Sentado a meditar sobre um rochedo,
Inda joven o Bardo suspirava,
Macilentas as faces e encovados
Os bellos olhos tinha que n'outr'ora
Revelaram d'amor paixão mui terna.
De repente expressão feroz, medonha,
Ao rosto lhe assomou tornando-o rubro
E momentos após, sorriso ironico,
Sorriso indecifravel e terrivel
Que d'alma traduzia o fel, angustia,
Nos labios resequidos se mostrava!
Ergue-se o mal-fadado e frias gotas
Da fronte lhe dimanam incendida,
Vagueando ora aqui, alli errante,
A descançar o forçam dor, fadiga!
D'um passado feliz reminiscencias,
O rosto lhe humedecem d'agro pranto;
Tomando então a lyra luctuosa,
Aos ventos solta em vão as queixas suas.
Bardo
Horrida sombra me segue!
Sombra de perseguição;
Quer commigo repartir
Eterna condemnação!..
Vai, ó reproba, cumprir
N'esse inferno a maldição
Que te deitou, moribundo,
Um misero n'afflição!..
Ah! de meus progenitores
Foste a desgraça, o tormento;
Vai! e que entre os condemnados
Não tenhas paz um momento!
Tu foste da minha Olinda
O cruel, vil roubador;
Tiraste-me mais que a vida
Levando-me o meu amor!..
Assassinaste meu pae!
Minha mãe morreu de dor!
E para os vingar, ousado,
Fugi longe ao teu furor!
Familia, amor, riquezas,
Tudo, cruel, me usurpaste;
Quanto à vida me prendia,
Homem traidor, me roubaste!
Disfarçado em pobre monge
Os passos teus vigiava,
E da vingança o momento
Opportuno eu esperava.
Esse instante alfim chegou;
O disfarce meu deixei,
E qual tigre enfurecido,
Minha raiva em ti cevei!
Logo após fugi dos homens,
Deixando um mundo perverso,
E só, entre a natureza,
Vivo em magoas submerso!..
Bardo
Meigos sonhos feiticeiros,
Dai-me de novo a visão,
Dizei-me onde Olinda vive,
E se por mim tem paixão;
Dizei-me se de saudades
Ella vive, a suspirar,
Ou se já no ceu fulgura
Dos puros anjos a par;
Ah! dizei se outro mortal
Tambem foi por ella amado,
Ou se, fiel aos seus votos,
Jámais me tem olvidado.
Era na hora em que o sol formosos raios
No seio do oceano hia esconder;
Era silencio tudo, só se via
Nas solidões o Bardo a percorrer;
E no sonho feliz inda scismando,
Longo tempo ao acaso caminhou,
E no mais ermo sitio das montanhas
Co'um venerando er'mita deparou
Curvado tinha o suplice joelho,
Tinha os olhos no céo, em oração,
Com lagrimas e ais a Deus pedindo
D'enormes crimes paternal perdão.
Cilicio duro a cinta lhe cingia,
Era a terra seu leito, e recostava
Em riga pedra a fronte calva e nua,
Eram os céos o tecto que o guardava!
Comia duro pão, mal saboroso
E no ribeiro enchia a bilha d'agua
Para a sede febril refrigerar
Da penitencia em meio d'essa fragua!
D'estio o sol em aridos rochedos,
D'inverno a tempestade desabrida,
Acolher-se não fazem ao er'mita,
A mesquinha choupana, a uma guarida!
Finda a longa oração e quer erguer-se;
Mas em vão o tentou mais que uma vez;
As forças já exhaustas lhes fallecem,
Do moribundo tinha a pallidez.
No coração do Bardo não entrára
Ha muito de piedade um sentimento;
Mas ao ver espectac'lo tão pungente,
Sentiu enternecer-se n'um momento;
E junto ao ancião presta-lhe auxilio,
Ajudando-o na rocha a recostar
E o velho agradecido lhe pediu
Para a seu lado um pouco descançar.
Eremita
Eremita
Que! mancebo! recuas aterrado?!...
Meus crimes inda aqui não fazem termo!...
E o Bardo empallidece, treme, fixa
O velho que elle afasta horrorisado
E não sabe se dorme, vela, ou sonha,
Ou se vive sem tino, delirado..
Eremita
Eremita
Bardo
Eremita
E pede a Deus, do er'mita a contrição,
Depois de ter ao céo, por elle orado;
E cava a sepultura a quem a sua,
Na idade juvenil cavou sem dó,
Olha por derradeiro o corpo exangue
Que em breve só será do nada o pó!..
Quer depois arvorar na pobre campa
A efigie d'essa cruz da redempção;
Mas não vê nas montanhas de que fórme,
Venerando signal d'agra paixão;
Atravessa desertos, desce montes,
Transpõe formoso rio cristalino
E além n'um denso bosque verdejante,
Cruz singela formou d'um lenho fino.
Em quanto repousava os lassos membros,
Eis que escuta uma voz tão magoada,
E tão lugubre, debil e queixosa,
Qual a d'Hero expirante, desgraçada!
E ouvindo-a estremece e o coração
No peito juvenil forte pulsára;
Immovel fica o Bardo, commovido
Pela voz tão saudosa que escutava;
Por suspiros e pranto entrecortada
Essa voz su'alma compungia
E tão só, sem amparo, por est'arte,
No silencio dos bosques s'exprimia:
«E'sta vida de saudade,
«De pranto e amargura,
Em breve s'extinguirá
Entre o pó da sepultura!..
Matizar de novo os prados,
Ah! talvez jamais verei
E das folhas ao pender,
No sepulchro cahirei!
O coração já não póde
Soffrer a triste saudade
E breve virão as horas
Solemnes da eternidade!...
E na minha pobre campa,
Nenhum mortal chorará,
Onde jaz uma infeliz,
Ao meu amor quem dirá!..
Contai-lhe vós ternas aves,
Zefiros, flores dos prados
Bosques, rios e montanhas,
Os meus dias desgraçados!
Dizei-lhe que fementido,
Jamais foi meu coração,
E que vim na soledade
Nutrir d'amor a paixão;
Que fiel ás juras minhas,
Recusei outra união
Que preferi á grandeza
Tristezas da solidão;
Mostrai-lhe depois a campa
Onde eu dormir somno eterno.
Que uma lagrima ahi verta
Que exhale um suspiro terno!
Das amigas a mais terna,
Leonor, já não existe!
Minha fiel companheira
Que à solidão me seguiste;
E'ras tu só meu amparo,
Quem minha dor mitigava,
Quem d'esta triste existencia,
Com desvelos mil cuidava:
Nos braços, teus pequenina,
Quantas vezes m'embalaste,
Na falta d'uma mãe terna,
Tu foste que me educaste.
Quando o fado a mão pesada
Sobre mim descarregou,
Dos dias teus a ventura
Para sempre envenenou!
Sósinha não me deixaste
Pelo mundo divagar
E longe do lar paterno
Me vieste acompanhar.
Tão velozes como os ventos,
Dous ginetes cavalgamos,
Por fiel pagem guiadas,
Muitos dias caminhamos.
Sempre boa, generosa,
Por mim tudo abandonaste
Teu ouro, ricas alfaias,
Commigo aqui dissipaste.
Isolada, sem conforto,
Minha dor não vencerei
E comtigo ó doce amiga
Em breve me juntareil..
Nas leves azas dos ventos[errata 3]
Ao meu bem por que não vão
Os derradeiros suspiros
Que partem do coração!..
Sabino! por que não vens
Mitigar a minha dor,
Para que morra ditosa
Nos braços do meu amor!
Não mais o bardo espera e após instantes
A amante sua estreita ao coração;
Sem dar fé ao que vê, julga que sonha,
Ou crê ser um delirio da paixão.
Em silencio se olharam por momentos,
Nos olhos tendo d'alma as expressões
Que phrazes são inuteis quando amor
Em contacto colloca os corações!
Mas em breve do Bardo essa ventura
Em pranto se mudou e agonia,
D'Olinda a pallidez, signaes de morte
No rosto seu exhausto elle só via!
Bardo
Conduzindo-te aqui n'est'hora extrema!
Como os anjos no céo amam a Deus,
Amei-te eu, ó Sabino, cá na terra!
De saudades vivi longe de ti,
A vida d'um passado só nutrindo
Que me fôra tão caro, tão ditoso!..
Jámais volveu um dia, hora, ou instante
Que de ti se olvidasse a tua amante!
Meditando ao luar, ai, quantas vezes
A abobada celeste contemplava,
As estrellas olhando uma por uma,
Para vêr se atinava com aquella
Que teus olhos formosos estremassem!
Outras vezes na lua reflectido
Teu rosto figurava meigo e lindo;
Quando o sol despontava, eu lhe dizia:–
Como outr'ora não és já tão formoso!
Nos raios teus não vejo tanto brilho;
A presença d'amôr é quem te doira,
É elle que abrilhanta a natureza,
Quem lhe realça em fim as mil bellezas
De refulgir deixaste para mim
Quando do meu amor me separaram
Esses Fados crueis que me perseguem!..
E a virgem mais e mais empallidesce
A morte despiedada vê chegar
E na gelida dextra a dextra amada,
Pela ultima vez quer estreitar.
Olinda