CADA PIEZA VIVE EN UNA DIRECCIÓN · NADA VIVE EN UNA SOLA SALA  

PoetósferaLa BibliotecaAlmeida Garrett

Almeida Garrett · Romanticismo

Miragaia (Almeida Garrett) — III

portugués

Por Deus vos digo, romeiro,

Que vos queirais levantar;

Minhas mãos não são reliquias,

Basta de tanto beijar!»

O romeiro não se erguia,

As mãos não lhe quer largar;

Os beijos uns sôbre os outros

Que era um nunca acabar.

Ia a infadar-se a rainha,

Ouviu-o a soluçar,

E as lagrymas, quatro e quatro,

Nas mãos sentia rollar:

— «Que tem o bom do romeiro

Que lhe dá tanto pezar?

Diga-me las suas penas

Se lh'as posso alliviar.»

— «Minhas penas não são minhas,

Que aos mortos morre o penar:

Mas a vida que eu perdi

Em vós podia incontrar.

«Minhas penas não são minhas,

Senão vossas, mal pezar!

Que uma rainha christan

Feita moira vim achar…»

— «Romeiro não tomeis coita

Por quem se não quer coitar:

Do que fui ja me não lembro,

O que sou não me é dezar.

«Deus tera dó da minha alma,

Que meu não foi o peccar;

E a esse traidor Ramiro

As contas lhe hade tomar.»

— «Pois não espereis, senhora,

Por Deus que póde tardar:

Dom Ramiro aqui o tendes,

Mandae-o ja castigar.»

Em pé está Dom Ramiro,

Ja não ha que disfarçar:

Aquellas barbas tam brancas

Cahiram de um impuxar;

O bordão e a esclavina

A terra foram parar:

Não ha ver mais gentilezas

De meneio e de trajar.

Quem viu olhos como aquelles

Com que o ella está a mirar!

Quem passou ja transes d'alma

Como ella está a passar?

Um tremor que não é mêdo,

Um surriso de infiar,

Vergonha que não é pejo,

Faces que ardem sem corar…

Tudo isso tem no semblante,

Tudo lhe está a assomar

Como ondas que vão e véem

Na travessia do mar.

A vingança é o prazer do homem;

Da mulher, é seu manjar:

Assim perdoa elle e vive,

Ella não — que era acabar.

Vingar-se foi o primeiro

E o derradeiro pensar

Que, entre tantos pensamentos,

Em Gaia estão a pullar:

Logo depois a vaidade,

O gôsto de triumphar

N'um coração que foi seu,

Que seu lhe torna a voltar.

E o rei moiro estava longe

C'os seus no monte a caçar,

Ella so n'aquella tôrre…

Prudencia e dissimular!

Abre a bôcca a um surriso

Doce e triste — de matar!

Tempéra a chamma dos olhos,

Abafa-a por mais queimar.

Poz na voz aquelle incanto

Que — ou minta ou não, é fatal.

E, com o inferno no seio,

Falla o ceo no seu fallar.

Ja os amargos queixumes

Se imbrandecem no chorar,

E em sua propria justiça

Com arte finge affrouxar.

Protesta a bôcca a verdade:

«Que não hade perdoar…»

Mas a verdade dos labios

Os olhos querem negar.

De joelhos Dom Ramiro

Alli se estava a humilhar,

Supplíca, roga, promette…

Ella parece hesitar.

Senão quando uma bozina

Se ouviu ao longe tocar…

A rainha mal podia

O seu prazer disfarçar:

— «Escondei-vos, Dom Ramiro,

Que é chegado Alboazar;

Depressa, n'este aposento…

Ou ja me vereis matar.»

Mal a chave deu tres voltas,

Na manga a foi resguardar;

Mal tirou a mão da cotta,

Que o rei moiro vinha a entrar.

— «Tristes novas, minha Gaia,

Novas de muito pezar!

Primeira vez em tres annos

Que me succede este azar!..

«Toquei a minha bozina

Ás portas, antes de entrar,

E não correste ás ameias

Para me ver e saudar!

«Muito mal fizeste, amiga,

Em tam mal me costumar:

Não sei que fazes agora

Em me querer emendar…»

No coração da rainha

Batalha se estão a dar

Os mais estranhos affectos

Que nunca se hãode incontrar:

O que foi, o que é agora,

E a ambição de reinar…

O amor que tem ao moiro,

E o gôsto de se vingar…

Venceu amor e vingança:

Deviam de triumphar,

Que era em peito de mulher

Que a batalha se foi dar.

— «Novas tenho e grandes novas,

Amigo, para vos dar:

Tomae ésta chave e abride,

Vereis se são de pezar.»

Com que ância elle abriu a porta,

Vista que foi incontrar!..

Palavras que alli disseram,

Não n'as saberei contar:

Que foi um bramir de ventos,

Um bater d'aguas no mar,

Um confundir ceo e terra,

Querer-se o mundo acabar…

Vereis por fim o rei moiro

Que sentença veio a dar:

— «Perdeste a honra, christão:

Vida, quero-t'a deixar.

«De uma vez que me roubaste

Muito bem me fiz pagar:

D'esta basta-me a vergonha

Para de ti me vingar.»

Sentia-se elrei Ramiro

Do despeito devorar;

Com ar contricto e affligido

Assim lhe foi a fallar:

— «Grandes foram meus peccados,

Poderoso Alboazar;

E taes que a mercê da vida

De ti não posso acceitar:

«Eu não vim a teu castello

Senão so por me intregar,

Para receber a morte

Que tu me quizeres dar:

«Que assim me foi ordenado

Para minha alma salvar

Por um sancto confessor

A quem me fui confessar.

«E mais me disse e mandou,

E assim t'o quero rogar,

Que, pois foi pública a offensa,

Público seja o penar:

«Que ahi n'essa praça d'armas

Tua gente faças junctar,

Ahi deante de todos

A vida quero acabar

«Tangendo n'ésta bozina,

Tangendo até rebentar;

Que digam os que isto virem,

E lhes fique de alembrar:

«Grande foi o seu peccado,

«No mundo andou a soar;

«Mas a sua penitencia

«Mais alto som veio a dar.»

Quizera-lhe o bom do moiro

Por fôrça alli perdoar:

Mas se a pêrra da rainha

Jurou de á morte o levar!…

Veis na praça do castello,

Toda moirama a ajunctar;

Em pé no meio da turba

Ramiro se foi alçar.

Tange que lhe tangerás,

Toca rijo a bom tocar;

Por muitas leguas á roda

Reboava o bozinar.

Se o ouvirão nas galés

Que deixou a beira-mar?

De-certo ouviram, que um grito

Tremendo se ouve soar…

Sigue explorando

Por su autor
Almeida Garrett · 4 piezas más en la casa
Dónde vive
La Biblioteca

← Miragaia (Almeida Garrett) — IIMiragaia (Almeida Garrett) — IV →

Expediente

Autor
Almeida Garrett
Título
Miragaia (Almeida Garrett) — III
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-miragaia-almeida-garrett-iii--almeida-garrett-3bd7f8
Cita recomendada
Almeida Garrett, «Miragaia (Almeida Garrett) — III», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-miragaia-almeida-garrett-iii--almeida-garrett-3bd7f8.html

Las obras de dominio público se reproducen íntegras, con atribución y en la ortografía de su impreso. ¿Ves una errata o conoces una fuente mejor? Escríbenos desde Sobre la casa.