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Vicente de Carvalho · Vanguardias / s. XX

O dia seguinte do amor

portugués

Aves fugidias que passais em bando

Pelo azul da tarde, sobre o azul do mar,

Aves fugidias que passais cantando,

Que fazeis? Passar.

De repente surgis. No vasto céu

Um turbilhão de alvura de repente cresce;

Passa, afasta-se, e ao longe, e como appareceu

Desapparece.

Brancura macia de plumas, rumor leve

De azas que ruflam de vagar,

Passais como flocos de neve

Que sussurram no vento e se desfazem no ar.

De tudo isso que resta? Um quasi nada: apenas

Em meu olhar distrahido

A vaga impressão de uma alvura de pennas,

E o echo de um rumor cantando em meu ouvido.

Sonhos de amor, perfumados

Do aroma da flor da laranjeira,

Botões de rosa desabrochados

Em goivos, desfeitos na lama e na poeira;

Sonhos do olhar namorado

Ao descobrir, como um triumphador,

Todo enlevado, todo enlevado,

Que uns seios de marmore arquejam de amor;

Sonhos do ouvido, escutando

O ingenuo amor que se revela emfim

Involuntariamente, quando

Em phrases que negam a voz diz que sim;

Sabor do primeiro beijo

Que mal poisa, medroso, leve, leve,

Num rosto virgem onde o pejo

Semeia de rosas brancuras de neve;

Sonhos de amor, sois como a rosa

Que, nem bem colhida,

Perde a frescura que a tornou formosa,

Perde o perfume que a tornou querida.

Primavera vivida

De amar e ser amado aos vinte annos em flor,

Entrada triumphal do coração na vida,

Amor, amor, amor!

Rapida travessia

De um mar azul, rasgado entre rochedos nús

Nos quaes se ignora o amor, ou a alma se enfastia...

Região lavada em luz

Entre esses dous extremos

Tão proximos — o olhar que ainda não sabe ver

E o que vê — triste fim dos encantos supremos! —

O que vale a mulher;

Miragens do desejo, enlevos da esperança,

Só é feliz o amor que espera e não alcança.

Infinita doçura, inegualavel coisa,

Contacto delicioso, ineffavel pressão

Da mão amada quando encontra a nossa mão

E, brandamente, e como achando um ninho, poisa;

O’ labios da mulher palpitantes de amor,

O’ labios que humidece o orvalho do desejo,

Doces labios servis onde abotôa o beijo,

Prestes a se deixar colher como uma flôr;

O’ seios brancos onde a paixão, a offegar,

Chama a paixão, attrai a carne, acena ao goso;

O’ seios brancos onde uns olhos de amoroso

Vêm reflexos do céu na ondulação do mar;

Encantos da mulher amada; commovidos

Deslumbramentos; gosto indizivel, sabor

Da unica hora feliz de toda a vida; amor,

Sonho em que a alma é que sente o goso dos sentidos;

No coração que de vós se alvoroça

Resplandeceis, miragens, enganos,

De uma luz que não é vossa...

Que é só dos nossos vinte annos.

Tremulas maretas que passais boiando

Pela flôr das ondas nos parceis do mar;

Tremulas maretas que alvejais cantando,

Que fazeis? Passar.

De repente surgis... No mar sem fim

Um turbilhão de alvura de repente cresce;

Passa; afasta-se; e como appareceu, assim

Desapparece.

Brancura brilhante de espumas, sons velados

Da agua no açude de um pomar.

Passais, desfeitos, desmanchados

Na tristeza sonora das ondas do mar.

De tudo isso que resta? Ai! Quasi cousa alguma:

Em meu olhar distrahido

A vaga impressão de alguns flocos de espuma

E o écho de um rumor cantando em meu ouvido...

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Por su autor
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Expediente

Autor
Vicente de Carvalho
Título
O dia seguinte do amor
Lengua
portugués
Época
Vanguardias / s. XX
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-o-dia-seguinte-do-amor--vicente-de-carvalho-de1cc4
Cita recomendada
Vicente de Carvalho, «O dia seguinte do amor», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-o-dia-seguinte-do-amor--vicente-de-carvalho-de1cc4.html

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