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Angelina Vidal · Modernismo

Semana da Paixão

portugués

Senhora, vós sois mãe; em vossa alma extremosa

Ha paginas da biblia eternamente santa,

Escriptas pelo Amor n'uma intenção grandiosa

Que o nome de MULHER sobre um altar levanta.

Senhora! Vós sois mãe... e eu, que tambem o sou,

As magoas de outras mães aqui chorando estou.

A minha triste voz, dolente assim qual é,

Não vem a murmurar premissas de má fé,

Nem como um mendicante expõe chagas ficticias

A fim de recolher offertas mais propicias,

Mas simplesmente diz:
— Senhora de Bondade

São victimas sem culpa as ovelhinhas puras,

Que exgotam, a chorar, um calix de amarguras,

Amaryllis de amor, que a neve hoje amortalha;

São pedaços de vida, a quem, feroz, retalha

O braço fulminante, o braço disciplina.

Com musculos da Lei, e nervos da rotina.

Eu fui bater, Senhora, a esses corações

E ouvi a romaria, enorme, de afflicções

Que a Saudade conduz por lacrimosos mares,

E a duvida acorrenta á gleba dos pezares.

Eu vi... eu vi de pé a torre da agonia,

E o sineiro da morte, ao declinar do dia

Vibrar hereuleamente o funerario dobre!

Eu vi o que só vê quem ama, e quem descobre

No espirito que soffre, um pouco do seu segon

E assimilei, magoada, a dór que vos entrego,

Para que a demudeis em fonte de carinhos

Onde possam beber creanças e velhinhos;

Onder possa banhar-se a duvida remissa,

E onde vá reflectir-se a alma da Justiça.

Que a Justiça não é um Attila iracundo,

Que ponha a escorrer sangue o coração do mundo!

Foi um drama de febre, um lamentavel drama

Que a ignorancia causou, e compaixão reclama.

Demais, ninguem oppôz prophylaxias cautas,

Para salvar do abysmo os miserandos nautas.

Se lhes houvessem posto um facho assás visivel

No arsenal da instrucção... era evidente e crivel,

Que teriam ouvido a ameaça de destroços

Ao soltarem a amarra em ares muito grossos.

Mas largaram sem rumo... Iam de pannos largos

Aos ventos de um acaso; e breve, quão amargos

Acharam na derrota os devaneios louens!

O barometro foi baixando, logo, aos poucos...

O céo fez-se de tinta, a tinta côr da magua,

A barea afocinhou... metteu as perchas na agua...

Cerrou-se o nevoeiro... Onde is então a proa?

Não governou o leme e o barco foi-se à tôa!...

Depois... era o naufragio... e emfim não sei que fique

Quando o dever sossobra e a crença vae a pique.

― Bem pouco se perdeu ― dirá gente sem alma;

Mas a consciencia humana, intemerata e calma,

Dirá isto, sómente: Os homens são irmãos,

Quando algum resvalou, cumpre estender-lhe as mãos.

E vós, Senhora, e vós, que sois compadecida,

Haveis de ouvir chorar a alma dolorida

Da Terra Portugueza, a Terra dos proscriptos,

Terra que o Sol vestiu com osculos bemditos:

A Terra onde germina a luz dos corações

Que se chamaram Gama, ou Egas, ou Camões.

A esfarrapar um nome, a ensanguentar um sonho,

Veja quem sabe vêr.. pugnaz ou enfadonho,

Zoilo, que não dispensa o seu parceiro Efialto,

Embosca-se na insidia e arroja-se de salto!

Bem sabe elle que é falso o seu charlar cruel,

Mas Zoilo ou não tem alma, ou é de cascavel!...

Já Ovidio dizia: ― «A fórma é transitoria.»

E em cada cyclo o affirma a Natureza e a Historia.

E quanta, oh! quanta vez, quem préga taes officios

Transije com o ouro e com seus proprios vicios..

E quanta, qnanta vez, a intransigencia cega

De Diomedes a lei no seu proveito emprega!...

Ser firme é ser brioso e não dobrar o joelho

Á voz do fanatismo, ou funebre ou vermelho.

Ser forte é percorrer, de consciencia pura,

Zodiacos da Dôr nos mundos da Amargura.

Senhora! eu venho agora, e respeitosa insisto

Porque diviso, além, o Mestre, o Amor, o Christo,

Na hora da agonia, o olhar brando e sublime,

Baixando tão piedoso a resgatar o crime

Da fera ingratidão que o martellou na Cruz,

E o ouyo suspirar:
Todo o perdão é luz!

E Gorki não morreu no ignobil cadafalso,

Porque o senso commum não deu rebate falso

Nem quiz passar além das raias do provavel...

Por mim, que nada valho, entendo que é louvavel

N'um pensamento bom de paz e de concordia

Pedir a protecção, pedir misericordia

Para quem soffre, longe, a expiação de um erro,

Para quem, perto, soffre o espiritual desterro.

Podera eu redimir delictos e miserias,

Constellar de esperança essas regiões funereas

Onde ha perpetuamente as tragicas risadas

Do desespero hostil, das vidas condemnadas;

Podera eu resgatar a triste humanidade

Dobrando o meu joelho aos pés da Magestade...

E não hesitaria um só momento, um só!...

E viesse quem viesse a escarnecer, com dó,

Ditosa me julgava, emfim, antes da morte.

Bem dona do meu «eu», serenamente forte,

Eu seria maior que toda a intransigencia...

Que eu nunca lhe enfeudei a minha independencia,

Nem puz uma etiqueta ás crenças da minh'alma!

Podera eu demudar o odio em 'brando arrulho,

E o espirito de Luz me cingiria a palma,

Porque o supremo heroismo é dominar o orgulho.

·

Romaria da vida... a peor das romarias!

Apenas amanhece é logo: ― Parte! Parte!

Por bom, por mau caminho.. embora! has de affastar-te

Da aurora do teu berço, ó alma que dormias!

Ou caia o sol a prumo, ou nos brumosos dias,

― Romeiro, segue, segue! A Dôr anda a chamar-te

Nas miragens da Gloria, e o Sentimento a dar-te

As lagrimas do Sonho, aos ais de Ave-Marias...

― Pára... enxuga o suor... já estão ardendo os cirios...

Mas dize: em que empregaste a cerebrina acção?...

Foi na Arte?... Na Sciencia?... Em bellicos delirios?

Bemdito o «Agnus-Dei» que responder então:

― Os maus foram-me hostis, e eu, a sangrar martyrios,

Regnei com o meu pranto a ceara do perdão
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Por su autor
Angelina Vidal
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Autor
Angelina Vidal
Título
Semana da Paixão
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-semana-da-paixao--angelina-vidal-6fbeb4
Cita recomendada
Angelina Vidal, «Semana da Paixão», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-semana-da-paixao--angelina-vidal-6fbeb4.html

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