Vês lá na encosta do monte
Mi casas em gruposinhos,
Alvas, como cordeirinhos
Que se lavaram na fonte?
Não vês deitado defronte,
Qual dragão petrificado,
Aquelle sêrro curvado
Que mura a cidadesinha?
Pois essa cidade é minha,
E’ meu berço idolatrado.
Ali, meus olhos se abriram
A’ luz matinal da vida;
Lá, primeiro á mãi querida
Meus labios de amôr sorriram;
Lá, seu nome proferiram
Antes do nome de Deus;
Lá, tentei os passos meus
Da vida na estrada rude;
Lá, aprendi a virtude,
Minha mãi, nos labios teus.
Olha como ella se inclina
Pela esmeralda do monte,
Molhando os pés n’uma fonte
De agua fresca e crystallina!
Olha como ella domina
Esses serros alcantís,
Com seus ares senhorís,
Com seu cofre de diamantes,
No meio de seus amantes
Distribuindo rubis…
Salve, Athenas tão risonha
Da verde e saudosa Minas,
Raïnha destas collinas
Que banha o Jequitinhonha,
Teu vassallo. Elle nem sonha
Quebrar teu jugo real,
E vem a um leve signal
Com seus rubis, com seu ouro,
Derramar no teu thesouro
O seu tributo annual.
Feliz quem no seio teu
O sôpro da Providencia
Faz brotar a intelligencia,
Pérola fina do céo!
Como da noite no véo
Faz mil pérolas fulgir,
Tu tens, ó rival de Ophir,
Outras joias, outros brilhos;
Teu thesouro são teus filhos,
Tua glória é seu porvir!
Seu porvir, sim, que amanhece
Lá nos longes do futuro;
Não o meu, que um fado escuro
De negros fios só tece.
Patria! tudo me fallece
Para erguer teu esplendor:
Mas do pobre trovador
Terás o obolo pobre,
No peito um coração nobre,
Na lyra um canto de amôr.