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PoetósferaLa BibliotecaConstantino José Gomes de Souza

Constantino José Gomes de Souza · Romanticismo

O Libertino arrependido

portugués

No correr da juventude

Errei a estrada… perdi-me !

Sacrifiquei a virtude

Sobre o negro altar do crime.

Blasphemei, meu Deus, de quanto

Na terra encontrei mais santo,

Vosso culto e vosso altar…

Fui talvez, Senhor, perdão !

Mais fraco que Salomão,

Mais impio que Balthazar…

No sonho do amor primeiro,

Que encanta a manhan da vida,

Lancei meu porvir inteiro

Aos pés da mulher perdida,

Que com marmorea frieza

Riu-se de tanta pureza

Com risos de Satanaz…

Deusa infame das orgias,

Lançou a flôr de meus dias

Ao fogo das paixões más.

Sorvi-lhe os beijos devassos

Com soffreguidão immensa !

Adormeci nos seus braços.

Acordei sem uma crença…

Quiz amor depois… Mentira !

Na minh’alma se extinguira

Todo o nobre sentimento ;

Só fiquei com a consciencia

De minha extincta innocencia

De meu negro aviltamento.

Tão moço ! E já do passado

Triste, pallida ruina,

Com o coração gangrenado

Dos beijos da messalina !

Do porvir nem luz d’esp’rança,

Do passado, atroz lembrança

Do tempo que errado andei…

E o resto então d’uma vida,

Pelo vicio carcomida,

Ao proprio vicio entreguei.

Aos pés de gentil donzella,

Perdido, lancei-me um dia,

E jurei que a amada, e ella

Creu na jura qu’eu fazia ;

E quando, ai triste ! esperava

O porvir que lhe acenava

D’aureos sonhos através,

Da vida quebrei-lhe o encanto,

De virgem rasguei-lhe o manto

E rôto atirei-lhe aos pès.

Enlouqueceu de desgosto ;

De sua loucura—ri-me!

Cuspi-lhe depois no rosto ;

Fui assim de crime em crime…

E, da paixão na vertigem,

Essa que fora uma virgem

Lancei do mundo á irrisão.—

O mundo injusto applaudiu

Do anjo a queda e o cobriu

De escarneo, de maldição.

Pobre victima innocente

Em ais, em pranto definha,

Sofrendo a pena inclemente

Da culpa qu’era só minha !

A’ alva de sua innocencia

Que amor, meu Deus, que candura !

Desfolhou-se o branco lyrio

Ao furor de meu delirio

No abysmo da desventura.

Pobre criança ! Perdida,

Pede ao céu consolação ;

Pallida fronte, abatida,

Ao mundo pede perdão.

Mas de balde, porque o mundo,

Com sarcasmo atroz, profundo,

Lança-lhe em face o seu crime…

Ai ! perdão para o erro seu!

O criminoso—fui eu;

Mas, meu Deus, arrependi-me !

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Por su autor
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Expediente

Autor
Constantino José Gomes de Souza
Título
O Libertino arrependido
Lengua
portugués
Época
Romanticismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-o-libertino-arrependido--constantino-jose-gomes-de-so-e87c68
Cita recomendada
Constantino José Gomes de Souza, «O Libertino arrependido», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-o-libertino-arrependido--constantino-jose-gomes-de-so-e87c68.html

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