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Apolinário Porto-Alegre · Modernismo

O Vaqueano — XXIII

portugués

Já não ando enrabichado,
Não arrasto o meu cambão!
Aos bamburrais da tristeza
Foi-se o pobre coração.

Que de saudades que sinto
Das cochilhas lá do sul,
Dos campos onde escarceia
Meu parelheiro taful!

Ai vida longe dos pagos,
Vida tirana, por Deus!
Quem não gosta da querência,
Da querência que é dos seus?

Abombado, cabisbaixo
Ando nas terras de cá,
Deixo as bolas, deixo o laço,
Deixo o pingo, tudo já.

Boi xucro que vai de tropa,
Não chora o que eu já chorei;
Ai saudades de meu peito,
Saudades do que deixei!

Vem-me tudo na memória:
As tronqueiras e o curral,
A estância com seus potreiros,
O vargedo e o macegal!

Vem-me a casa da Marucas,
junto ao cerro do Baú,
Marucas, a morenita,
Sem parelha no tatu.

Ó tempos que eu roseteava
Com Marucas no sertão,
Chilenas finas de prata
Repenicando no chão!

Adeus, barrigas-verdes,
já vou a monarquiar,
mosto mais do meu churrasco
Que desses bagres do mar.

Dos campos do meu Rio Grande
Muito quero e até demais;
Eu como dos seus rodeios
E bebo dos seus ervais.

Volto à cancha dos amores,
A cancha do meu viver,
Que só lá posso chibante
Estar com meu bem-querer.

Eh! muchacha, se me viras,
Juraras que não sou eu,
Pois vou-me desbarrigado
Como quase quem morreu.

E juraras por teu rosto,
Encarnadinho como uva,
Que fiquei sem pelego
E tornei-me boitatá?...

Heu! Heu! o meu cavalo
Epuxa! que vou partir! ...
Risca a raia e teu relincho
Novamente faz ouvir.

Salta sangas e Porteiras
Que depressa já me vou
Pouco rodar e planchar-me
A campeiro como sou...

Retovei as boleadeiras,
Nova ínhapa o laço tem.
Heu! Heu! a toda a rédea
Prisco a prisco rompe além ...

Vamos, pingo, terra fora,
Feia terra que pisei!
Ai saudades, ai saudades,
Saudades do que deixei!

Bento Gonçalves da Silva
Da liberdade é o guia
É herói porque detesta
A infame tirania.

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Autor
Apolinário Porto-Alegre
Título
O Vaqueano — XXIII
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-o-vaqueano-xxiii--apolinario-porto-alegre-f14d8a
Cita recomendada
Apolinário Porto-Alegre, «O Vaqueano — XXIII», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-o-vaqueano-xxiii--apolinario-porto-alegre-f14d8a.html

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