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Leandro Gomes de Barros · Modernismo

O Homem que Subiu em Aeroplano até a Lua

portugués

.mw-parser-output .dropinitial{float:left;text-indent:0}.mw-parser-output .dropinitial .dropinitial-fl{float:left;position:relative;vertical-align:top;line-height:1}.mw-parser-output .dropinitial .dropinitial-mid .dropinitial-initial{float:left;line-height:1em;text-indent:0;font-size:3em;margin:0 0.1em 0 0}No tempo de Babylonia

há muitos anos atraz

um homem todo gigante

falou um dia aos seus pais

que tinha grande vontade,

de correr a imensidade.

nem que não voltasse mais.

Baratão era o seu nome

pela historia conhecido,

era um grande aventureiro

por todo mundo corrido

de nada tinha receio

p'ra tudo ele achava meio,

nunca ficou entupido.

Ele tinha um oficina

por ser muito bem montada,

fazia tudo no mundo

cada maquina enrascada !...

ficava o povo tão besta

vendo toda aquela festa,

da oficina afamada !

O boeiro da oficina

era grosso e tão comprido

como a torre de Babel

de ferro só construido

o motor era um danado

corria tão apressado,

que só se ouvia o zunido,

Essa oficina fazia

espada, lanças, couraças

cada um cantão pavoroso

que tinha mais de cem braças,

um tiro desse canhão

derrubava um batalhão,

nem que tivesse mil praças.

Uma vez foi Baratão

aos engenheiros e disse,

que inventassem um motor

que até á lua subisse :

gritou a todos zangado

que o motor fosse inventado,

nem que a cachola partisse.

Dentro de um mez inventou-se

o motor de Baratão,

depois de tudo arranjado

serviu de admiração

tinha as azas p'ra subir

e não podia cair

pois era forte a armação,

Era uma cousa horrorosa

a tal maquina inventada,

uma legua de comprida !

depois que ficou armada

todo mundo veio ver

apenas para conhecer

a maravilha falada.

O motor tinha uma casa

de aço toda fornida,

p'ra mais de mil corrupios

todos de prata batida

tudo era fino e custoso

num salão bem espaçoso,

havia agua e comida

Tinha força p'ra levar

todo o povo da cidade,

foi muito bem construido

movido á eletricidade

corria só pensamento

se faltasse mesmo o vento

voava sempre a vontade.

Baratão se despediu

de todo o povo e dizia,

que dentro de uma semana

lá na lua chegaria

toda gente duvidava

e que ele nunca chegava,

mangando dele sorria.

Baratão vestiu-se todo

de um roupão de aço feito,

mandou ver se o motor

estava firme e direito

e disse ao maquinista :

—apronte tudo, se vista

veja se isto tem geito.

Daí a pouco a sinêta

deu sinal para subir,

o maquinista e o pilôto

sabiam bem dirigir

o povo estava ansiôso

e o bicho misteriôso,

começava a se bulir.

Baratão mandou largar

e logo o bruto roncando,

lá se vai pelas alturas

já pelas nuvens passando

o povo besta ficou

e muito tempo passou,

de Baratão se falando.

Já faziam oito dias

que o aeroplano voava,

estava perto da lua

e pouco tempo gastava

Baratão já estava mole

de tanto soprar no fole.

para ver se assim respirava.

De repente um barulhão

no aeroplano se ouviu,

era uma aza do bruto

que a manivela partiu

mas o pilôto depressa

fez o concerto na peça,

o aeroplano seguiu.

Baratão chegou na lua

a meia noite em ponto

sem dormir oito dias

já estava fraco e tonto

foi dormir um bocadinho

para de manhã cêdinho,

está dispôsto e bem pronto.

Quando foi de manhãsinha

eles não se levantaram,

era um somno tão pesado

que nem na lua pensaram

os habitantes de lua

quando sairam para a rua,

muito espantados ficaram.

Todo povo se juntou

para ver aquele troço,

jogavam pedras, batiam

fazendo grande alvoroço

que o pessoal do motor

levantou-se com terror,

vendo aquele catrapoço.

Baratão e o pessoal

nem sabiam a onde estavam,

era um sono tão damnado

nem do motor atinavam

foram a porta e abriram

e os habitantes que viram,

no motor todos entravam

Imagine que chafurdo

fiseram com Baratão !. . .

o pessoal do motor

correu tudo em camisão

quando viu que esta gente

em gritalhada estridente,

carregava um páu na mão,

Baratão gritou a todos

que fossem logo se armar,

que os habitantes da lua

queriam lhe devorar

ficou tudo bem armado,

cada um com seu machado,

foi toda gente esperar.

Daí há pouco foi sangue

que fez lagôa no chão,

os habitantes da lua

lutavam sem coração

mas tinha um mêdo damnado,

do pessoal do machado,

armado por Baratão.

O piloto e o maqninista

com a cabeça lascada,

cairam logo sem sentidos

depois da guerra serrada

só restava o capitão

ajudando Baratão,

numa coragem danada.

Com duas horas depois

o capitão cambaleia,

caindo morto no chão

mas Baratão não receia

de muita força no braço

fazia tudo em pedaço,

puma luta horrenda e feia.

Findou-se a luta de noite

Baratão é vencedor,

mais o povo enraivecido

arrebentou o motor

Baratão de tão cançado

caiu no chão desmaiado,

a gemer com muita dor.

Baratão quando tornou

ficou muito aperriado,

vendo o seu aeroplano

lá no canto esbandalhado

e de tanto imaginar

como havia de voltar,

ficou quase amalucado.

Estava tudo deserto

não se ouvia um ruido,

Baratão se decidiu

depois de ter refletido

de sair deste lugar

pôz-se logo a caminhar,

quass mole e mal comido.

Depois de longa viagem

sem parar um só instante,

Baratão foi dar em frente

de um palacête importante

morava aí um Sultão

celebrava-se um festão,

o aniversario de Amante.

Amante era uma princesa

unica filha real!

era tão linda e tão alva

que parecia um cristal

com quinze anos somente

seduziu toda gente,

com seu riso sem igual.

Baratão se decidiu

a entrar no palacête,

p'ra poder ter a licença

se apresentou ao cadeta

que o batalhão comandava,

e o pelotão que formava,

era armado de cacête.

O cadête subiu logo

para o Sultão avisar,

qua gente de outra nação

desejava lhe falar

o Sultão admirou-se

e disse fosse quem fosse,

ordenasse para entrar.

Baratão todo garboso

com sua farda encarnada,

com firmeza e rapidez

atravessou a escada

a princesa quando o viu

muita alegria sentiu,

e ficou apaixonada.

Baratão entrou na sala

onde estava o gran-Sultão,

tocou a banda de musica

houve grande animação

foram para a mesa e jantaram

os dois então discursaram,

na maior satisfação.

Baratão a todos disse

que da terra era habitante,

na lua veio parar

num motor grande e possante

que o povo bravo quebrou

sem poder voltar ficou,

pelas montanhas errante.

Ficaram todos surpresos

sem nem poderem falar,

e pensaram ser mentira

que ele acabou de contar

Baratão quando provou

com papeis que lhe mostrou,

não quizeram duvidar.

O Sultão ofereceu

um quarto p'ra Baratão,

uma cama prateada

com um macio colchão

tudo que ele precisava

roupas finas ele encontrava

e mais criado a prontidão.

Tanto dias se passassem

como o Sultão se alegrava,

mas cuntente e jovial

do que ele, Amante estava

pois no jardim todo dia

mas o Sultão não sabia,

com Baratão coversava.

O Sultão todos os dias

saia p'ra passeiar,

com Baratão pelos campos

para tudo lhe mostrar

mas o nosso Baratão

prestava pouca atenção,

só na princesa a pensar.

Toda familia real

Gostava de Baratão,

por saber que ele era

um homem de educação

fazia todo aparato

dispensando todo trato,

merecido com razão.

Baratão ficava triste

porque amava a princesa

e não podia falar-lhe

assim com tanta afoiteza

suspeitava que o Sultão

lhe negasse a sua mão,

por não ser da realeza.

Mas a princesa lhe disse:

—não te vexes Baratão

pois há um dia no ano,

que meu pai faz concessão

não nega nada a ninguem

até os presos tambem

ele concede o perdão.

É o dia de seus anos

esse dia venturoso,

daqui mais a na quatro meses

fique certo e esperançoso

se minha mão for pedida,

ela será concedida,

e tú serás meu espôso.

Baratão ficou contente

e começou a esperar,

esse dia desejado

que ele havia de dar

a mão da linda princesa

e assim com toda certeza

na realeza ia entrar.

Era, uma vida risonha

que Baratão dissipava,

embora fosse escondido

mas com Amante falava

ela de noite ia a varanda

e ele fóra de outra banda,

a noite inteira prosava.

Chegando os dias dos anos

dos festejos do Sultão,

para fazer o seu pedido

estava pronto o Baratão

numa sala reservada

o Sultão fez a chamada,

p'ra quem quizer concessão.

Baratão pediu licença

ao Sultão para falar,

um importante negocio

tinha com ele a tratar

o Sultão mandou que chegasse,

p'ra bem perto e se sentasse,

Baratão poz-se a narrar.

-— Gran-Sultão venho pedir

com respeito e seatamento

sem temer ser recusado

vossa filha em casamento

há muito eu amo a princesa

p'ra ela não é surpreza

este meu sublime intento.

O Sultão muito contenta

concedeu-lhe este pedido,

chamou logo a sua esposa

para saber do ocorrido

do casamento de Amante

ficou tudo num instante,

acertado e resolvido.

Quando Amante soube disso

de alegria desmaiou,

nesse dia foi um fravo

e todo e povo dançou

foi banquêtes mais banquêtes

buscapé, bomba foguêtes,

toda a côrte se formou.

Foi uma festa tão grande

se dançando e se bebendo,

com seis dias e seis noites

o povo foi enfraquecendo

pegou num somno damnado

acordou-se empazinado,

foi um andaço tremendo.

O casamento de Amante

era daí a um mez,

Baratão que estava alegre

alegrou-se de uma vez

pois esperava uma herança

da toda aquela papança,

só de casar trinta e seis.

Um capital de mil contos

já por mez ia render,

estou rico desta vez—

começou ele a dizer—

um reinado p'ra mandar

riqueza para gozar,

que vidão eu hei de ter !

Chegou os dias das bôdas

de Amante e Baratão,

se no pedido houve festa

agora sim com razão

bolos finos e cerveja,

em bandeja e mais bandeja,

haja bomba e foguetão.

O povo já não sabia

como havia de brincar,

de beber e de comer

como havia de dançar

fez-se um bougquêt para os noivos,

de cravos, lírios e goivos,

quando foram se casar.

Uma enorme carruagem

dois mil carros enfeitados,

os arreios dos cavalos

eram todos prateados

as egrejas repicavam

e todos flôres jogavam,

sobre os noivos aclamados,

Houve festa p'ra dois mezes

no reinado do Sultão,

tres mil contos se gastou

com Amante e Baratão

fazia gosto se ver

tanta bebida e comer,

do povo a disposição.

Saiu depois Baratão

p'ra seu novo palacête,

o povo todo esperou

com girandólas e foguete

foi outro frevo arrojado

onde lhe foi preparado,

um rico e lauto banquete.

Baratão mais sua Amante

hoje vivem calmamente

embora já bem velhinhos

não tendo mais nem um dente

mas como tem um licôr

que dá-lhe todo vigor,

viverão eternamente.

Quem duvidar dessa historia

vá na lua perguntar,

só assim por este meio

pode se certificar

se isso foi certo ou não

a familia de Baratão,

vive ali para provar.
T.VIII

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Autor
Leandro Gomes de Barros
Título
O Homem que Subiu em Aeroplano até a Lua
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Sala
La Biblioteca
Identificador
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Cita recomendada
Leandro Gomes de Barros, «O Homem que Subiu em Aeroplano até a Lua», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-o-homem-que-subiu-em-aeroplano-ate-a-lua--leandro-gomes-de-barros-1b7782.html

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