Minha boa e querida mãe.
De prevenção e à pressa lhe envio estas linhas. Estou ocupado com um trabalho importante, que devo concluir até amanhã; e receio me roube o tempo que eu destino para conversar com aqueles a quem amo.
Mas trabalhando, não tenho eu sempre vivas em minha alma, para dar-lhe coragem, a sua imagem, minha querida mãe, a de Bela, de Luisinha,
de todos aqueles por cuja felicidade eu rogo a Deus todos os dias?
Abençoe-me, querida mãe; e dê a Bela o santo beijo que eu de longe não posso receber.
Seu filho
Ricardo
18 de agosto 1871.
Minha futura mãe e respeitável senhora.
Há tempos recebi uma carta sua em que me perguntava como ia na advocacia. Deixei passar alguns meses, antes de responder, para dar-lhe uma informação mais segura.
Agora posso dizer-lhe tudo que há a tal respeito e não é muito. O nosso Ricardo está com um escritório já bastante acreditado; tem clientes magníficos; e vai ganhando sofrivelmente. Eu só apareço lá, de longe em longe, para não espantar a caça; mas vou-lhe mandando as causas que posso. Sou um jornal vivo; mas jornal de sala, que é mais aristocrático, e mais barato.
A Bela deve estar orgulhosa do noivo que tem. Se ela soubesse até que ponto Ricardo a ama!... Ele, estou certo que nada lhe dirá; mas eu é que
não sou caixeta de segredos; e este me está fazendo cócegas.
Aí vai, no ouvido, de cochicho, que não o ouça uma certa sonsinha, cujo pecado é a curiosidade.
Há aqui na corte uma moça, que é a rainha da moda; chama-se Guida; é filha de um homem que não sabe quanto possui; tem dezenove anos e muito espírito; a respeito de beleza e elegância, não se fala; é o tipo; ninguém a excede.
Imagine quantos sujeitinhos andam-lhe arrastando a asa, apaixonados ao mesmo tempo pelos olhos pretos e os milhões amarelos dessa peregrina formosura.
Todo o alto coturno comercial, político, literário, inscreveu-se neste concurso; e cada um espera que lhe toque o anel.
Mas ela não faz caso de nenhum destes pretendentes;
e o seu fraco é por um certo advogado paulista, que nem dá fé das provocações, tão voltado anda para essas bandas da ínclita Pauliceia, onde lhe ficaram os olhos e o coração.
Bastava-lhe querer para em pouco tempo estar senhor de uma riqueza colossal e marido da mais bonita moça do Brasil, já se sabe, depois das duas que não é preciso mencionar. Mas ele sacrifica tudo à constância.
É verdade que não é ele o único; pois também outra pessoa tem sofrido sem pestanejar o fogo rolante dos mais feiticeiros olhos do Rio de Janeiro; mas, etc., etc., etc., etc., o resto pelo seguinte vapor.
Minha querida Bela.
Deus ouviu suas preces, as preces de um anjo, e abençoou os meus esforços.
Breve estaremos reunidos e para sempre. Viveremos na pobreza, a que a sorte nos condena; mas não é só a opulência que tem o direito de ser feliz neste mundo; ao contrário, muitas vezes ela não acha no meio de seu luxo um instante da alegria que enche a casinha do pobre.
Teremos de passar ainda por grandes provanças, minha querida Bela; não devo iludi-la. A vida
é difícil para aqueles que trilham a áspera vereda, e não se deixam arrastar pelas brilhantes equipagens, que passam cobrindo-os de pó!
Não me assusta a luta; conto, para dar-me coragem, com o nosso amor, que tem sido e há de ser o conforto de minha vida.
Às vezes perdido neste turbilhão da corte, minha querida Bela, têm-me vindo também a mim sonhos d'ouro, castelos encantados como fazem todos que têm imaginação. A riqueza que para certos indivíduos não passa de uma indigestão de dinheiro, é na mão de quem a compreende um dom sublime, quase celeste, porque transmite ao homem um influxo da Providência: enxuga as lágrimas da miséria, fortalece a virtude vacilante, e anima os nobres cometimentos.
Mas eu os espanco, a esses silfos tentadores, que agitam sussurrando suas asas de ouro, e me refugio nos meus sonhos de amor. Sob as tuas brancas asas, meu anjo da guarda, estou com Deus; e posso desafiar o mundo. Seu para sempre. Ricardo.