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Aureliano Lessa · Romanticismo

Só se pode amar no céo

portugués

Não, tu não sabes, donzella,

O que é descrêr do futuro;

No teu horizonte puro

Fulge ainda estrêlla bella.

Não tentes rasgar o véo,

O santo véo da innocencia,

Que vela a tua existencia

Anjo caïdo do céo!

A innocencia é a redoma

Que encerra as delicias d’alma,

Quebrada, quebra-se a calma,

E lá o infortunio assoma.

Não é reflexo do empireo,

Virgem, o amôr terreal;

E’ antes sonho infernal,

Que produz atroz martyrio.

Levanta, pois, os teus olhos

Para o claro azul dos céos;

Lá verás anjos, e Deus,

Na terra só vês abrolhos.

Olha, ó moça, se é preciso

Que eu te adore, ah! eu te adoro;

Porém do peito deploro,

Não podêr dar-te um sorriso.

Amei; n’um céo de ventura

Já sonhei gozos infindos;

Mas toldou sonhos tão lindos

Da descrença a noite escura.

Quanto amei! só Deus o sabe:

Eu tenho uma alma de fogo;

Oh! findou-se o sonho logo,

Em meu peito amôr não cabe.

Já nem resta-me a esperança!

Apenas de quando em quando

Do passado um écho brando

Vem soar-me na lembrança.

Não chores, virgem, teu pranto

Vai derramar junto á cruz;

Prantos de um anjo de luz

Deus enxuga com seu manto.

Eu, que avistei no horizonte

Bella estrêlla, hoje perdida,

Não choro, tenho exhaurida

Já das emoções a fonte.

Volve, pois, os teus olhares

Para a mansão da innocencia

Que a urna desta existencia

E’ cheia só de pezares.

Mas quando ás bordas da campa

Revolveres na memoria

Essa página da historia

Que a desdita nossa estampa;

Nos finaes suspiros teus

Dirás com riso tristono:

— O amôr na terra é um sonho;

Só se póde amar nos céos.

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Autor
Aureliano Lessa
Título
Só se pode amar no céo
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-so-se-pode-amar-no-ceo--aureliano-lessa-254d3c
Cita recomendada
Aureliano Lessa, «Só se pode amar no céo», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-so-se-pode-amar-no-ceo--aureliano-lessa-254d3c.html

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