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PoetósferaLa BibliotecaJoaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo · Modernismo

Os Dois Amores — XIII

portugués

Era um dia um mancebo que ardente
Pobre vida esquecido vivia,
E uma virgem formosa inocente,
Que outra igual não se viu, não se via.
Quem separa o ardor da beleza?...
Um abismo fatal: — a pobreza.

O mancebo a donzela adorava?...
Quem o sabe?... ninguém dele ouviu.
Em seu peito esse amor sepultava,
Se o amor em seu peito nutriu,
E se amava, era triste esse amar;
Era um mudo e terrível penar.

E se amava, quem disso curou?
Quem ouvira do pobre o gemido?...
Se o seu peito um ai só desatou,
Foi um ai no deserto perdido.
E podia alta e nobre donzela
Ver um pobre chorando por ela?...

O que é feito da virgem, do pobre?...
Quando o dia voltar to direi.
Negro manto da noite nos cobre.
Ela dorme... mas ele... não sei.
É na terra das trevas o véu;
Vagam sonhos... misteriosos do céu.

Eis a virgem... num vale formoso,
De tapete de relva coberto,
Assentada em outeiro mimoso
Vendo um lago, que mora ali perto:
Cobre-a teto de mil trepadeiras,
Há dois montes, que c’roam palmeiras.

Vêm dos montes meninos amores,
Em seus braços cestinhas trazendo;
Tiram delas e espargem mil flores
Sobre a virgem, que os olha tremendo;
E os amores seus jogos seguindo
Vão brincando, dançando, e se rindo.

Soa um canto dormente, mavioso,
Que entoado no céu parecia,
Já das flores ao bafo oloroso,
E perfumes o ar rescendia:
E a donzela, que tanto sentiu,
Entre eflúvios e cantos dormiu.

E um menino com seta afiada
Rasga o peito da virgem então,
E com hábil mãozinha apressada
Rouba o puro, feliz coração.
E a ferida nem sangue jorrou,
Nem doeu, antes logo sarou.

Despertou a donzela assombrada
Com os clamores do bando loução.
E a chorar desatou desolada
Vendo o roubo do seu coração.
E o cruel, o fatal roubador
Foi na terra plantá-lo, qual flor.

A donzela chorava... chorava...
E os meninos as mãos ajuntaram.
E correndo pra onde ela estava,
Nas mãozinhas seu pranto apararam;
E vão todos com gesto apressado
A regar, o que estava plantado.

E nasceu um arbusto mimoso...
E do céu um anjinho baixou,
Que fiel, vigilante, piedoso
Pela virgem constante velou.
E esse anjinho amoroso, que vela,
Tem o rosto da mãe da donzela...

Já o pranto da virgem secou,
E o arbusto nascido cresceu;
De folhinhas mimosas se ornou;
O seu caule de espinhos se encheu.
Coração de uma jovem formosa
Brotou linda roseira viçosa.

Os meninos fugiram pra o monte,
Três botões a roseira brotou,
Dois aos lados um doutro defronte,
E o terceiro superno ficou.
Estava ali no envoltório da flor
Um segredo, um mistério de amor.

Veio então pelo lago descendo
Um batel, que em riquezas primava,
Tudo quanto ia nele se vendo
De tão rico e brilhante ofuscava;
Té que em terra seu dono saltou;
E a donzela, que o viu... trepidou.

Era rico; mas torvo no olhar,
E feroz, no sorrir causa susto;
Veio vindo... e enfim té parar
Mesmo junto do flórido arbusto;
E a donzela pra o seu anjo olhando,
Soluçou; porque o viu soluçando.

O seu braço monstruoso estendeu
Pra roseira o opulento senhor;
Dos botões o da esquerda colheu...
Soa um grito de susto, e de dor;
E o tirano sem nada escutar
O colhido botão vai beijar.

Porém pára espantado... sentido...
Frio... pálido espectro ficando,
Que o botão encantado, colhido
Vai-se todo mirrando... mirrando...
Esvaiu-se... mais forma não tem,

E o batel e seu dono também.
Veio então pelo lago chegando
Belo carro de prata formado,
E rinchando, bufando, nadando
Os ginetes, que o trazem puxado,
Té que em terra seu dono saltou,

E a donzela, que o viu... trepidou.
Era rico; mas velho e cansado
Todo em rugas o rosto mostrou;
Veio vindo a um bastão arrimado,
Té que junto do arbusto parou.
E a donzela pra o seu anjo olhando,

Soluçou, porque o viu soluçando.
O seu trêmulo braço estendeu
Pra roseira o tão velho senhor,
O botão da direita colheu...
Soa um grito de susto e de dor,
E o tirano sem nada escutar

O colhido botão vai beijar.
Porém pára espantado... sentido...
Frio... pálido espectro ficando;
Que o botão encantado, colhido
Vai-se em linda avezinha tornando...
Bate as asas... pra o céu já fugiu;

Velho, e carro... quem foi que os sumiu?...
Veio enfim pelo lago descendo,
Não um carro, nem rico batel.
Nem riquezas, nem luxo trazendo
Vasos d’ouro repletos de fel;
Mas somente uma cesta de flores,

Que teceram benignos amores.
Já o ar outra vez rescendia,
E outra vez doce canto se ouviu;
Entre eflúvios e a terna harmonia.
A donzela porém não dormiu.
Belo jovem em terra saltou;

Por que a virgem não mais trepidou?...
Era lindo o donzel... tão formoso...
Seu sorrir tem feitiços de amor;
Veio vindo... e parou cobiçoso
Como em êxtase olhando pra flor:
E a donzela pra o seu anjo olhando,
Suspirou, porque o viu suspirando.

O seu braço gracioso estendeu
Pra roseira o dileto de amor,
O terceiro botão já colheu...
Não se ouviu mais o grito de dor.
E o mancebo com fogo, e paixão
Vai beijar o colhido botão.

Porém pára... enlevado... perdido...
O presente de amor contemplando,
Que com tanta ventura colhido
Pouco a pouco se vai desfechando,
E oferece, em lugar de botão,
Da donzela o feliz coração...

Bate as asas o anjo contente,
E primeiro baixando o adejo,
Da donzela tão pura, inocente,
Vai nos lábios deixar santo beijo.
E saudoso alça então vôo seu
Para sua morada... no céu.

E o mancebo feliz... belo... ardente
Corre à virgem com vivo fervor,
E sem ver, que ela é toda inocente,
Quer também dar-lhe um beijo de amor,
Mas a virgem tremeu... não ousou...
E um grito soltando... acordou.

O que é sonho?... é verdade ou quimera!...
O que é sonho?... é a alma que vela,
Que vagando por mais alta esfera
Do porvir os arcanos revela?...
O que é sonho?... futuro sem véu?...
O que é sonho?... — mistério do céu.

Mas que é feito da virgem, do pobre?...
Já o dia voltou — Vou dizer:
Seu amor denso véu inda cobre;
Que ele ama não posso esconder;
Porém teme... receia... não diz;
Porque é pobre, por isso infeliz.

E a donzela formosa, inocente,
Inda livre, inda isenta de amor,
A ninguém ganhar dela consente
De seu sonho um botão,., uma flor;
Pois no rubro virgíneo botão,
Julga ver seu feliz coração.

E o mancebo, que tinha tentado
A paixão, que nascia, abafar,
Hoje a ela de todo curvado
Está com os olhos no céu a clamar:
"Quem não fora nascido; — ou então
"Quem colhera o terceiro botão!..."

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Autor
Joaquim Manuel de Macedo
Título
Os Dois Amores — XIII
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-os-dois-amores-xiii--joaquim-manuel-de-macedo-b0f8ae
Cita recomendada
Joaquim Manuel de Macedo, «Os Dois Amores — XIII», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-os-dois-amores-xiii--joaquim-manuel-de-macedo-b0f8ae.html

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