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PoetósferaLa BibliotecaMaria Adelaide Fernandes Prata

Maria Adelaide Fernandes Prata · Modernismo

O Bardo na Solidão

portugués

Sentado a meditar sobre um rochedo,

Inda joven o Bardo suspirava,

Macilentas as faces e encovados

Os bellos olhos tinha que n'outr'ora

Revelaram d'amor paixão mui terna.

De repente expressão feroz, medonha,

Ao rosto lhe assomou tornando-o rubro

E momentos após, sorriso ironico,

Sorriso indecifravel e terrivel

Que d'alma traduzia o fel, angustia,

Nos labios resequidos se mostrava!

Ergue-se o mal-fadado e frias gotas

Da fronte lhe dimanam incendida,

Vagueando ora aqui, alli errante,

A descançar o forçam dor, fadiga!

D'um passado feliz reminiscencias,

O rosto lhe humedecem d'agro pranto;

Tomando então a lyra luctuosa,

Aos ventos solta em vão as queixas suas.

Bardo

Horrida sombra me segue!

Sombra de perseguição;

Quer commigo repartir

Eterna condemnação!..

Vai, ó reproba, cumprir

N'esse inferno a maldição

Que te deitou, moribundo,

Um misero n'afflição!..

Ah! de meus progenitores

Foste a desgraça, o tormento;

Vai! e que entre os condemnados

Não tenhas paz um momento!

Tu foste da minha Olinda

O cruel, vil roubador;

Tiraste-me mais que a vida

Levando-me o meu amor!..

Assassinaste meu pae!

Minha mãe morreu de dor!

E para os vingar, ousado,

Fugi longe ao teu furor!

Familia, amor, riquezas,

Tudo, cruel, me usurpaste;

Quanto à vida me prendia,

Homem traidor, me roubaste!

Disfarçado em pobre monge

Os passos teus vigiava,

E da vingança o momento

Opportuno eu esperava.

Esse instante alfim chegou;

O disfarce meu deixei,

E qual tigre enfurecido,

Minha raiva em ti cevei!

Logo após fugi dos homens,

Deixando um mundo perverso,

E só, entre a natureza,

Vivo em magoas submerso!..

Bardo

Meigos sonhos feiticeiros,

Dai-me de novo a visão,

Dizei-me onde Olinda vive,

E se por mim tem paixão;

Dizei-me se de saudades

Ella vive, a suspirar,

Ou se já no ceu fulgura

Dos puros anjos a par;

Ah! dizei se outro mortal

Tambem foi por ella amado,

Ou se, fiel aos seus votos,

Jámais me tem olvidado.

Era na hora em que o sol formosos raios

No seio do oceano hia esconder;

Era silencio tudo, só se via

Nas solidões o Bardo a percorrer;

E no sonho feliz inda scismando,

Longo tempo ao acaso caminhou,

E no mais ermo sitio das montanhas

Co'um venerando er'mita deparou

Curvado tinha o suplice joelho,

Tinha os olhos no céo, em oração,

Com lagrimas e ais a Deus pedindo

D'enormes crimes paternal perdão.

Cilicio duro a cinta lhe cingia,

Era a terra seu leito, e recostava

Em riga pedra a fronte calva e nua,

Eram os céos o tecto que o guardava!

Comia duro pão, mal saboroso

E no ribeiro enchia a bilha d'agua

Para a sede febril refrigerar

Da penitencia em meio d'essa fragua!

D'estio o sol em aridos rochedos,

D'inverno a tempestade desabrida,

Acolher-se não fazem ao er'mita,

A mesquinha choupana, a uma guarida!

Finda a longa oração e quer erguer-se;

Mas em vão o tentou mais que uma vez;

As forças já exhaustas lhes fallecem,

Do moribundo tinha a pallidez.

No coração do Bardo não entrára

Ha muito de piedade um sentimento;

Mas ao ver espectac'lo tão pungente,

Sentiu enternecer-se n'um momento;

E junto ao ancião presta-lhe auxilio,

Ajudando-o na rocha a recostar

E o velho agradecido lhe pediu

Para a seu lado um pouco descançar.

Eremita

Eremita

Que! mancebo! recuas aterrado?!...

Meus crimes inda aqui não fazem termo!...

E o Bardo empallidece, treme, fixa

O velho que elle afasta horrorisado

E não sabe se dorme, vela, ou sonha,

Ou se vive sem tino, delirado..

Eremita

Eremita

Bardo

Eremita

E pede a Deus, do er'mita a contrição,

Depois de ter ao céo, por elle orado;

E cava a sepultura a quem a sua,

Na idade juvenil cavou sem dó,

Olha por derradeiro o corpo exangue

Que em breve só será do nada o pó!..

Quer depois arvorar na pobre campa

A efigie d'essa cruz da redempção;

Mas não vê nas montanhas de que fórme,

Venerando signal d'agra paixão;

Atravessa desertos, desce montes,

Transpõe formoso rio cristalino

E além n'um denso bosque verdejante,

Cruz singela formou d'um lenho fino.

Em quanto repousava os lassos membros,

Eis que escuta uma voz tão magoada,

E tão lugubre, debil e queixosa,

Qual a d'Hero expirante, desgraçada!

E ouvindo-a estremece e o coração

No peito juvenil forte pulsára;

Immovel fica o Bardo, commovido

Pela voz tão saudosa que escutava;

Por suspiros e pranto entrecortada

Essa voz su'alma compungia

E tão só, sem amparo, por est'arte,

No silencio dos bosques s'exprimia:

«E'sta vida de saudade,

«De pranto e amargura,

Em breve s'extinguirá

Entre o pó da sepultura!..

Matizar de novo os prados,

Ah! talvez jamais verei

E das folhas ao pender,

No sepulchro cahirei!

O coração já não póde

Soffrer a triste saudade

E breve virão as horas

Solemnes da eternidade!...

E na minha pobre campa,

Nenhum mortal chorará,

Onde jaz uma infeliz,

Ao meu amor quem dirá!..

Contai-lhe vós ternas aves,

Zefiros, flores dos prados

Bosques, rios e montanhas,

Os meus dias desgraçados!

Dizei-lhe que fementido,

Jamais foi meu coração,

E que vim na soledade

Nutrir d'amor a paixão;

Que fiel ás juras minhas,

Recusei outra união

Que preferi á grandeza

Tristezas da solidão;

Mostrai-lhe depois a campa

Onde eu dormir somno eterno.

Que uma lagrima ahi verta

Que exhale um suspiro terno!

Das amigas a mais terna,

Leonor, já não existe!

Minha fiel companheira

Que à solidão me seguiste;

E'ras tu só meu amparo,

Quem minha dor mitigava,

Quem d'esta triste existencia,

Com desvelos mil cuidava:

Nos braços, teus pequenina,

Quantas vezes m'embalaste,

Na falta d'uma mãe terna,

Tu foste que me educaste.

Quando o fado a mão pesada

Sobre mim descarregou,

Dos dias teus a ventura

Para sempre envenenou!

Sósinha não me deixaste

Pelo mundo divagar

E longe do lar paterno

Me vieste acompanhar.

Tão velozes como os ventos,

Dous ginetes cavalgamos,

Por fiel pagem guiadas,

Muitos dias caminhamos.

Sempre boa, generosa,

Por mim tudo abandonaste

Teu ouro, ricas alfaias,

Commigo aqui dissipaste.

Isolada, sem conforto,

Minha dor não vencerei

E comtigo ó doce amiga

Em breve me juntareil..

Nas leves azas dos ventos[errata 3]

Ao meu bem por que não vão

Os derradeiros suspiros

Que partem do coração!..

Sabino! por que não vens

Mitigar a minha dor,

Para que morra ditosa

Nos braços do meu amor!

Não mais o bardo espera e após instantes

A amante sua estreita ao coração;

Sem dar fé ao que vê, julga que sonha,

Ou crê ser um delirio da paixão.

Em silencio se olharam por momentos,

Nos olhos tendo d'alma as expressões

Que phrazes são inuteis quando amor

Em contacto colloca os corações!

Mas em breve do Bardo essa ventura

Em pranto se mudou e agonia,

D'Olinda a pallidez, signaes de morte

No rosto seu exhausto elle só via!

Bardo

Conduzindo-te aqui n'est'hora extrema!

Como os anjos no céo amam a Deus,

Amei-te eu, ó Sabino, cá na terra!

De saudades vivi longe de ti,

A vida d'um passado só nutrindo

Que me fôra tão caro, tão ditoso!..

Jámais volveu um dia, hora, ou instante

Que de ti se olvidasse a tua amante!

Meditando ao luar, ai, quantas vezes

A abobada celeste contemplava,

As estrellas olhando uma por uma,

Para vêr se atinava com aquella

Que teus olhos formosos estremassem!

Outras vezes na lua reflectido

Teu rosto figurava meigo e lindo;

Quando o sol despontava, eu lhe dizia:–

Como outr'ora não és já tão formoso!

Nos raios teus não vejo tanto brilho;

A presença d'amôr é quem te doira,

É elle que abrilhanta a natureza,

Quem lhe realça em fim as mil bellezas

De refulgir deixaste para mim

Quando do meu amor me separaram

Esses Fados crueis que me perseguem!..

E a virgem mais e mais empallidesce

A morte despiedada vê chegar

E na gelida dextra a dextra amada,

Pela ultima vez quer estreitar.

Olinda

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Autor
Maria Adelaide Fernandes Prata
Título
O Bardo na Solidão
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-o-bardo-na-solidao--maria-adelaide-fernandes-pra-e2a7d7
Cita recomendada
Maria Adelaide Fernandes Prata, «O Bardo na Solidão», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-o-bardo-na-solidao--maria-adelaide-fernandes-pra-e2a7d7.html

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