Senhora, vós sois mãe; em vossa alma extremosa
Ha paginas da biblia eternamente santa,
Escriptas pelo Amor n'uma intenção grandiosa
Que o nome de MULHER sobre um altar levanta.
Senhora! Vós sois mãe... e eu, que tambem o sou,
As magoas de outras mães aqui chorando estou.
A minha triste voz, dolente assim qual é,
Não vem a murmurar premissas de má fé,
Nem como um mendicante expõe chagas ficticias
A fim de recolher offertas mais propicias,
Mas simplesmente diz:
— Senhora de Bondade
São victimas sem culpa as ovelhinhas puras,
Que exgotam, a chorar, um calix de amarguras,
Amaryllis de amor, que a neve hoje amortalha;
São pedaços de vida, a quem, feroz, retalha
O braço fulminante, o braço disciplina.
Com musculos da Lei, e nervos da rotina.
Eu fui bater, Senhora, a esses corações
E ouvi a romaria, enorme, de afflicções
Que a Saudade conduz por lacrimosos mares,
E a duvida acorrenta á gleba dos pezares.
Eu vi... eu vi de pé a torre da agonia,
E o sineiro da morte, ao declinar do dia
Vibrar hereuleamente o funerario dobre!
Eu vi o que só vê quem ama, e quem descobre
No espirito que soffre, um pouco do seu segon
E assimilei, magoada, a dór que vos entrego,
Para que a demudeis em fonte de carinhos
Onde possam beber creanças e velhinhos;
Onder possa banhar-se a duvida remissa,
E onde vá reflectir-se a alma da Justiça.
Que a Justiça não é um Attila iracundo,
Que ponha a escorrer sangue o coração do mundo!
Foi um drama de febre, um lamentavel drama
Que a ignorancia causou, e compaixão reclama.
Demais, ninguem oppôz prophylaxias cautas,
Para salvar do abysmo os miserandos nautas.
Se lhes houvessem posto um facho assás visivel
No arsenal da instrucção... era evidente e crivel,
Que teriam ouvido a ameaça de destroços
Ao soltarem a amarra em ares muito grossos.
Mas largaram sem rumo... Iam de pannos largos
Aos ventos de um acaso; e breve, quão amargos
Acharam na derrota os devaneios louens!
O barometro foi baixando, logo, aos poucos...
O céo fez-se de tinta, a tinta côr da magua,
A barea afocinhou... metteu as perchas na agua...
Cerrou-se o nevoeiro... Onde is então a proa?
Não governou o leme e o barco foi-se à tôa!...
Depois... era o naufragio... e emfim não sei que fique
Quando o dever sossobra e a crença vae a pique.
― Bem pouco se perdeu ― dirá gente sem alma;
Mas a consciencia humana, intemerata e calma,
Dirá isto, sómente: Os homens são irmãos,
Quando algum resvalou, cumpre estender-lhe as mãos.
E vós, Senhora, e vós, que sois compadecida,
Haveis de ouvir chorar a alma dolorida
Da Terra Portugueza, a Terra dos proscriptos,
Terra que o Sol vestiu com osculos bemditos:
A Terra onde germina a luz dos corações
Que se chamaram Gama, ou Egas, ou Camões.
A esfarrapar um nome, a ensanguentar um sonho,
Veja quem sabe vêr.. pugnaz ou enfadonho,
Zoilo, que não dispensa o seu parceiro Efialto,
Embosca-se na insidia e arroja-se de salto!
Bem sabe elle que é falso o seu charlar cruel,
Mas Zoilo ou não tem alma, ou é de cascavel!...
Já Ovidio dizia: ― «A fórma é transitoria.»
E em cada cyclo o affirma a Natureza e a Historia.
E quanta, oh! quanta vez, quem préga taes officios
Transije com o ouro e com seus proprios vicios..
E quanta, qnanta vez, a intransigencia cega
De Diomedes a lei no seu proveito emprega!...
Ser firme é ser brioso e não dobrar o joelho
Á voz do fanatismo, ou funebre ou vermelho.
Ser forte é percorrer, de consciencia pura,
Zodiacos da Dôr nos mundos da Amargura.
Senhora! eu venho agora, e respeitosa insisto
Porque diviso, além, o Mestre, o Amor, o Christo,
Na hora da agonia, o olhar brando e sublime,
Baixando tão piedoso a resgatar o crime
Da fera ingratidão que o martellou na Cruz,
E o ouyo suspirar:
Todo o perdão é luz!
E Gorki não morreu no ignobil cadafalso,
Porque o senso commum não deu rebate falso
Nem quiz passar além das raias do provavel...
Por mim, que nada valho, entendo que é louvavel
N'um pensamento bom de paz e de concordia
Pedir a protecção, pedir misericordia
Para quem soffre, longe, a expiação de um erro,
Para quem, perto, soffre o espiritual desterro.
Podera eu redimir delictos e miserias,
Constellar de esperança essas regiões funereas
Onde ha perpetuamente as tragicas risadas
Do desespero hostil, das vidas condemnadas;
Podera eu resgatar a triste humanidade
Dobrando o meu joelho aos pés da Magestade...
E não hesitaria um só momento, um só!...
E viesse quem viesse a escarnecer, com dó,
Ditosa me julgava, emfim, antes da morte.
Bem dona do meu «eu», serenamente forte,
Eu seria maior que toda a intransigencia...
Que eu nunca lhe enfeudei a minha independencia,
Nem puz uma etiqueta ás crenças da minh'alma!
Podera eu demudar o odio em 'brando arrulho,
E o espirito de Luz me cingiria a palma,
Porque o supremo heroismo é dominar o orgulho.
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Romaria da vida... a peor das romarias!
Apenas amanhece é logo: ― Parte! Parte!
Por bom, por mau caminho.. embora! has de affastar-te
Da aurora do teu berço, ó alma que dormias!
Ou caia o sol a prumo, ou nos brumosos dias,
― Romeiro, segue, segue! A Dôr anda a chamar-te
Nas miragens da Gloria, e o Sentimento a dar-te
As lagrimas do Sonho, aos ais de Ave-Marias...
― Pára... enxuga o suor... já estão ardendo os cirios...
Mas dize: em que empregaste a cerebrina acção?...
Foi na Arte?... Na Sciencia?... Em bellicos delirios?
Bemdito o «Agnus-Dei» que responder então:
― Os maus foram-me hostis, e eu, a sangrar martyrios,
Regnei com o meu pranto a ceara do perdão
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