CADA PIEZA VIVE EN UNA DIRECCIÓN · NADA VIVE EN UNA SOLA SALA  

PoetósferaLa BibliotecaAlmeida Garrett

Almeida Garrett · Romanticismo

Miragaia (Almeida Garrett) — IV

portugués

«Sanctiago!.. Cerra, cerra!

Sanctiago, e a matar!»

Abertas estão as portas

Da tôrre de par em par;

Nem atalaias nos muros

Nem roldas para as velar…

Os moiros despercebidos

Sentem-se logo apertar

De um tropel de leonezes

Ja portas a dentro a entrar.

Deixa a bozina Ramiro,

Mão á espada foi lançar,

E, de um só golpe fendente,

Sem mais pôr nem mais tirar,

Parte a cabeça até os peitos

Ao rei moiro Alboazar.

Ja tudo é morto ou captivo,

Ja o castello está a queimar,

Ás galés, com seu despôjo,

Se foram logo imbarcar.

— «Voga, rema! d'além Doiro

Á pressa, á pressa a passar,

Que ja oiço alli na praia

Cavallos a relinchar.

«Bandeiras são de Leão

Que lá vejo tremular:

Voga, voga, que além Doiro

É terra nossa!.. a remar!

«D'aqui é moirama cerrada

Até Coimbra e Thomar.

Voga, rema, e d'além Doiro!

D'aquem não ha que fiar.»

Á poppa vai Dom Ramiro

De sua galé real,

Leva a rainha á direita

Como quem a quer honrar:

Ella muda, os olhos baixos

Leva n'agua… sem olhar,

E como quem de outras vistas

Se quer so desaffrontar.

Ou Dom Ramiro fingia

Ou não vem n'isso a attentar:

Ja vão a meia corrente,

Sem um para o outro fallar.

Ainda arde, inda fumega

O alcaçar de Alboazar:

Gaia alevantou os olhos,

Triste se poz a mirar;

As lagrymas, uma e uma,

Lhe estavam a desfiar,

Ao longo, longo das faces

Correm… sem ella as chorar.

Olhou elrei para Gaia,

Não se pôde mais callar:

Cuidava o bom do marido

Que era remorso e pezar

Do mau termo atraiçoado

Que com elle fôra usar

Quando o intregou ao moiro

Tam so para se vingar.

Com a voz internecida

Assim lhe foi a fallar:

— «Que tens, Gaia… minha Gaia?

Ora pois! não mais chorar,

«Que o feito é feito…» — «E bem feito!»

Tornou-lhe ella a soluçar,

Rompendo agora n'uns prantos

Que parecia estalar:

«E bem feito, rei Ramiro!

Valente acção! de pasmar!

Á lei de bom cavalleiro,

Para de um rei se contar!

«Á falsa fe o mataste…

Quem a vida te quiz dar!

Á traição… que d'outro modo

Não es homem para tal.

«Mataste o mais bello moiro,

Mais gentil, mais para amar

Que entre moiros e christãos

Nunca mais não tera par.

«Perguntas-me porque chóro!..

Traidor rei, que heide eu chorar?

Que o não tenho nos meus braços,

Que a teu podêr vim parar.

«Perguntaste-me o que miro!..

Traidor rei, que heide eu mirar?

As tôrres d'aquelle alcaçar

Que ainda estão a fumegar:

«Se eu fui alli tam ditosa,

Se alli soube o que era amar,

Se alli me fica alma e vida…

Traidor rei, que heide eu mirar?»

— «Pois mira, Gaia!» E, dizendo,

Da espada foi arrancar:

«Mira, Gaia, que esses olhos

Não terão mais que mirar.»

Foi-lhe a cabeça de um talho;

E com o pé, sem olhar,

Borda fóra impuxa o corpo…

O Doiro que os leve ao mar.

Do estranho caso inda agora

Memoria está a durar:

Gaia é o nome do castello

Que alli Gaia fez queimar;

E d'além Doiro, essa praia

Onde o barco ia a aproar

Quando bradou «Mira, Gaia!»

O rei que a vai degollar,

Ainda hoje está dizendo

Na tradição popular,

Que o nome tem — Miragaia

D'aquelle fatal mirar.

Sigue explorando

Por su autor
Almeida Garrett · 4 piezas más en la casa
Dónde vive
La Biblioteca

← Miragaia (Almeida Garrett) — III

Expediente

Autor
Almeida Garrett
Título
Miragaia (Almeida Garrett) — IV
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-miragaia-almeida-garrett-iv--almeida-garrett-14c9ea
Cita recomendada
Almeida Garrett, «Miragaia (Almeida Garrett) — IV», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-miragaia-almeida-garrett-iv--almeida-garrett-14c9ea.html

Las obras de dominio público se reproducen íntegras, con atribución y en la ortografía de su impreso. ¿Ves una errata o conoces una fuente mejor? Escríbenos desde Sobre la casa.