«Recuará fremente, enraivecido;
«Descendo já irado á negra estancia,
«Tormentos dobrará aos condemnados,
«Furioso abalando o solo ardente!
Não pôde no turbado entendimento,
A Virgem comprehender altos arcanos,
E timida, modesta, dizer ousa,
Que puro é seu consorcio, santos votos
Fizera de viver em castidade...
O Anjo proseguiu com voz seraphica ―
«Foi est'obra no cháos inda traçada,
«N'um Deus tem só origem e dos homens,
«Parte alguma tomou; toda é divina!
«Desceu a ti o Espirito do Eterno,
«No seio teu formando o dino infante,
«De quem a Mãe serás afortunada!
«Ha mezes seis obrou outro prodigio,
«A Isabel me enviando a quem o mundo,
«Como esteril olhava com desprezo;
Apraz agora ao Céo, que d'ella nasça,
«Na descripta idade um varão santo,
«Para missão cumprir alta, divina!..
― «Eis do Senhor a escrava mais humilde,
«Que se cumpram em mim vontades suas!..
«Seus mysterios adoro reverente,
«Submissa aguardarei altos designios!
E o mensageiro santo ao Céo volvendo,
Sósinha a Virgem deixa, a Deus orando;
Humilde, tão modesta como outr'ora,
Occultava do Céo, subidas honras;
De jubilo exultando pela graça,
Que fora á Prima sua concedida.
Emprehende ardua viagem, quer saudal-a,
Qual o gozo exprimir-lhe, que sentira,
Sabendo fôra livre d'esse opprobrio,
Dos annos no verdor soffrido a custo.
De tantas maravilhas o segredo,
No peito virginal ella escondia;
Mas ao vêl-a Isabel sentiu no seio,
Estranha adoração, curvar-se o infante!
E pelo Céo movida então exclama: ―
«O' tu, cheia de graça, Ave Maria!
«O Deus da eternidade em ti habita!
«Que jubilo, que gloria, que ufania,
«Não deves tu sentir mulher ditosa!
«Das gerações serás sempre exaltada,
«Pois que és o vaso puro onde o Altissimo,
«A sopro derramou da essencia dina!..
A Nazareth a Virgem regressava,
Passados mezes tres e do consorte,
Com mil caricias foi logo acolhida,
Que do mais terno amor o sentimento,
N'a su'alma por ella só nutria:
Amava-a como os Anjos amam Deus,
E como os Anjos pura elle a julgava.
Qual foi o assombro seu, pesar, tristeza,
Logo que signaes viu já manifestos,
Da perda tão sentida da innocencia...
Sósinho aqui, alli, sempre scismando,
Ao acaso divaga pesaroso,
E da Virgem virtudes recordando,
Suppôl-a criminosa não podia
Volveram mezes mais do seu desdouro,
Duvidar já não póde o varão santo.
Comprehendia su'alma a afflicta esposa,
Mas segredos do Céo ella occultava,
Accusada d'um crime fosse embora!
Com mágoa, saudade o esposo via,
Resolvido a partir, abandonal-a,
Abandonal-a quando o seu amparo,
Mais que outr'ora lhe era proveitoso !
A Deus ella recorre fervorosa,
Acolhendo o Senhor as preces suas,
Que em sonhos ao consorte, um anjo envia,
Quando já a partir proximo estava,
E do somno nos braços despertando-o,
Mysterios sacrosantos lhe revela;
Que a esposa innocentinha, não deixasse,
Que fosse o amparo seu, sempre seu guia.
Dos Prophetas as mysticas palavras
Hiam breve cumprirem-se na terra,
Refulgindo uma luz nova, divina,
Que em Belem despontar só deveria,
Por decretos que o Céo occulta aos homens!..
Foi quando o Imperador Augusto Cesar,
Ao povo em seus dominios ordenára,
Para se apresentar seus nomes dando.
Regias ordens cumpriu a Virgem logo,
E esquece o estado seu tão delicado,
Julgando obedecer assim d'est'arte, s
Ao monarcha dos Céos de quem os homens
Na terra a imagem são, de quem recebem
Occulta inspiração, os seus designios.
Do consorte a Belem acompanhada,
Fatigada chegou buscando abrigo;
A noite as negras azas estendia,
Brilhando já no Céo milhões d'estrellas;
Não havia de vago um só albergue,
E em balde consternado o esposo busca
Gasalhado preciso á sua amada,
Que triste, só por ella receando,
Onde encontrar não sabe humilde choça.
Ah! a Virgem suspira, ella já sente,
Que breve vae ser Mãe, e do seu Anjo,
Bem de pressa a missão será cumprida!..
Mas ai! que só por leito a terra via,
E por tecto o luzido firmamento!
Volvendo aqui, alli, alfim encontram,
Em presepio mesquinho uma guarida,
Para um Deus sobre palhas recostarem!
Não quiz o Creador para seu Filho,
Dos grandes escolher aureos palacios,
O fausto despresando, ouro, vaidades,
No mundo o apresentou humilde e pobre!
Ah! se riquezas só, Deus estremasse,
Se nascer entre grandes preferisse,
Que seria do triste, obscuro, pobre,
Que conforto na terra encontraria,
Se ostentar visse um Deus entre os humanos,
As grandezas, poder, luxo, vaidade?..
Porém, não foi aos ricos que primeiro,
Manifestal-o quiz; mas aos pequenos,
Revelar-lhes aprouve altos segredos
Não longe de Belem, ledos velavam,
Seus rebanhos guardando alguns pastores;
A noite alta já ía e as trevas suas,
Um Anjo do Senhor esclarecia;
Qual sol viram então raiar formoso,
E uns aos outros confusos preguntavam
Que prodigio seria nunca visto!
Mas logo d'improviso juntos d'elles,
Mais bello ainda que o sol, que a estrella d'alva,
De luz todo cercado radiante,
Sobre a terra desceu Cherubim santo,
Annunciando o Deus da eternidade,
Que essa nauta ditosa ao mundo déra.
As palavras do angelico mancebo,
Attentos escutaram, perturbados;
Porém elle os socega e assim lhes falla: ―
«Esse legislador alto potente,
«Ao primeiro dos homens promettido,
«Esse Deus que se espera ha longo tempo,
«O Messias emfim tão desejado,
«Acaba de nascer em um presepio!...
«Hide á santa Belem; n'uma choupana,
«Onde é tudo humildade e só pobreza,
«Achareis rodiando um Deus infante!
Depois voltando ao Céo, milhões d'Archanjos
Entoam a seu lado hymnos celestes.
Cada pastor tomando a offrenda sua,
Chegaram a Belem, mal que nos Céos
A aurora derramou o alvor primeiro,
E n'um pobre curral todos entrando,
Ao filho de Maria ajoelharam,
Hindo depois narrar por toda a parte
Os prodigios que viram assombrosos!
Passados dias oito ao templo foram,
Os esposos levar de Deus o Filho,
Que da circumcisão á lei penivel,
Humildes, não quizeram isental-o,
E do Anjo do Senhor cumprindo as ordens,
O nome de Jesus ledos lhe deram,
Da parte Oriental, gentios Reis,
Um novo astro raiar alegres viram,
E por Deus inspirados presentiram,
Que dos judeos o Rei nascido havia;
Mas um divino Rei alto, supremo!
E logo a partir se resolveram,
Para lhe tributarem homenagem.
Reinava então Herodes na Judea,
Ao qual d'um novo Rei tinha a noticia,
Ciumes inspirado, odio, inveja,
E chamando do reino os homens sabios,
Lhes pergunta o lugar onde devia,
Jesus Christo nascer em a Judea.
Citando dos Prophetas as palavras,
Revelam-lhes os doutos traiçoeiros,
Que era em Belem que ha muito escripto estava,
Que dos Judeos o rei nascer havia;
Mas occultam-lhe sua divindade,
O fim para que vinha lhe esconderam,
Augmentando d'Herodes os receios,
Que dos Magos a vinda já sabendo,
Vae d'elles indagar qual o motivo,
Que ao reino seu os trouxe, e como a estrella,
Lhes tinha apparecido e revelado
D'um poderoso Rei o nascimento.
Incautos os tres Magos lhe respondem,
Com lealdade a tudo e singileza,
Sem que do rei perverso suspeitassem
A vil traição e perfidos intentos,
Resolvendo immolar um tenro infante.
Elle soube fingir-lhes, que seu culto,
Respeitoso tambem ia prestar-lhe,
Pedindo aos santos reis, no seu regresso,
Lhe narrem do menino quanto virem
Para depois humilde ir adoral-o.
Jerusalem deixaram os tres Magos,
Tornando logo a ver a estrella sua,
Que por ella guiados a seguiram,
Ao domicilio pobre onde pousára,
E todos tres entrando encontraram,
Da casta Mãe nos braços o menino
E curvando-se logo respeitosos,
Adoram o Senhor dos Céos, do mundo,
Offertando-lhes ouro, incenso, mirra.
Sem mais verem Herodes, elles partem,
Avisados por Deus das traições suas;
Tomando outro caminho prazenteiros
Aos reinos seus chegaram sem perigo.
Era costume antigo entre as Judias,
Depois de serem mães irem ao Templo,
Orarem ao Senhor, purificarem-se,
Comsigo os filhos seus tambem levando,
E a Virgem tão modesta, a mais humilde,
Nenhuma distincção de si fazendo,
Mal que o tempo passou na lei marcado,
O Filhinho levando se confunde
Entre o povo, qual uma peccadora!
E offerecendo a Deus, de Deus o Filho,
Foi essa a vez primeira, que em seu Templo,
Uma offrenda se fez d'uma hostia pura,
Do seu poder só digna e magestade!
Venerando ancião ao Templo chega,
Que inspirado por Deus lê no futuro,
E tomando Jesus entre seus braços,
O estreita ao coração ébrio de gozo;
Depois em alta voz assim exclama: ―
«Eis a luz da verdade, a paz e gloria,
«O Messias ha muito desejado!
«Aquelle que remir enormes culpas,
«Em nome do Céo vem; apasiguando
«O espirito de Deus desacatado!
«E na terra passando amargurado,
«Seu sangue espargirá para remil-a!..
«Affrontas só achando è crueldade,
«Entre os homens sem fé, despiedados,
«Que surdos do Senhor á voz divina,
«Quaes tigres lhe darão morte affrontosa!»
E predisse tambem á casta Virgem,
A dôr pungente, as mágoas que no peito,
Pelo Filho tão caro sentiria,
Quando d'elle se visse separada.
Após curva o joelho, as mãos erguendo,
Um cantico ao Eterno humilde eléva,
Pois lhe dava o prazer antes da morte,
De vêr o Redemptor e saudal-o!
Que nada mais da terra ambiciona,
Que no porvir em paz seu fim esperava.